Cultura

Kwasi Wiredu e as traves mestras do seu pensamento

Luís Kandjimbo |*

Escritor

Ao tomar conhecimento da morte do professor Kwasi Wiredu (Outubro, 1931 – Janeiro, 2022), um dos três fundadores da Escola de Legon, ocorreu-me prestar mais uma homenagem a este ilustre filho do Ghana. Trata-se de um filósofo cujas obras frequento há mais de três décadas. Segundo um professor de Filosofia da Universiade do Ghana, Martin Odei Ajei, a Escola Filosófica de Legon distingue-se pela influência decisiva exercida na orientação filosófica e desenvolvimento do Departamento de Filosofia da Universidade do Ghana, campus de Legon. São três filósofos ganenses: Kwasi Wiredu (1931–2022), Kwame Gyekye (1939-2019) e William Abrahm.

16/01/2022  Última atualização 08H00
© Fotografia por: DR
Não é casual que, logo a seguir à independência do Ghana, em 1959, Kwame Nkrumah (1909-1972), filósofo que veio a ser presidente do Gana, encarregou dois membros da referida âncora filosófica da África Ocidental, nomeadamente, William Emmanuel Abraham e Kwasi Wiredu para empreenderem pesquisas e obtenção de cópias, em bibliotecas europeias, de exemplares da primeira dissertação do filósofo ganense do século XVIII, Anton Wilhelm Amo Afer.


Nota bio-bibliográfica

Kwasi Wiredu nasceu em Kumasi, então Gold Coast, actual Ghana. Após os seus  estudos primários, frequentou o curso de Filosofia na Universidade de Ghana, de 1952 a 1958, tendo obtido a licenciatura na Universidade de Oxford, em 1960. Chega à filosofia através da leitura de obras de Platão e Bertrand Russell. Mas, a sua iniciação à filosofia africana tem lugar com uma obra não inscrita na lista do cânone filosófico britânico, na época.

Trata-se do livro "Akan Doctrine of God: A Fragment of Gold Coast Ethics and Religion” [A Doutrina Akan de Deus: Um Fragmento da Ética e Religião da Costa do Ouro] de Joseph Kwame Kyeretwie Boakye Danquah (1895-1965), o primeiro africano doutorado em Filosofia na África Ocidental, nas primeiras décadas do século XX. William Emmanuel Abraham, seu grande amigo e compatriota, matriculado um ano antes na Universidade de Oxford, teve um grande papel nas opções que o conduziram à exploração filosófica do pensamento africano. Pode dizer-se, por isso, que em matéria de Filosofia Africana a formação de ambos os amigos ocorreu à margem da universidade. Enquanto estudante, em Oxford, Wiredu foi aluno de ilustres filósofos e professores britânicos, tais como, Gilbert Ryle, orientador  da sua dissertação, "Conhecimento, Verdade e Razão”, Peter Strawson e Stuart Hampshire.

Durante mais de duas décadas, isto é, de 1961 a 1984, Kwasi Wiredu foi professor na Universidade de Ghana. Na qualidade de professor visitante, trabalhou na Nigéria (Universidade de Ibadan) e Estados Unidos da América (Universidade da California, Duke University, Universidade de Richmond, Universidade da Florida). Até à sua morte, Kwasi Wiredu foi professor de Filosofia no Departamento de Filosofia da Universidade do Sul da Flórida, Tampa, onde leccionou desde 1987.

Foi membro do Comité de Directores da Federação Internacional de Sociedades Filosóficas de 1983 a 1998 e Vice-presidente do Conselho Inter-Africano de Filosofia. Publicou: "Philosophy and an African Culture” [Filosofia e Cultura Africana] 1980; "Person and Community: Ghanaian Philosophical Studies”, (com Kwame Gyekye, [Pessoa e Comunidade: Estudos Filosóficos Ganenses] 1992; "Conceptual Decolonization in African Philosophy”, [Descolonização Conceptual na Filosofia Africana] 1995; "Cultural Universals and Particulars: An African Perspective”, [Universais e Particulares Culturais. Uma Perspectiva Africana] 1996; "A Companion to African Philosophy” [Compêndio de Filosofia Africana], (2003).

Têm vindo a ser publicadas várias obras monográficas sobre a vida e obra de Kwasi Wiredu, enre as quais destaco o livro de  Sanya Osha Osha, «Kwasi Wiredu and Beyond: The Text, Writing and Thought in Africa», [Kwasi Wiredu, Além do Horizonte: o Texto, a Escrita e o Pensamento em África], 2005.


O que é a filosofia para Wiredu?

A resposta à pergunta é esboçada em toda a sua obra. Do ponto de vista cronológico são importantes três textos: um publicado em 1972, outro em 1974 e um apresentado em 1975, respectivamente, "On an African  Orientation in Philosophy”, na revista nigeriana "Second Order” da Universidade de Ifé; "What is philosophy?”,  na revista "Universitas” da Universidade do Ghana; e "What can philosophy do for Africa?” no Colóquio do Conselho Internacional para Filosofia e Estudos Humanísticos. Os três  textos  (capítulos, 2, 4 e 10) integram o seu livro "Philosophy and an African Culture”, dado à estampa em 1980. Kwasi Wiredu reitera uma ideia central com que opera, quando se propõe responder à pergunta em epígrafe.

Não há vácuo em filosofia. Por essa razão, retoma as palavras de Bertrand Russell, um dos seus mestres, que critica o defeito transversal na maioria das histórias da filosofia, apresentada comos narrativas em que cada filósofo aparece como se estivesse no meio de um vácuo. Ao invés, cada filósofo é sempre um produto do seu meio. Nele se cristalizam e concentram pensamentos e sentimentos que, de maneira vaga e difusa, são comuns à comunidade a que pertence.
As respostas de Wiredu resumem-se no seguinte. Em primeiro lugar, a função do filósofo consiste em examinar os fundamentos intelectuais da nossa vida, devendo para o efeito recorrer aos melhores modelos de conhecimento e de reflexão disponíveis para o bem-estar dos humanos. Em segundo lugar, a filosofia deve ser abordada ´com um espírito de abertura e liberdade 

Por isso, em 2002, numa entrevista ao filósofo nigeriano Olusegun Oladipo, Kwasi Wiredu afirmava que era necessário  expurgar o pensamento filosófico africano do que pode ser assimilação acrítica dos modos de pensar ocidentais e estudar cuidadosamante as nossas próprias filosofias tradicionais.


Contacto com a obra

Em 1990, vivia em Benguela. Andava ocupado com a docência da Língua Portuguesa e da Literatura. Estava a escrever e a organizar o meu segundo livro de ensaios, "Apologia de Kalitangi”. Nessa altura, em correspondência que me chegava, através da caixa postal da Estação dos Correios da cidade, recebi uma revista enviada por Laurent Monnier, um sociólogo da Universidade de Lausanne que conheci seis anos antes no Colóquio Internacional, organizado pelo Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris.

Tratava-se da publicação periódica do Instituto Universitário de Estudos do Desenvolvimento de que Monnier era investigador. O número 26 da sua edição de 1990 era consagrado "às crenças africanas e à racionalidade ocidental”. O debate gravitava à volta de dois textos do antropólogo inglês Robin Horton: "La pensée traditionnelle africaine et la science occidentale” [Pensamento Tradicional Africano e Ciência Ocidental]  e "La Tradition et la modernité revisitées” [Tradição e Modernidade Revisitados].

O primeiro artigo de Robin Horton foi publicado pela primeira vez em 1967. Mas, é no segundo artigo, [Tradição e Modernidade Revisitados], que Horton cita "How not to Compare African Traditional Thought with Western Thought” [Como não Comparar o Pensamento Tradicional Africano com o Pensamento Ocidental], o texto de Kwasi Wiredu publicado em 1976, integrado na colectânea de artigos reunidos  em "Philosophy and an African Culture”, [Filosofia e Cultura Africana]. Por sua vez, nesse texto, Wiredu dirige uma forte crítica aos antropólogos e não-antropólogos ocidentais que se aventuram em estabelecer comparações "em termos absolutos”, respeitantes ao desenvolvimento de diferentes povos, nomeadamente, Africanos e ocidentais. Concretamente, Wiredu acusa os referidos antropólogos de não conhecerem as culturas que devem suportar o desenvolvimento, além de não revelarem qualquer interesse pela filosofia africana contemporânea. Enquanto o beninense Paulin Hountondji se ufanava com a sua crítica à etnofilosofia, nos anos 70 do século XX, Wiredu revelava preocupações com uma argumentação legitimadora, tendo em vista aquilo a que designou por "descolonização conceptual”. Considerava que a questão do modo  como o pensamento africano pode ser convenientemente comparado com o pensamento ocidental, não é apenas um problema académico. É sobretudo uma "urgência existencial”.


Democracia consensual

Com a minha primeira imersão na obra de Kwasi Wiredu, seguiu-se a leitura de "Person and Community: Ghanaian Philosophical Studies”, [Pessoa e Comunidade: Estudos Filosóficos Ganenses], obra colectiva co-editada com Kwame Gyekye, um outro filósofo ganense.

A partir daí o conhecimento da obra do filósofo ganense foi-se aprofundando. Consolidava-se e alargava-se o meu horizonte de estudos das escolas e tradições filosóficas contemporâneas africanas. A fecundidade do seu pensamento é-me igualmente revelado através de um outro texto, "Democracy and Consensus. A Plea for a Non-Party Polity”, [Democracia e Consenso.


Em Defesa de uma Política sem Partidos]. Trata-se de uma polémica a que dediquei alguma atenção num livro de ensaios. K.Wiredu tematiza aí a democracia consensual, entendida como alternativa à democracia  representativa, numa perspectiva apologética que visa provar  que  o  modelo   deve  ser  enriquecido  com  as  experiências africanas. Para Wiredu, no  contexto  das  necessárias  adaptações  do  modelo  de  democracia  representativa  em África  e  submetidas  as  tradições  políticas africanas  antigas  e actuais  a  uma  severa  crítica, o  consenso  há-de  ser  um procedimento  fundamental  para  o processo de  tomada  de  decisões, concorrendo  com  o  princípio   maioritário, admitindo a possibilidade de uma subalternização dos partidos políticos.


Descolonizar e filosofar
em línguas nacionais 

Em "Conceptual Decolonization as Imperative in Contemporary African Philosophy: Some Personal Reflections” [Descolonização Conceptual como Imperativo da Filosofia Africana Contemporânea: Reflexões Pessoais], artigo publicado na revista francesa "Rue Descartes” do Collège International de Philosophie, numa edição coordenada por Jean-Godefroy Bidima, em 2002, Kwasi Wiredu narra a história da formulação inicial do seu "pensamento descolonizado”. Refere que pela primeira vez usou o enunciado "descolonização conceptual” em Junho de 1980, na conferência da UNESCO sobre o ensino e investigação da filosofia em África, realizada em Nairobi. Quando regressava ao Ghana e em trânsito pelo aeroporto de Lagos, adquiriu o livro dos autores nigerianos, "Toward the Decolonization of African Literature. African Fiction and Poetry and Their Critics” [Para a Descolonização da Literatura Africana. Ficção, Poesia e seus Críticos]. Seis anos depois, Ngugi wa Thiong’o publicou o seu "Decolonizing the Mind.The Politics of Language in African Literature” [Descolonizando a Mente. A Política da Língua nas Literaturas Africanas]. Por isso, Kwasi Wiredu com elevada humildade intelectual não hesita em reconhecer que "a necessidade de descolonização mobilizou mais rapidamente os escritores africanos e os investigadores  das literaturas africanas do que da filosofia africana”.


O seu lema: "fellow philosophers, let us learn to think in our languages!” [caros colegas, aprendamos a pensar através das nossas próprias línguas] inscreve-se no imperativo da "descolonização conceptual”. A lógica fundada no uso das línguas nacionais – tal como Wiredu exemplifica, recorrendo aos operadores da língua Akan do Ghana – fornece muitas provas dessa necessidade. Aliás, constitui um tema do capítulo de outro livro de leitura obrigatória, "Cultural Universals and Particulars: An African Perspective”, [Universais e Particulares Culturais. Uma Perspectiva Africana].

É neste sentido que a  Filosofia Africana  compreende duas componentes, a tradicional e  a moderna,  sobre as quais se impõe o "imperativo da descolonização”. Para o efeito, afirma Wiredu, é importante investigar e estudar  o pensamento  individual dos filósofos autóctones que contribuem  para as filosofias das sociedades tradicionais. Tais  estudos  contêm um grande potencial  de descolonização. Ajudam a eliminar a impressão que largamente inspirou  procedimentos  coloniais  de  marginalização  que  sustentavam  a  ideia  da inexistência  de  pensadores originais. Portanto, morreu Kwasi Wiredu. A sua obra continuará a ser fecunda no plano existencial para as presentes e futuras gerações de cidadãos Africanos e Afrodescendentes.
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*Ensaísta e professor universitário

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