Opinião

Kotas à volta da fogueira

Guimarães Silva | Bengo

Agosto da despedida do Arquitecto da Paz foi-se. Cumprimos com o devercívico de votar pela quinta vez. Neste oitavo mês do ano, os kotas do bairro, aqui em Cacuaco, (eu incluído) sentámo-nos à volta de uma fogueira para abrir o baú de recordações pela mão e cachimónia do maisvelho Tiago Camba José, conhecido no seio dos avilos, atrevidos e curiosos como “O Mítico ”. De 79 cacimbos passados, tem conhecimentos, quanto baste, para debater múltiplos assuntos sobre Angola.

11/09/2022  Última atualização 09H53

O motivo da fogueira não era para menos, reflectir sobre o esforço quecada um de nós já emprestou ao país, que entra para os 47 anos de independência. Os presentes apostaram no berreiro para sustentar feitos. Tudo positivo. Gabarolices. Sem falhas. Há quem revelou, inclusive, que tinha descoberto Ene vezes agulhas em palheiros, porque era um craque de fina fibra.

Sem delongas, "O Mítico”, qual presidente  do local de lenha e fogo,do alto da sua idade idosa questionou actos e factos. "Cumpriram a missão no grande combate ou ficaram a meio? Uma coisa é mostrarvaidades, porque foi ‘assanhado’ e aceitou cargos só para ter benesses. Outra é ‘colocar pedras nos alicerces’ da Pátria rumo ao desenvolvimento. Acredito que muitos de nós aqui, com ‘muita boca pra

nuca’, nunca fizemos o suficiente. Furtamo-nos a sacrifícios, só olhámos para o nosso umbigo, quando a Mãe-Pátria muito precisou de nós. Do nosso esforço”.

Um dos presentes sentiu-se chocado. Aborrecido, porque a determinada altura, "numa das muitas missões que deram corpo ao meu contributo ao país, fiquei a meio. Exonerado sem motivo aparente”.

A afirmação despoletou o lado pedagógico de "O Mítico”. Abriu a matraca e não mais parou. Foi aula e sapiência: "Alto lá, muitos têm tido acções pouco dignas ao longo do mandato. Sem dar por elas navegamna arrogância. Não têm amor ao próximo. Desprezam o subordinadoangolano e cultivam a incompetência. Há que fazer uma  auto avaliação de desempenho. Alguma vez o fez?”

À volta da fogueira o alarido foi notório. Choveram questões e insinuações. Boa parte dos presentes defendia que devido a experiência acumulada em determinado cargo, o demitido deveria ser transferido para outro similar, para continuar a emprestar esforço ao país. O velho "O Mítico” foi aos arames: "Epá, nem todos devem ser reis. Nem todo o homem nasceu para ser grande. Como seria um mundo só de generais… sem soldados? Quem ficou a meio da missão, claramente teve debilidades. Por vezes faltou adaptação. Como fica a oportunidade para os demais?”

Este "chicote” caiu mal a muitos presentes. Tocou corações. Surgiu então a questão:  atingir o pleno era uma obrigatoriedade natural? "O Mítico” olhou para quem tinha questionado e com calma respondeu: "Não, mas devemos tentar. Daí a luta para ultrapassar o próximo, sem ultrapassagens à direita, nem  recurso ao nepotismo”.

À conversa trouxe alguns porquês sobre a concentração de muitos quadros em Luanda, quando até há oportunidades nas províncias. Ovelho: "A capital sempre foi ‘um mel gostoso e bastante apetitoso’. Agrande praça de oportunidades para os jovens e El Dourado para uns quantos estrangeiros. A província é boa para cumprir etapas, para a endurance e tornar-se competitivo. Também serve para definir a Missão,construir a Visão e inclusive adiantar Valores. Por vezes não épreciso chegar à capital para mostrar valor. A maioria dos que aqui estão, na capital, nem por isso  são craques. Uns são oportunistas, outros graças ao nepotismo…”

"Outra maka mais. Como assim?”, remata outro dos aquecidos da fogueira. De pronto à contraparte, a resposta de "O Mítico : "Sabias que muitos que trabalham em Luanda só conhecem o país no mapa? Lutam por viagens para o estrangeiro para capacitações, quando o que vãofazer lá fora tem campo nas restantes 17 províncias? A realidade no terreno é terreno fértil para aplicar conhecimentos e crescer”.

A fogueira apagou-se por falta de mais achas, mas a achega foi que muitos de nós, os aquecidos daquela noite, concluímos que temos que emprestar muito mais esforço e contributo para o desenvolvimento da Mãe-Pátria. Afinal, só temos uma.

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