Opinião

Katchiungo no 11 de Novembro

Sousa Jamba

Jornalista

0 11 de Novembro é um dia para nós reflectirmos. Eu tinha nove anos em 1975 — naquela idade em que a criança, que eu era, tentava entender o mundo à nossa volta.

12/11/2021  Última atualização 09H35
Eu deveria ter cinco anos quando houve um acontecimento em que ouvi muito da injustiça que nos rodeava. No Katchilengue, cerca de dez quilómetros do Katchiungo, na altura conhecida como Bela Vista, o meu pai tinha construído uma escola e tinha uma vasta produção agrícola. Uma vez, um comerciante branco veio e comprou um camião de repolho num preço que tinham acordado.

O pai foi à loja do senhor para receber o dinheiro como combinado,  o senhor decidiu que ia pagar a um preço muito inferior. O meu pai era um negro muito orgulhoso, que estudou no prestigioso Colégio Diogo Cão e chegou mesmo a ser Director da Escola da Missão do Dondi.

Além de ter sido campeão do concurso de dactilografia na Bela Vista, ele era um organista e cantor (tenor) que tinha casado com a belíssima filha de Mateus Mamedes Malanga, professor de Agricultura na Missão do Dondi. O meu pai, que convidava grandes missionários americanos para a sua casa, em Kachilengue, não aceitava ser desrespeitado por um comerciante qualquer!

Houve troca de palavras, o senhor branco, exercitando o seu direito como filho querido do império, deu uma chapada ao meu velho. Ruben Tavares Hungulu Njamba, sobrinho de Manico, grande kimbandeiro na área do Chiumbo, sabia como lutar — aquilo fazia parte do treino dos campos de circuncisão, mukanda, e o comerciante, num instante, estava no "kafriqui". O meu pai não agiu como o missionário John Tucker que, em 1937, foi esbofeteado por um comerciante sem retaliar.

Lembro-me da vida do meu pai como uma vida de constante medo da PIDE. Cinco anos atrás soube que o meu pai foi da UPA, ele tinha ligações muito próximas com alunos e pastores que vinham do Norte de Angola, como o Makondekwa, Biyela e outros que traziam do Norte a mensagem do nacionalismo e da emancipação dos angolanos.

O sobrinho do meu pai, Mateus Chikoti, depois de se ter escondido da PIDE, foi ao Congo-Belga, onde eventualmente passou a ser representante da UPA em Elizabethville, agora Lubumbashi. O meu pai estava continuamente temeroso que a PIDE o iria prender, porque os seus próximos já estavam em São Nicolau. Foi o caso do reverendo Jesse Chiula Chipenda, primeiro negro a ser Secretário-Geral da IECA,  do Professor Daniel Ekundi, vindo da nossa própria aldeia, do Pastor Etaungo, do pastor Frederico Mussili, do tio Sanchez Epalanga, etc.

Para complicar a vida do meu pai, o seu filho Jaka Jamba, que estava em Portugal, fugiu quando estava para integrar a tropa portuguesa e foi para a Suíça, onde começou a trabalhar com José Ndele, Ruben Chitakumbi, Wilson dos Santos e outros, na UNITA. Lembro-me daquela manhã, no Huambo, quando vi o meu irmão primogénito, Augusto Mateus Kanjila Jamba, em algemas, a ser levado pela PIDE. A minha mãe e irmãs estavam a chorar. Pensamos que nunca mais iríamos ver o nosso Mano Baba, ele só foi libertado em 1974.

Em 2016, no Katchiungo, assisti a um culto da Páscoa na Missão do Dondi,  presidido pelo pastor Catanha. O administrador do Katchiungo veio para o acontecimento acompanhado de 24 viaturas. Aquilo foi um espectáculo. A intervenção do administrador levou mais tempo que o Sermão do pastor Catanha. O administrador disse que tudo estava a caminho para Katchiungo ter energia ininterruptamente para evitar a movimentação de gatunos e feiticeiros. Katchiungo iria ter escolas, hospitais, estradas, etc.

Claro que as promessas do administrador ficaram por ser realizadas. No Katchiungo, o asfalto na vila, posto no tempo colonial, está cheio de buracos. As escolas nos bairros estão superlotadas — em certos casos há cem alunos por cada turma. Quando se perde um ente querido, os parentes têm que contribuir para comprar combustível para a geladeira do necrotério funcionar.

Os filhos de Katchiungo são sonhadores. Eu já sonhei em ter uma sala de cinema, uma galeria de arte e um museu local. Pelo menos já ajudei na organização de uma Biblioteca com sete mil livros, graças à ajuda do também activista Luís Castro, que é de lá.

Quarenta e seis anos depois da independência, o Katchiungo está numa pausa. É isto que eu sinto, quando finco nas longuíssimas filas à espera de dinheiro no único multicaixa que funciona na localidade. Os empresários mauritanianos  nunca têm falta de dinheiro, só que por cada transacção eles cobram vinte por cento!

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