Opinião

Juntos sim, separados nunca!

Arsénio Chilala

Quando aconteceram as primeiras eleições no país, eu contava com exactos vinte anos, completados em Agosto desse longínquo ano de 1992. Parece que foi ontem, mas já lá vão trinta anos.

26/06/2022  Última atualização 08H40

Naquela altura, embora fosse já um homenzinho, não tinha noção dos labirintos e emaranhados da política "activa”. E até hoje, confesso, às vezes, custa-me  entender os políticos, aliás, a única coisa de que estou certo é que em política, o que parece ser nem sempre é, e aquilo que não parece ser, muitas vezes, é que é. Complicado, não?

Em 1992, digo, as pessoas, ou melhor, o povo angolano vivia a sua primeira experiência "no que tange” a eleições multipartidárias. Eu e meus contemporâneos, por exemplo, crescemos praticamente numa redoma. Democracia, multipartidarismo,autarquias ou pleito eleitoral são palavras que não constavam do nosso vocabulário. Mas, sabíamos os valores e os mentores do socialismo. Conhecíamos os países que faziam parte do bloco socialista, liderado pela URSS. Por exemplo, ainda guardo a imagem daquele painel com três velhos, dois barbudos e um careca, ou seja, Marx, Engels e Lénine, com aquelas caras amarradas, a olharem para mim, como se eu tivesse cometido um acto anti-patriótico ou anti-socialista.

Na escola, a educação patriótica que recebíamos era sobre a construção do socialismo científico. Ensinavam-nos  que os meios e ou instrumentos de produção eram propriedade do Estado e que os produtos devem ser partilhados equitativamente. Disciplina, produção, vigilância eram palavras de ordem a seguir rigorosamente.  Lealdade, amor à pátria, o dever de estudar,  respeito aos mais velhos, etc, são valores que nos foram incutidos e que até hoje estão presentes no modo de estar e ser dos homens e mulheres do meu tempo de criança. 

Bem, voltando à vaca fria, ou melhor, às eleições de 1992, recordo-me que o cenário que se vivia  durante o período da pré-campanha era bem mais tenso, se comparado com o que temos hoje. A tensão que havia, com os antigos "beligerantes” a se arreganharem, fazia transparecer um futuro negro, que se veio a confirmar, tão logo começaram a ser divulgados os primeiros resultados eleitorais.

Recentemente, ouvi de um militante de um partido, que não vou citar, por razões óbvias, a expressão "estamos juntos, mas não estamos misturados”.  À minha memória vieram logo imagens de 1992, pois foi nessa época, um pouco antes das eleições, que ouvi isso pela primeira vez. Num repente, revivi todo o rol de horrores que se seguiram às primeiras eleições do nosso país.

Não gosto de ouvir, tão pouco de dizer coisa semelhante com "estamos juntos, mas não estamos misturados”, porque soa-me a exclusão social, económica e até política.

Penso que já é tempo de parar com essa "treta”, darmo-nos as mãos,  estarmos juntos e se misturarmos num espírito de fraternidade e patriotismo a fim de juntos trabalharmos para o bem estar de todos, repito, de todos, sem olhar à cor da bandeira que cada um carrega, para que todos possamos usufruir das riquezas e belezas da terra que Deus nos deu. Aliás, como bem disse alguém, creio ser Bob Marley, se todos nos darmos as mãos, quem poderá puxar de uma arma?

As eleições não são, como dizem os entendidos no assunto, um fim em si mesmo. Não! As eleições são, antes de mais nada, um instrumento para se chegar ao poder. Um exercício no qual devemos participar com as mentes abertas e corações em júbilo porque eleger aqueles que nos vão governar durante 5 anos deve ser um momento de festa e não de arrepios e acusações que quase sempre nunca acabam bem.

Recentemente, acompanhamos as legislativas em Portugal e não vimos militantes e simpatizantes de partidos a insultarem as mães uns dos outros, nem os líderes a se chamarem nomes. Correu tudo na Paz e aqueles que perderam, sabendo que não estragou nada, como se diz aqui na terra, logo, logo, felicitaram o vencedor.

Assim, nós também, ainda que carreguemos bandeiras de cores diferentes, se queremos que o país avance, mais vale juntos e misturados para a mesma causa, do que separados.

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