Reportagem

Jovens transformam material reciclado em obras de artesanato

Manuel Albano

Jornalista

“Do lixo vem o luxo”. Esse é o slogan que acompanha diariamente o percurso de vida do jovem David Bernardo José, um artesão de mãos cheias. Desde as primeiras horas do dia até às 18h00, quem passa pelas imediações da rua Alameda Manuel Van-Dúnem, entre o Centro Comercial Chamavo e o Instituto Médio Industrial de Luanda (IMIL), vulgarmente conhecido por Makarenko, encontra David Bernardo José e Jacob Caley, jovens amigos artesãos. De múltiplas profissões, gabam-se orgulhosamente do que fazem.

15/05/2022  Última atualização 11H30
Do lixo ao luxo © Fotografia por: DR
Mestre David, como também é tratado David Bernardo José, destaca-se nas artes plásticas, carpintaria e pastelaria. Aos 30 anos, natural do Huambo, vive nas imediações da Ponte Partida, em Viana, com a mulher e três filhos. Como artesão, desenvolve a actividade há um ano e meio e nas artes plásticas há cinco anos. O gosto pelas artes começou por mera curiosidade.  O que para muitos é algo sem importância, para outros, como David, é fonte de sobrevivência. De materiais reciclados a grandes obras de arte, que têm feito a decoração de muitas casas e restaurantes em Luanda, é apenas um passo. As fitas de polipropileno ou Nertex, normalmente utilizadas para prender embalagens de roupa usada e caixas de papelão, ganham contornos artísticos nas mãos dos jovens amigos David Bernardo José e Jacob Caley.  David, quando tem tempo livre, também se dedica à pintura e a desenhar retratos de pessoas, quando solicitado. O mestre David quer ser membro da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP).

 

Como começou

ontactou o amigo Jacob Caley que o ensinou a produzir peças artesanais apenas com as fitas utilizadas para prender embalagens de roupa usada. O gosto pela arte foi tudo por curiosidade. O artesanato aprendeu em uma semana. No princípio recebia muitas críticas dos familiares, que não acreditavam no seu talento. A necessidade de dar uma resposta positiva a todos que questionavam o seu potencial levou David a não desistir. Hoje, com esse trabalho, ajuda no sustento da família. Embora não tenha conseguido, ainda, realizar o sonho da casa própria, o jovem artesão mantém a fé, de continuar a trabalhar para alcançar os seus objectivos. "Sei que da minha profissão vou conseguir erguer a minha casa e dar melhores condições à minha família”, disse bastante optimista.

Com o que ganha da venda dos artefactos já conseguiu comprar um terreno e aos poucos vai fazendo algumas poupanças. "Não me falta o pão de cada dia para o sustento da minha família e isso me orgulha muito”.

Desde que começou a transformar as fitas em objectos de arte, David começou a prosperar. Por dia chega a ganhar entre dois e cinco mil kwanzas, apesar de haver dias em que não vende.  Os produtos mais solicitados pelos clientes são as fruteiras, balaios, cestos de roupa, esteiras, forros de cadeira e candeeiros de banca. A matéria-prima é recolhida nos contentores do marcado do São Paulo.

 

Jacob aprendeu a profissão com o pai

Jacob Caley tem 30 anos e vive no distrito urbano da Estalagem, em Viana, com a mulher e três filhos. Aprendeu com o pai, na comuna do Cuima, no Huambo, o ofício de transformar fitas em objectos de artesanato. Disse que levou uma semana para aprender a profissão, quando tinha apenas 11 anos. Em 2003 decidiu aventurar-se para Luanda, com um amigo, a procura de melhores condições de vida. Em Luanda, hospedaram-se na casa do irmão mais velho do amigo de viagem, no distrito urbano do Kikolo, em Cacuaco.

Sem tempo para conhecer e respirar os ares de Luanda, dias depois começou a zungar com sacos de plástico pelas ruas e avenidas de Luanda. A vida era dura na época, face ao sonho que tinha de encontrar um emprego melhor. "Não tive alternativa, precisava justificar a minha estadia na casa onde fui recebido porque cada um tinha que levar alguma coisa para custear as despesas”.

Em determinado momento, Jacob Caley pensou em desistir e regressar à terra natal.

Sem grande experiência de vida, teve que contar com a ajuda de conterrâneos que já se encontravam a viver em Luanda há mais tempo. Decidiu começar a vender água fresca para sobreviver e juntar algum dinheiro. Dois meses depois muda-se, com o amigo, para o município de Viana. Ambos arrendaram uma casa de um quarto e sala. Com o decorrer do tempo o amigo arranja mulher, o que o obrigou a procurar outro local para viver. É, então, acolhido por outros amigos, no distrito urbano da Estalagem. Nesta época zungava com whisky de pacotinhos e, posteriormente, começou a vender refrigerantes. Com a transferência do mercado da Estalagem para o Km-30, em 2016, o negócio perdeu clientela. Os amigos decidem regressar, à revelia, para a zona da Estalagem. São detidos e levados para uma esquadra em Calumbo, onde permaneceram dois dias. Duas semanas depois de recuperarem dos prejuízos, regressam novamente às ruas porque precisavam custear as despesas de casa.

Tempos depois, Jacob Caley decide abandonar a venda ambulante e colocar em prática a profissão que aprendeu com o pai, o que veio a materializar em 2020. No princípio os amigos achavam que ele estava maluco, por recolher fitas nos contentores e armazéns. "Comecei a produzir em poucas quantidades para testar os clientes e fui bem sucedido. Recebia muitos elogios da clientela”, destacou.

Caley conta que da primeira experiência produziu dez cestinhos que vendeu a 500 kwanzas cada. Dos dez, apenas conseguiu vender três. Mesmo assim, não se sentiu desanimado. Foi aumentando a produção à medida que havia mais pessoas a mostrar interesse pelos produtos e hoje tem a actividade como o seu ganha pão.

Admirado com o talento dos dois jovens, o estudante do primeiro ano de Arquitectura da Universidade Técnica de Angola (UTANGA) Bernardino Ariclene considerou importante que o Governo aposte mais na juventude. O país, disse, tem muitos criadores anónimos que precisam de mais oportunidade para melhorarem o seu potencial artístico.

Os jovens com talento devem ser apoiados para continuarem a desenvolver a sua arte. "O país só sai a ganhar com jovens criadores”, sublinhou, destacando o trabalho feito por David Bernardo José e Jacob Caley. Com pouco material, mas com muita qualidade.

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