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Jovem vendeu nas Mangueirinhas e formou-se em artes plásticas

Igor Manuel da Silva, filho de Manuel José Victoriano da Silva e de Isaura da Silva Francisco, nasceu em 1996, há 23 anos, em Luanda, na Avenida Brasil.

20/10/2019  Última atualização 07H22
Cedida © Fotografia por: Igor da Silva não se deixou seduzir pelas más práticas sociais

Igor da Silva começou os estudos na escola afecta à Igreja Católica Escolinha da Paz, em seguida passou pelo colégio Gymi Doty (Lídia Doty), Escola Ana Paula 5050 e Colégio Ary Santana, em Viana.

Na 7.ª classe, frequentou o colégio Tungo ya Tena, no mesmo município, até à 12ª classe. 

Enquanto estudante, Igor da Silva teve apenas um único par de ténis, uma calça e uma t-shirt que tinha de lavar todos os dias para não andar sujo. “Foram tempos muito difíceis para eu e a minha família conseguirmos valores para as propinas e para o transporte, já não falando da alimentação.”
Igor da Silva, ainda muito jovem, vendia vinho, whisky e champanhe no mercado das Mangueirinhas, na Caop, em Viana, para arrecadar valores para liquidar as dívidas que tinha com a instituição de ensino em que estudava.
“Muitas vezes, quando atrasava o pagamento das propinas, utilizava opções “ilegais”, entrando no colégio com o talão bancário do meu colega e irmão Guilherme, com o propósito de não faltar às aulas.”
A falta de dinheiro para o transporte de casa para a escola obrigava-o a caminhar cerca de 20 quilómetros por dia a pé. “Quando as pernas já não aguentavam percorrer tão longas caminhadas passava a noite em casa do Guilherme, que ficava mais perto do colégio.”
Em 2011, Igor da Silva conclui a formação de desenhista, pintor e artista plástico na Oficina do Centro Candengues Unidos da Alliance Française.
Nesse ano, Igor da Silva participa como desenhista no livro de banda desenhada “Artistas do Salto do Boeng”, lançado na Praça da Independência, em Luanda.
No ano seguinte, passou pelo teatro comunitário e apaixona-se pelas modalidades desportivas como atletismo, futsal e basquetebol. “A minha paixão e ligação pelo desenho era muito forte e quis-me formar em arquitectura, mas o meu maior sonho era ser médico-cirurgião pediatra, porque o afecto, amor e carinho que tenho pelas crianças indefesas é muito forte.”
Já no ensino médio, Igor da Silva ficou dois anos fora do sistema de ensino e resistiu a deixar-se seduzir pelo alcoolismo, drogas, marginalidade, em que tinham caído muitos amigos. “A educação religiosa foi fundamental na minha formação como homem e cidadão que sou hoje.”
Igor da Silva é co-fundador do projecto GAI Produções, que surgiu em 2012 e se dedica à produção de conteúdos académicos. Em 2013 abraçou a filantropia com a Associação Onda Cajuv da Casa da Juventude de Viana e do Ministério da Juventude e Desportos. No ano seguinte, Igor da Silva integra os projectos Revista Aposta e Mil Segundos e dois anos depois colabora no site de notícias Angola-Online.net, onde, recorda, aprendeu as funções de repórter, redactor, fotógrafo e de filmagem de vídeos, numa parceria com o programa Calor da Amizade da Rádio LAC.
Igor da Silva é um dos fundadores da Revista “Ginga”, voltada para o empreendedorismo, inovação, motivação e divulgação de talentos, em 2018. “O jornalismo é uma paixão que nasceu no berço por gostar de ouvir muito rádio. O meu padrinho Kabeavanga Bea Mateus e o meu irmão Guilherme obrigaram-me a entregar-me com dedicação e profissionalismo a tudo o que tinha de fazer.”
Aos 12 anos, Igor de Silva perde a mãe. “A morte é a maior humilhação dos seres humanos. Aprendi a sobreviver com as vicissitudes da vida”, recorda Igor da Silva. “Lembro-me de que tivemos de abandonar a casa em que vivíamos, no Km 14, mudámo-nos para Luanda-Sul.” Mas antes a família viveu em bairros como Rangel, Calemba, Palanca e Viana. “Preocupo-me muito com as mudanças climatéricas, infelizmente sofremos directamente com todo o impacto negativo que o homem causa ao planeta, devemos buscar melhorias. Não é uma tarefa fácil, mas cada pequeno gesto ajuda a preservar o meio ambiente e a fazer do nosso planeta um lugar melhor para se viver.”
Igor da Silva reforça o seu lado ambientalista. “Não devemos cortar as árvores indiscriminadamente nem colocarmos fogo em matas. É minha e de todos a responsabilidade de cuidarmos bem dos cursos de água e não colocar lixo em rios, lagos, mar e não fazer caça ilegal, pois o tráfico de animais afecta a biodiversidade de uma região, podendo mesmo levar à extinção das espécies.”
Em 2017, Igor da Silva junta-se à Associação Andeleno, que presta ajuda às pessoas em condições de vulnerabilidade. “A falta de escolas específicas para pessoas com deficiência preocupa-me muito, um dos meus sonhos é ajudar essas pessoas, construindo uma Academia de Artes e Ofícios.”

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