Sociedade

Jovem devolve telemóvel que havia achado em táxi

Helma Reis

Jornalista

O Jornal de Angola soube do gesto de Pedro Moniz pelo próprio proprietário do telemóvel, que, numa conversa telefónica, disse esperar que, tornando-se público, o “bom exemplo” do rapaz seja replicado, por ser o que considera “um acto de pedagogia social”.

09/06/2024  Última atualização 10H15
Jovem Pedro Moniz © Fotografia por: DR

O telemóvel, avaliado em mais de 100 mil kwanzas, foi encontrado por Pedro Moniz entre os bancos do táxi em que subiu, quando se dirigia ao seu local de trabalho, por volta das 8h30 do dia 22 de Maio, na rota São Paulo-Vila do  Gamek, percurso que não foi feito pelo proprietário do telemóvel.

O proprietário do telemóvel deixou, por esquecimento, o aparelho quando desceu, por volta das 7h00, nas imediações do Mercado dos Congolenses, do táxi que o transportou desde junto à Igreja Kimbanguista, quando fazia, por volta das 6h30, a rota Shoprite-Mercado dos Congolenses.

O telemóvel estava ligado, quando foi achado por Pedro Moniz, que, enquanto esteve no táxi, decidiu não atender às chamadas que o aparelho recebia, diminuindo o som, algumas vezes, para não incomodar os restantes passageiros. 

O jovem tomou essa decisão para não ser, como alegou na conversa com o Jornal de Angola, induzido a cometer um "erro de não devolver” o telemóvel ao proprietário, uma sugestão que pudesse vir de alguns passageiros do táxi, se soubessem que Pedro Moniz tinha, em sua posse, um telemóvel que não lhe pertencia.

O jovem, que é morador do bairro Farol das Lagostas, no Distrito Urbano do Sambizanga, resistiu, com facilidade, à tentação de ficar com o telemóvel, diante de tanta pressão que recebeu de colegas e amigos para "ficar com uma coisa que não me pertence”.

A pressão que recebeu deve-se ao facto de ele próprio utilizar um telemóvel que precisa de ser substituído, por já não estar em condições, e que lhe foi emprestado por uma irmã.

"Alguns amigos e colegas pediram-me para não devolver o telemóvel, mas orei a Deus para que me desse um sinal para fazer a coisa certa”, explicou o jovem que se dedica, actualmente, à carpintaria, ainda na condição de aprendiz.

Quando regressou a casa, Pedro Moniz atendeu a uma chamada, feita por uma senhora, irmã do proprietário do telemóvel, a quem garantiu que nunca teve a intenção de ficar com um artigo que não lhe pertencia, em cuja conversa expôs a razão por que decidiu não atender às chamadas que o telemóvel havia recebido ao longo do dia.

O telemóvel foi entregue por Pedro Moniz pessoalmente ao proprietário, num ponto escolhido pelo próprio jovem e que está junto a uma esquadra da Polícia no bairro onde vive.

Pedro Moniz diz-se aliviado, por ter devolvido um objecto que não lhe pertencia, apesar, como acentua, da necessidade que tem de ter um novo telemóvel.

"Eu sou cristão praticante e, além disso, os valores e ensinamentos que recebo da minha família não me permitem ficar com algo que não me pertence”, afirmou Pedro Moniz.

Adelino Manuel, o proprietário do aparelho, também contactado pelo Jornal de Angola, explicou que deu conta de que havia deixado o telemóvel no táxi só depois de a viatura ter partido do local em que desembarcou e admitiu que já não tinha esperança de o recuperar.

"Quando a minha irmã me disse que chegou a falar com um jovem que disse ter achado o telefone, ainda pensei que ela estivesse a brincar comigo”, contou Adelino Manuel, que considerou a atitude do rapaz merecedor de aplausos, lembrando que era a segunda vez que deixava, por esquecimento, um aparelho num táxi. O primeiro telefone não foi recuperado.


SOCIÓLOGO GARCIA QUITARI
"Apesar da pobreza alarmante ainda há espaço para o bem”    

Convidado a comentar a atitude de Pedro Moniz, o sociólogo Garcia Quitari referiu que o gesto do jovem pode ser considerado uma prova de que "nem todos os pobres são desprovidos de boa-fé”, observação feita pelo sociólogo quando admitiu que o jovem seja pobre, por viver num bairro precário de Luanda, podendo, por força desta condição social, haver uma falsa ideia de que seja uma pessoa imoral, "relação que, via de regra, se estabelece entre a pobreza e a imoralidade”.

O sociólogo alertou que a "carência material não significa ausência de moralidade”, sendo certo que, como reafirmou, "nem todos os pobres são desprovidos de boa-fé”.

Mais do que isso, adiantou, pobreza não significa, em tese, propensão para a transgressão nem para a criminalidade.

"O que se tira de lição aqui é que a pobreza não leva, necessariamente, à delinquência e à marginalidade”, defendeu Garcia Quitari, alertando, igualmente, que "esta relação que se estabelece entre a pobreza material e a pobreza moral só marginaliza as populações pobres e, além disso, é preconceituosa”.

"Ela presume, por exemplo, que o desemprego juvenil aumenta a criminalidade. Mas, se assim fosse, Luanda seria ainda pior do que é hoje”, acentuou o sociólogo Garcia Quitari.

Ainda sobre o gesto do jovem, o sociólogo considerou um acto que simboliza honestidade e respeito com a coisa alheia.

"Neste sentido, o comportamento do jovem é uma esperança e revela que, apesar da situação alarmante de pobreza, ainda há espaço para o bem”, comentou o sociólogo Garcia Quitari, para quem "a atitude do jovem demonstra uma mensagem em acto”.

O sociólogo defendeu que não se deve apenas "falar e falar” e que a acção é a melhor forma de passar uma mensagem, positiva ou negativa.

O especialista em Sociologia declarou que não é correcta a ideia de que a sociedade angolana enfrenta uma crise de valores e defendeu que "é preciso mudar esta visão”.

Na sua opinião, o que Angola vive é uma crise económica profunda com implicações nos fóruns social e psicológico.

"Ela [a crise] não pode ser vista a nível do indivíduo, mas, sim, a nível estrutural”, acrescentou o sociólogo, acentuando, por exemplo, que "não é escolha comum e fácil ser uma prostituta, um alcoólatra ou um delinquente”.

O sociólogo disse que uma eventual estranheza que pode causar o gesto do jovem decorre da "falta de solidariedade e do individualismo”, que, alertou, "a crise económica só agrava”.

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