Entrevista

José Maria Neves: “O Presidente em Cabo Verde não governa, mas é a alma e o espírito da Nação global”

Béu Pombal

Jornalista

No passado domingo, Cabo Verde foi às urnas para eleger um novo Chefe de Estado. José Maria Neves, um veterano da política cabo-verdiana, apoiado pelo seu partido, o PAICV, foi o escolhido dos eleitores, entre os sete concorrentes. Em entrevista ao Jornal de Angola, agora eleito Presidente aborda, entre outros temas, as prioridades para os próximos cinco anos de mandato, a cooperação com Angola, o acordo de mobilidade da CPLP, a inserção de Cabo Verde na Região Oeste africana. José Maria Neves admite que “o Presidente, em Cabo Verde, não Governa”, mas acredita ser “a alma e o espírito da Nação”. Afirma que pretende “levantar o astral de Cabo Verde, ser um Presidente positivo, capaz de mobilizar a Nação para a realização das nossas ambições”.

21/10/2021  Última atualização 09H10
Novo Chefe de Estado. José Maria Neves © Fotografia por: Cedida
Senhor Presidente, sente-se, de alguma forma, aliviado, depois de toda a agitação, ansiedade e expectativa  sobre as eleições?
A campanha deu-me uma grande serenidade para estar com as pessoas, discutir Cabo Verde e constatar que o nosso grande adversário, neste momento, é a crise que se revelou e se expandiu com a pandemia da Covid-19. Sinto-me com a tranquilidade e a serenidade necessárias para enfrentar os desafios enormes que se colocam a Cabo Verde.

Em algum momento aventou a possibilidade de sair derrotado da eleição?
Em nenhum momento. A onda foi crescente. Dificilmente ganharia na primeira volta. Tinha a ideia de que poderia ganhar estas eleições, mas numa segunda volta. Os resultados foram fruto de todo o movimento do cidadão que se construiu dos nossos ideais. Foi uma campanha muito cívica, com uma grande participação cidadã e conseguimos, efectivamente, provocar um novo arrepio em Cabo Verde.

Mas, a poucos dias das eleições, o senhor Presidente disse,  categoricamente, que tinha condições para ganhar na primeira volta. O que,  afinal, o levou a fazer esta espécie de "reavaliação”?
Eu senti  uma grande adesão. Sentia nos abraços, nos olhares, na participação das pessoas em torno da minha candidatura. Foi uma candidatura muito alegre, muito leve, com grande liberdade de espírito; uma candidatura aberta a todas as sensibilidades políticas e sociais. Chegou um momento em que se deu a combustão, uma grande aliança entre as minhas propostas, as minhas ideias com o povo de Cabo Verde e foi a partir daí que percebi que haveria de ganhar. Isso foi nos últimos dias. Por isso, pedi ao povo de Cabo Verde para que votasse em mim, para vencer na primeira volta. Portanto, houve o suporte para que isso acontecesse da parte  dos cabo-verdianos.

O que os cabo-verdianos podem esperar da sua Presidência?
Os cabo-verdianos conhecem-me muito bem e sabem que podem contar comigo. Fiz a melhor leitura da forte legitimidade que me deu no dia 17. Ganhei a nível nacional, expressivamente, e na diáspora também, expressivamente. Sinto-me com uma forte legitimidade para exercer a Presidência com grande liberdade de espírito, como um Presidente que une, que cuida, que protege, mas, sobretudo, um Presidente que vai costurar consensos, que vai querer construir pontes, que vai buscar entendimento. Portanto, precisamos, como do pão para a boca, de uma grande mobilização  da Nação global cabo-verdiana, das ilhas e da diáspora, para enfrentarmos a crise que é grave e profunda e que está a revelar-se todos os dias. As pessoas já sentem a profundidade e a dimensão desta crise. Temos de acelerar o ritmo da transformação e da modernização do país, para podermos cumprir os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável no horizonte 2030. Os cabo-verdianos podem contar comigo, como um Presidente presente, actuante; o primeiro embaixador da República e o ouvidor geral da Nação cabo-verdiana, que irá fazer tudo para puxar Cabo-Verde, levantar o astral do país, acelerar o passo para irmos o mais longe possível.

Já foi Primeiro-Ministro, certamente, conhece os meandros da complexidade da governação. Como prevê a sua relação  com o Governo, sendo de um partido diferente?
Será uma reacção muito natural. Farei tudo o que estiver ao meu alcance, para garantir a estabilidade política, institucional e social. A estabilidade é um recurso estratégico para o país. Farei tudo para que esta estabilidade esteja garantida, para que haja o equilíbrio no exercício do poder, haja rigor e transparência e, sobretudo, soluções adequadas às necessidades dos cabo-verdianos. O Governo pode contar comigo como um colaborador atento, um árbitro imparcial e um conselheiro que sugere e que procura junto dos outros órgãos de soberania alguns consensos necessários, neste momento, para Cabo Verde.

Houve críticas, durante a campanha, segundo as quais candidatos confundiram as atribuições do Primeiro-Ministro às do Presidente da República, como se desconhecessem as tarefas de um e do outro. Quer comentar?
São tricas da campanha eleitoral, não têm relevância. Acho que todos os que se candidataram conheciam muito bem as funções do Presidente. Descontando os excessos, próprios  das campanhas eleitorais, não houve incidentes de maior nesta eleição. Quero agora unir todos, apaziguar os ânimos e buscar novos caminhos para estes novos tempos.

Como político experimentado, que avaliação faz da democracia em Cabo Verde?
A democracia está a consolidar-se. Há alguns aspectos que teremos que considerar; alguns excessos nas campanhas eleitorais. Mas,  globalmente, as nossas instituições funcionam.

Cabo Verde vive, como muitos países, momentos difíceis, agravados pela pandemia da Covid-19. Quão grave é a situação, na avaliação do senhor?
O Governo está  a fazer um bom trabalho no domínio da vacinação contra a Covid-19. É preciso considerar que, do ponto de vista sanitário, fez-se um bom combate à pandemia. Mas temos questões econômicas e sociais muito complexas, desde logo, porque passámos por uma profunda recessão económica. A dívida pública está a aumentar, o défice público, há mais desemprego, mais pobreza, mais desigualdade e até mais violência nos principais centros urbanos. Portanto, a primeira prioridade é a reconstrução do país após a pandemia. Por isso, vou trabalhar com o Governo,  autoridades locais, empresas, sindicatos, enfim, com a sociedade civil, para afirmar-me, efectivamente, como o primeiro embaixador da República. Vou mobilizar parcerias, investimentos, para a retoma da economia,  criação de empregos, combate à desigualdade e à violência. Mas, também, irei trabalhar no sentido de catalisar a aceleração do processo de modernização do país, para a construção de um país moderno, próspero, justo, com oportunidade para todos. Quero um país capaz de cumprir com os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio no horizonte 2030. Tudo farei para que isso aconteça. São estas as minhas  prioridades e vou trabalhar neste sentido, desde o primeiro dia do meu mandato.
O Turismo, sector importante para as receitas do país, está praticamente inactivo. Que alternativas pode ou deve Cabo Verde encontrar, para dar espaço a estas prioridades que  acaba de anunciar?
Se continuarmos a ter sucesso do ponto de vista sanitário, se concluirmos o programa de vacinação até ao final do ano, conseguiremos a retoma do Turismo. Aliás, já há sinais positivos. Mas o que esta crise nos revela é que não podemos ficar na monocultura  do Turismo. Temos que rapidamente diversificar a economia, a partir do Turismo, que é o motor do crescimento. Temos de fazer a transição digital, fundamental para as tecnologias informacionais, construir um país inovador. Temos a questão da transição energética, temos toda a economia azul ligada ao mar. Eu costumo dizer que, neste domínio, podemos ser uma potência, se aproveitarmos todos os recursos marinhos disponíveis.
Portanto, é possível desenvolvermos mais o Agronegócio, com tecnologia moderna de mobilização de água e produção agrícola, pecuária, enfim, todo o sector do Agronegócio precisa de ser dinamizado. Temos condições de, a partir do Turismo, transformar Cabo Verde num centro internacional de prestação de serviços, diversificando a nossa economia. O importante, agora, com a retoma do Turismo, é acelerar o passo, fazer as coisas com mais eficácia, mais sofisticação, procurando mais qualidade e excelência.  Isso é fundamental. É nesta linha que o Presidente vai trabalhar. O Presidente em Cabo Verde não Governa, mas é a alma e o espírito da Nação global  cabo-verdiana. Quero levantar o astral de Cabo Verde, ser um Presidente positivo, capaz de mobilizar a Nação para a realização das nossas ambições. É, pois,  nesta linha que vou trabalhar.

Há críticas de que Cabo Verde está mais direccionado para a  cooperação com  parceiros europeus, com a própria União Europeia, deixando de lado países africanos. É verdade?
Acho que Cabo Verde só tem importância estratégica se se inserir competitivamente  em África, na Região Oeste africana, em particular. Vou trabalhar para dar sinais muito claros neste sentido. Penso que devemos trabalhar para reforçar as nossas relações com os nossos vizinhos e construir parcerias estratégicas, dando  salto em termos da nossa capacidade de acção, para reforçarmos as nossas relações com África, para sermos  um país útil, aqui, na região e para a comunidade internacional.

"A cooperação com Angolatem um grande potencial"
Que avaliação faz da cooperação entre Cabo-Verde e Angola?

A cooperação com Angola tem um grande potencial. A minha grande angústia é não ter podido fazer mais. Penso que agora é possível andarmos mais depressa e irmos mais longe. Há alguns investimentos angolanos importantes em Cabo Verde, nos domínios da Banca e Telecomunicações. Angola e Cabo Verde devem procurar um nível de parceria estratégica. Vou trabalhar para isso.

A CPLP rubricou, há poucos meses, um acordo de mobilidade, em Luanda, que visa facilitar a circulação na região. Para quando a materialização prática deste acordo? Como acha que deveria ser viabilizado?
A mobilidade na CPLP é uma construção difícil, precisamente porque os países pertencem a espaços geopolíticos e económicos diferentes. Portanto, é fundamental que continuemos a trabalhar com cautela e a prudência necessárias. Acho que a questão da mobilidade não vamos conseguir  resolver de uma só vez. O Acordo foi um pé que se colocou na porta, agora vamos trabalhar. Mas podemos reforçar, também, acordos bilaterais, entre países, para acelerar este processo. Alguns países estão num ritmo mais lento do que os outros, mas penso que acordos bilaterais podem ser muito importantes para reforçar os acordos de cooperação entre os diferentes países.

Que mensagem deixa para os cabo-verdianos em Angola?
Uma palavra de gratidão a todos os cabo-verdianos, por me terem dado força para presidir esta Nação. Dizer a todos que podem contar comigo, como um Presidente actuante, amigo, presente, que estará ao lado dos cabo-verdianos em todos os momentos. Uma palavra de amizade para todos os cabo-verdianos na diáspora. Tudo temos de fazer para unir a Nação, aproveitando todas as potencialidades na diáspora, pois somos um Estado transnacional. Todos somos transmigrantes e a nossa diáspora é um recurso estratégico para reforçar a ideia na Nação global. Também uma palavra de reconhecimento à comunidade internacional que deu enorme contributo.

  ZÉ DI NAIR

História de Vida escrita com esforço
José Maria Pereira das Neves nasceu na localidade de Pedra Barro, em Santa Catarina, em 28 de Março de 1960. Filho de Manuel Monteiro e de Nair Neves, tem quatro filhos: José Luís Neves, José Maria Neves Júnior, João Neves e Rhiana Neves. A sua companheira é Débora Katisa Carvalho.
Zé Di Nair, como é conhecido em Santa Catarina, tem uma história de vida parecida à de milhares de seus compatriotas: origem humilde, criado e educado pela mãe junto aos irmãos, em Assomada, onde fez o ensino primário e, mais tarde, os secundários, no Liceu Domingos Ramos, na Cidade da Praia. Licenciou-se em Administração Pública, pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 1986. É doutorando em Ciências Políticas, junto ao ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
Entre 1987 a 1990, trabalhou como Técnico Superior na Direcção-Geral de Estudos e Reforma Administrativa, da Secretaria de Estado da Administração Pública (Chefia do Governo). Em 1988/89, exerceu as funções de director do Centro de Formação e Aperfeiçoamento Administrativo - CENFA e de Formador nas áreas de Teoria das Organizações, Liderança e Gestão de Conflitos. Entre 1991 a 1996, exerceu funções técnicas no Ministério da Administração Pública e foi consultor do Banco Mundial, do PNUD e de várias empresas públicas e privadas, nos domínios organizacional e de Gestão de Recursos Humanos. É quadro do Instituto Superior de Educação (ISE), como professor de Gestão, unidade orgânica da Universidade de Cabo Verde. Em 2016, reintegra o seu quadro de professor na Escola de Negócios e Governação, da Universidade de Cabo Verde.

Actividades Políticas

Em 1977, entrou na Juventude Africana Amílcar Cabral (JAAC), no Liceu Domingos Ramos, onde exerceu funções dirigentes. Em1979/1980, foi Primeiro Secretário da JAAC, em Santa Catarina. Em 1982, exerceu o cargo de Primeiro Secretário da JAAC, na região de Santiago. Em 1989, foi eleito secretário-geral da JAAC e exerceu essas funções até 1991.
Em 1996, foi eleito deputado à Assembleia Nacional, desempenhou as funções de presidente da Comissão de Administração Pública, Poder Local e Desenvolvimento Regional e de vice-presidente da Mesa da Assembleia Nacional. Em 2000, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina. No mesmo ano, ganhou o Congresso, tendo sido eleito Presidente do PAICV. A 14 de Janeiro de 2001, ganhou as eleições legislativas, tendo sido indigitado para o cargo de Primeiro-Ministro, pelo então Presidente da República, António Mascarenhas Monteiro.

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