Sociedade

Jornalistas apoiam pessoas que clamam por comida

Dona Ermelinda está grávida de sete meses e, além disso, carrega ao colo uma outra criança. Todos os dias, sem máscara de protecção facial, é vista a disputar com outras pessoas a recolha de restos de comida num contentor de lixo para alimentar os filhos, alegadamente "por não ter nada para comer em casa".

03/06/2020  Última atualização 21H56
Edições Novembro © Fotografia por: Momento em que uma das beneficiárias recebia a cesta básica das mãos de um dos promotores da iniciativa solidária

O triste episódio, repete-se quase todos os dias na Centralidade do Kilamba, município de Belas, em Luanda, cujos protagonistas são pessoas idas dos bairros Cinco Fios, Mucula Ngola, Mutamba, Progresso e de outras zonas adjacentes àquela urbanização, o que deixou comovidos e preocupados vários moradores daquela zona habitacional.

Entre os moradores da Centralidade do Kilamba, destaque recaiu para um grupo de jornalistas que decidiu ajudar aquela mulher e sua família com uma cesta e material de higiene.

Quando foi interpelada pelos jornalistas, no momento em que revirava o contentor de lixo, à procura de restos de comida, dona Ermelinda não tinha a menor noção do que lhe era reservada naquele momento, fugiu, em flecha, sem olhar para trás, com o receio de “ser detida”.

“Fiquei com medo, porque pensei que ia ser presa, por estar a andar sem máscara”, começou por justificar a mulher a razão que a levou a fugir daquele grupo de profissionais da Comunicação Social, que queriam tão somente ajudá-la com géneros alimentares de que tanto procura no contentor de lixo.

“Não temos nada em casa. Estou aqui, tentando encontrar algo para sobreviver, numa altura em que estou desempregada. Muito obrigada por essa ajuda. Que Deus vos abençoe”, disse a mulher que colocou a trouxa à cabeça e seguiu caminho para casa.

Jornalistas da Rádio Nacional de Angola (RNA), Jornal de Angola, Televisão Pública de Angola (TPA) e Jornal O País, com apoios das empresas de detergentes Basel e Lisa Metal Indústria, distribuíram alimentos a mais de 160 famílias.

Foram entregues àquelas famílias arroz, feijão, massa, óleo vegetal, fuba, vinagre, frango congelado (coxas), álcool gel, lixívia e sabão.

Beneficiários aumentaram

As mais de 160 cestas básicas distribuídas deram alegria a muitas famílias que beneficiaram do gesto solidário do grupo de jornalistas. O facto foi visível quando o Jornal de Angola deparou com uma mulher que caminhava pelos quarteirões da Centralidade do Kilamba, com um bebé ao colo e outra criança agarrada a sua mão, também teve direito a um kit alimentar, na altura em que estava à procura de restos de comida para alimentar a família.

O gesto do grupo de jornalistas foi extensivo aos quarteirões A, B, D, E, G, H, M, N, R, X, U e T, depois seguiu para o KK5.000, onde também encontraram mulheres com crianças ao colo e gestantes, junto aos contentores de lixo.

O subdirector do Jornal O País, Dani Costa, um dos promotores da iniciativa solidária, considera que pequenos gestos ajudam a melhorar a vida de muita gente. “Tenho abraçado várias causas do género e nunca me canso de fazê-lo. Ajudar quem mais precisa é um acto bom que nos deixa aliviados”, realçou.

Dani Costa chama atenção da sociedade no sentido de todos passarem a ajudar com o pouco que têm, para manter o espírito de solidariedade entre as pessoas.

Ana Cristina, da Rádio Cinco, revelou ter ficado muito comovida com a acção dos seus colegas e pretende continuar a participar de iniciativas do género para ajudar o próximo.

“Cheguei a deitar lágrimas, por ver tanta miséria. É triste saber que muita gente não tem o que comer e recorre a contentor de lixo para o efeito, principalmente, mulheres grávidas que devem manter a saúde estável para proteger o bebé”, lamentou a jornalista.

Adultos e crianças disputam restos e são assaltados

Crianças, jovens, adultos e, sobretudo, mulheres grávidas, fazem parte do grupo de pessoas vulneráveis que diariamente recorrem aos contentores de lixo, disputando restos de alimentos ou artigos usados para comercializarem em mercados, em Luanda.

Um dos jovens, que não quis ser identificado, contou que através dos contentores de lixo muitos conseguem sustentar as suas famílias, através da colecta de restos de comida, artigos diversos, avariados ou não, depositados por moradores.

Segundo o interlocutor do Jornal de Angola, há dias em que por causa do pouco que conseguem, caem em mãos de meliantes, que os assaltam. E no dia em que receberam o donativo alimentar, havia esse receio de não chegarem às casas com a comida conseguida.

“Não vamos conseguir sair daqui com essa comida, porque estamos desprotegidos. Quando os marginais notam que levamos alguma coisa nos interpelam e se for útil recebem tudo”, lamentou o jovem.

Dezenas de crianças, sujas e com sinais de violência, vagueiam à procura de alguma coisa. Munidos de sacos, carregam à cabeça latas de refrigerantes, papelões e plásticos para a reciclagem. Também é negócio.

 

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