Política

Jorge Sampaio “era a simplicidade em pessoa”

Guilhermino Alberto

O antigo Presidente de Portugal Jorge Sampaio, que faleceu, sexta-feira, em Lisboa, aos 81 anos, “era a simplicidade em pessoa”. Este é a reacção unânime das pessoas ouvidas pela imprensa em Lisboa e um pouco pelo mundo.

12/09/2021  Última atualização 04H45
Jorge Sampaio faleceu, sexta-feira, em Lisboa, aos 81 anos © Fotografia por: DR
O carácter simples de Jorge Sampaio foi, aliás, constatado, no dia 9 de Março de 2006, pela imprensa angolana enviada a Lisboa para cobrir a posse de Cavaco Silva como sexto Presidente da República após o 25 de Abril de 1974.

Nesse dia, poucas horas depois da posse de Cavaco, o jornalista Alves António, da Rádio Nacional de Angola, irrompeu no hall do Hotel Diplomático, em Lisboa, onde estava hospedada a imprensa angolana, para anunciar que Jorge Sampaio estava com a neta, no bar do outro lado da rua Castilho, a tomar uma bica (um café).

Depois disso, a imprensa angolana viu o ex-Presidente e a neta a deixarem o bar e a apanharem o autocarro público. Actos como estes, recordam os vizinhos, eram normais em Jorge Sampaio e na mulher. As mensagens de condolências, de dentro e de fora de Portugal, são o sinal claro de que Jorge Sampaio era um verdadeiro construtor de pontes entre os povos.

O Chefe de Estado angolano, João Lourenço, recordou Jorge Sampaio como "senhor de uma elevada cultura” que "sempre se empenhou activamente na luta por um futuro melhor para toda a humanidade”. João Lourenço referiu, também, que Jorge Sampaio manteve "sempre um relacionamento de grande respeito e cordialidade com os países africanos de língua portuguesa, e com Angola, em particular”.

Com honras de Estado, o funeral , hoje, domingo, do antigo Presidente português não terá cerimónia religiosa. O Governo português decretou luto nacional de três dias e os partidos políticos só retomam a campanha pelas autarquias, na terça-feira.

O velório realizou-se, ontem, sábado, no antigo Picadeiro Real e Museu dos Coches, em Belém, junto ao Palácio, e foi aberto ao público entre as 12h00 e as 23h00.

Hoje, domingo, o funeral realiza-se no Mosteiro dos Jerónimos, entre as 11h00 e as 13h00. O corpo seguirá, por fim, para o cemitério do Alto de São João, onde vai ficar no jazigo da família.


Biografia

Jorge Fernando Branco de Sampaio nasceu no seio de uma família burguesa, "democrática e plural”, pela qual foi orgulhosamente marcado. "O que molda a vida das pessoas é sempre a sua educação”, justificaria. Da mãe, professora privada de inglês, herdou o humor e o rigor. Do pai, médico ideologicamente comprometido com o Serviço Nacional de Saúde e investigador, o culto da solidariedade e do serviço público. Do irmão, o psiquiatra Daniel Sampaio, sete anos mais novo, beberia outras influências.

Com Maria José Ritta, com quem casou em Abril de 1974, e de quem teve dois filhos, Vera e André, procurou replicar o modelo familiar que o inspirou. Não fosse esta família, disse, e nada do que fez fora de casa, no país, no Partido Socialista, na política, teria sido possível.

Fortemente empenhado nas causas colectivas e na intervenção cívica quase até ao último dia - o seu último artigo de opinião, publicado no "Público”, a 26 de Agosto, "Dever de solidariedade”, é um apelo aos parceiros da plataforma internacional que fundou para ajudar estudantes sírios e agora também jovens afegãs -, Sampaio foi, desde logo, o símbolo da luta estudantil nos anos 1960, um dos jovens com ideais cívicos e políticos mais cobiçados pela Esquerda na década seguinte e um exímio advogado de causas.

"Fui um atento aluno da vida. A advocacia foi uma grande experiência, porque foi muito diversificada, desde as questões humanas mais pesadas, mais difíceis, até às questões comerciais ou de família. E a experiência política, desde estudante, foi uma experiência gigantesca.”

Foi, aliás, no ano da campanha do general Humberto Delgado às presidenciais, em 1958, ele ainda com 19 anos, numa ditadura em que a maioridade era atingida apenas aos 21, mas já presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que despontou o entusiasmo pela política.
Bornito de Sousa representa Chefe de Estado

O Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, viajou, ontem, para Lisboa, a fim de participar, hoje, nas exéquias do antigo Presidente português, Jorge Sampaio.

Segundo nota dos serviços de apoio ao Vice-Presidente, Bornito de Sousa representa o Chefe de Estado angolano, João Lourenço, nas cerimónias fúnebres.

Numa mensagem de condolências dirigida à família e ao povo português, o Chefe de estado angolano manifesta  "profundo sentimento de pesar” pelo falecimento de Jorge Sampaio, que considerou "homem de elevada cultura” e  "personalidade de grande relevo na vida democrática portuguesa”.

João Lourenço aponta Jorge Sampaio como personalidade de "elevada cultura”, que se empenhou na luta por um futuro melhor para toda a Humanidade, ressaltando que, em reconhecimento do seu empenho, a ONU fez dele representante da Luta contra a Tuberculose e também Alto Representante para a Aliança das Civilizações.


Guilhermino Alberto / Lisboa

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