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José Maria Neves acredita na vitória na primeira volta

Béu Pombal

Jornalista

A campanha eleitoral para as eleições presidenciais em Cabo Verde está a entrar na recta final. Os candidatos vão aproveitando o pouco tempo que resta para passar a sua mensagem, na busca dos votos para a concretização das aspirações. José Maria Neves e Carlos Veiga continuam no topo da liderança das sondagens, atribuindo-se ao primeiro mais hipóteses de vitória.

15/10/2021  Última atualização 09H25
José Maria Neves © Fotografia por: DR
Das projecções à realidade vai, contudo, uma grande diferença, daí que os outros cinco candidatos não desistem da caça ao voto por todo o país, como se verificou ontem, com a maior parte deles.

Apesar de não haver registos de fraude nas eleições, quer legislativas quer presidenciais, em Cabo Verde, o candidato José Maria  Neves, a quem as sondagens atribuem vitória expressiva neste escrutínio,  pediu, ontem, às autoridades  um "controlo rigoroso" ao processo eleitoral, alertando para "possíveis ataques" ao sistema digital dos votos, segundo o jornal "Expresso da Ilhas”.

O antigo Primeiro-Ministro, que falava em Pedra Badejo, no Concelho de Santa Cruz, acredita  que, "em condições normais", vai  ganhar as eleições  na primeira volta, e, para o efeito, conta  também com  votos de eleitores na diáspora.

"A única questão agora é controlar o processo eleitoral. Sabemos que as tecnologias  informacionais agora têm muitas fragilidades. Portanto, temos de assegurar que não haja  hackers  que possam entrar no nosso sistema de contagem ", sublinhou, citado pelo jornal.

José Maria Neves não disse de que entidade obteve estas suspeitas, nem apresentou mais detalhes sobre a suposta interferência de hackers nesta eleição ou quem estaria por trás desta pretensa  fraude. Por isso, o candidato causou grande inquietação, não só ao seu eleitorado, como também às autoridades do país, à Comissão Nacional Eleitoral, aos observadores internacionais, entre outras entidades.


PMD reafirma apoio a Carlos Veiga

Acompanhado do presidente do Movimento  Popular para a Democracia (MPD),  Carlos Veiga,  que, a par de José Maria Neves, se apresenta como potencial vencedor das eleições, escolheu, ontem,  a  ilha de Santo Antão, para fazer campanha.
"Este não é o momento de crispação, mas sim de união", disse o candidato, durante o  encontro com seus apoiantes, citado pelo jornal "Expresso das Ilhas”.

 Ainda ontem, numa sessão de debate com simpatizantes  em Santo Antão, Carlos Veiga abordou a subida dos preços dos combustíveis, um assunto muito discutido nas ilhas. Disse que se deveu a uma medida internacional.
"O risco de conflitos neste momento não é bom. Acho que todos os sinais que  os cabo-verdianos têm estado a receber  vão  no sentido da estabilidade. Podemos actuar  com a independência de espírito, mas sempre com a união", disse o  político,  que fez questão de agradecer , mais uma vez, o apoio que está a receber do MPD.

Na região de São Domingos, na Cidade da Praia,  Fernando Domingos, que concorre sem amparo partidário, disse que, "se for Presidente de Cabo Verde",  vai dar prioridade ao sector da Cultura, por, a seu ver, ser  a bandeira  do país.

"Há que transportar a nossa cultura para todos os pontos do mundo e a sua promoção será um dos destaques na minha Presidência",  asseverou, segundo o Expresso das Ilha,  prometendo dar especial atenção  aos músicos e outros agentes culturais.

A Televisão TCV, com maior abrangência no país,  passou imagens do concorrente Casimiro Pina, que fez campanha na Ilha do Fogo.  Na ocasião,  o candidato  disse que esta região tem de ser integrada no "circuito internacional do turismo científico", por ser o ponto mais alto do Oceano Atlântico.

"Temos de lutar por algo mais do que o turismo de sol e praia. A região do Fogo tem grandes potencialidades para o turismo de natureza e  histórico ",  frisou, prometendo promover debates para "articular a posição do Governo, contribuindo, assim, para uma promoção profunda à volta do Fogo"

Hélio Sanches, que também está na corrida, a "solo”, manifestou preocupação com a falta de transportes marítimos. Segundo o Expresso das Ilhas, alegou que a sua candidatura ficou impedida de levar  mensagem aos eleitores  da ilha Brava.

"Como Presidente, uma das medidas que vou analisar com o Governo é a questão dos transportes marítimos. Somos um país-arquipélago  e é fundamental que a população disponha de meios marítimos  para se locomover,  desenvolver actividade comercial e permitir  que a economia e o turismo funcionem", disse.

Ainda  na Ilha do Fogo, o candidato  Gilson Alves, segundo o mesmo jornal, queixou-se de  que os imigrantes  provenientes da Costa Africana não recebem bons tratos,  numa referência particular a cidadãos senegaleses.

"Os senegaleses com quem falei reclamam  que não têm sido reconhecidos como plenamente integrados na cultura cabo-verdiana. Estes cidadãos também precisam de liderança e Cabo Verde tem uma responsabilidade africana", argumentou.
Os candidatos às eleições presidenciais do próximo domingo, em Cabo Verde, fazem, pois, os últimos apelos ao voto, na campanha eleitoral que termina hoje. O dia de amanhã é entregue à reflexão.


   OBSERVAÇÃO DA UNIÃO AFRICANA
     Ismael Martins chefia missão


A Missão de Observadores Eleitoral da União Africana (MOEUA), chefiada pelo embaixador angolano Ismael Gaspar Martins, está em Cabo Verde, desde dia 10 último, para acompanhar as presidenciais.
Segundo uma nota da Comissão da União Africana (UA), a delegação vai "acompanhar e informar sobre o processo eleitoral, em conformidade com as disposições em vigor".
Composta por uma equipa de 35 Observadores de Curto Prazo, entre eles homens, mulheres e jovens, os enviados da UA vão permanecer neste país até ao próximo dia 23, "para a observação e análise dos aspectos chaves do processo eleitoral, para uma avaliação global da União Africana  sobre a condução do escrutínio".

A Missão, diz o comunicado,  é  composta ainda  por Representantes Permanentes da União Africana, funcionários de órgãos de gestão eleitoral, membros da sociedade civil, especialistas em questões do género e  meios de Comunicação Social, em direitos humanos e representantes de organizações juvenis. Além de Angola, os observadores  são provenientes de  20 outros países africanos.

"A Missão irá acompanhar o processo eleitoral em curso, em conformidade com as disposições  relevantes da Carta Africana  sobre Democracia, Eleições e Governação de 2007; Declaração da UA/OUA sobre os Princípios que regem as Eleições Democráticas em África; Directrizes da UA de 2002 para Missões e Observações, acompanhamento das Eleições e outros instrumentos regionais e internacionais. A observação basear-se-á  também no quadro jurídico  existente para a realização de eleições  presidenciais na República de Cabo Verde", realça a nota da Comissão Africana.

Os observadores africanos têm a incumbência de se reunir com várias entidades cabo-verdianas,  concretamente, com  membros do Governo, instituições responsáveis pela realização das eleições , candidatos e Tribunal Constitucional, para "alcançarem o seu objectivo e terem uma observação independente, honesta, profissional e imparcial, baseada na transparência", segundo as instruções da Comissão  Africana.

"No final do período eleitoral,   a Missão apresentará as suas conclusões preliminares e recomendações em  conferência de imprensa", termina o documento. 


   A TERMINAR O MANDATO
Jorge Carlos Fonseca diz que deixa um país com cultura da Constituição


O Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, acredita que deixa um país "melhor” do que encontrou em 2011, desde logo pelo reforço da cultura da Constituição ao longo dos dois mandatos.
"Hoje em dia, Cabo Verde tem uma cultura constitucional, o que equivale dizer uma cultura democrática de longe mais sólida, mais alargada, mais tensa, do que tinha há uns anos.

Assistimos ao debate dos candidatos presidenciais e a todo o momento se invoca a Constituição, se acena com a Constituição, se propõe rever a Constituição, se propõe realizar a Constituição, se criticam dispositivos da Constituição”, disse Jorge Carlos Fonseca, em entrevista à agência Lusa.

Jurista nas áreas de Direito Penal, Processual Penal e Constitucional, professor universitário e escritor, Jorge Carlos Fonseca completa em 20 de Outubro 71 anos e foi empossado para o primeiro de dois mandatos como Presidente da República de Cabo Verde - o quarto desde a Independência - em 9 de Setembro de 2011 e reeleito em 2016, pelo que já não concorre às eleições presidenciais de hoje.

O Presidente participou na elaboração da Constituição de Cabo Verde de 1992, bem como noutras leis fundamentais aprovadas após o final do período do partido único, e valoriza a importância central que a primeira lei do país ganhou nos últimos anos, a mesma a que recorreu em 2020 para declarar, pela primeira vez, a situação de Emergência no arquipélago, com a suspensão de vários direitos, devido à pandemia de Covid-19.

"Não há manifestação que não invoque a Constituição, não há juiz hoje que não fundamente uma sentença, invocando a Constituição, não há um advogado que faça um requerimento sem invocar a Constituição, não há um grevista que não invoque a Constituição, não há um contestatário do sistema de regime político que não invoque, para o bem ou para o mal, a Constituição. Isto é um avanço extraordinário que o país tem”, destacou.

"A Constituição não é hoje uma referência vaga, estratosférica, mas é um instrumento que o cidadão utiliza para se afirmar, para criticar, para reivindicar e para se firmar no plano nacional. Eu fiz esse discurso antes de ser Presidente, mas um discurso forte, permanente. Em dez anos, ajudei a distribuir pelas escolas, pelos jovens, milhares e milhares de exemplares da Constituição”, recordou.

Jorge Carlos Fonseca explicou que levou esse discurso em torno da importância da Constituição a "dezenas e dezenas de conversas, palestras, em escolas secundárias, em universidades ou encontros com jovens”.
"E, portanto, esse é um trunfo de que normalmente não nos lembramos, mas que é suposto por tudo o resto. É uma mais forte cultura constitucional, que deve ser aprimorada, estendida, porque a cultura democrática da Constituição significa cultura democrática. Como costumo dizer, não há democracia fora da Constituição e muito menos contra a Constituição”, concluiu.

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