Cultura

Jomo Fortunato: “Quem sabe surja no futuro o Kuduro sinfónico?”

Isaquiel Cori

Jornalista

A noite do velório no estádio da Cidadela, com as bancadas abarrotadas de gente, lembrava o cenário de um jogo da selecção nacional de futebol nos seus tempos áureos.

27/11/2022  Última atualização 11H30
Nagrelha deixa um legado para juventude na musica © Fotografia por: Arquivo
O que explica o surgimento e a ascensão do kuduro?

Um aspecto a reter: as manifestações culturais e artísticas, acompanham sempre as transformações sociais e políticas em qualquer sociedade. Há uma tipologia musical característica do tempo colonial e outra do pós-independência. O Kuduro, tal como o conhecemos nas suas variantes, seria impensável nos anos quarenta, data dos primórdios da formação da Música Popular Angolana. Liceu Vieira Dias fala em meados dos anos quarenta, no filme "Ritmo do Ngola Ritmos” do realizador António Ole, como sendo a data da formação do "Ngola Ritmos”. O Kuduro, enquanto género musical, é resultado do aumento exponencial da pobreza e da desestruturação do sistema de ensino, o que resultou em arte, uma performance artística que inclui a dança e suas coreografias acrobáticas. O cantor e compositor, Nagrelha, se estudasse os clássicos da literatura angolana e portuguesa, estamos certos que produziria outra génese de textos, a menos que a ruptura com o português europeu, fosse intencional como ocorre nos textos literários de Luandino Vieira. A sociologia da arte  poderá explicar a ascensão do Nagrelha, contextualizada por factores de índole geracional. Nagrelha comunica, fundamentalmente, com os seus. Estamos em presença de um artista que dialoga com o seu público, através de um sistema semiótico muito próprio, consubstanciado no calão e numa visão do mundo muito própria das periferias.

A pesquisa sobre a origem, formação e contextualização social do Kuduro, passa pela investigação da sua pré-história, ou seja, o conjunto  de eventos anteriores à sua formação, enquanto género musical estruturado.

No período que vai de 1982 a 1983,  houve um conjunto de ocorrências no domínio da dança, protagonizado pelos dançarinos de break dance, Paulo Kumba, Elvis, João Dikson e Pataca no terraço do prédio Hitachi, Bairro Alvalade, Cine Atlântico, campo de jogos dos Leões de Luanda, e nos ginásios das escolas Mutu ya Kevela, Ngola Kanini e Ngola Kiluanji.  

Teve igualmente influência na configuração actual do Kuduro, enquanto dança, o movimento da Cabetula, com os "Originais da Cabelula”, Beto Kiala e Pedruce, e o movimento da vaiola com Cifoxi e Zé Vaiola.  Estamos numa época em que os concursos de dança nas escolas eram apresentados pelos radialistas Adão Filipe e Octávio Kapapa, da Rádio Nacional de Angola, Balduíno Carlos, Ernesto Bartolomeu e Cláudia Marília da Televisão Pública de Angola, sendo justo incluir na análise da pré-história os programas  "Explosão” e "Horizonte”,  da Televisão Pública de Angola.

À época, a dança era mais importante que a música, e as primeiras batidas de Kuduro não tinham letra, fenómeno que surgiu depois com o Tony Amado. Nagrelha distanciou-se da pré-história do Kuduro, criando  um estilo e uma linguagem muito próprios.  

O que estará por detrás do Kuduro e que justificará a sua força entre os jovens das periferias?

A força é geracional de uma juventude sem rumo, crescida num contexto de corrupção e de desvalorização dos quadros angolanos, que poderiam dar continuidade ou substituir a fuga de cérebros na época colonial. Estamos perante uma juventude brutalizada, distante da academia,mas que possui uma arte, à medida das circunstâncias sociais das periferias, com todas as assimetrias adjacentes e sobejamente conhecidas.

Por que será que o Kuduro e os kuduristas atraem tanta hostilidade, ao mesmo tempo que (o kuduro), paradoxalmente, atrai muita gente às rodas de dança nas festas?

A hostilidade advém dos sectores que fazem uma leitura aparente, ou melhor, superficial e  impressionista das origens sociais e estéticas do Kuduro.As propostas do Kuduro, só muito dificilmente são absorvidas pela visão do belo da velha geração. Os gostos são subjectivos mas importa lembrar que a música ocorre quando há harmonia, ritmo e melodia. No entanto, há músicas mais harmoniosas, melodiosas e ritmadas que outras. O Kuduro investe, tão-somente,  no ritmo.  Importa reter,  sem desvalorizar, os esquemas rimáticos e a dimensão satírica dos textos do Kuduro.

É o Kuduro o género musical dos sofredores?

Repare que o Nagrelha comunica com o seu público, ele não dialoga com as elites. Pergunta se é uma música dos sofredores? Talvez… o certo é que é uma vertente musical que se popularizou nas camadas sociais mais desfavorecidas, embora a sua origem do ponto de vista da estratificação social, seja híbrida. Neste capítulo,  importa estudar com a acuidade recomendável a pré-história do Kuduro.

Além de estilo musical e cultural o Kuduro é também um fenómeno político?

Enquanto fenómeno de massas, o Kuduro é matéria-prima apetecível a qualquer político. Neste aspecto, interessa analisar os textos satíricos do Kuduro. Um exemplo, dentre outros não menores, é o tema "Arroz com feijão” do "Elenco da Paz”, reparemos na letra: Só mexeram no meu prato /só picaram no meu prato / afinal é só feijão / pensaram que tinha carne / o bocado que era meu / afinal é só feijão / Meu prato do dia a dia (...), um tema interessante para uma reflexão profunda sobre a fome e a miséria.

O que é que Nagrelha tinha de especial e que justifica tamanha legião de seguidores e/ou admiradores?

Nagrelha é um fenómeno explosivo da cultura popular não académica. Na verdade, sempre valorizei a cultura de emanação popular, distante dos circuitos formais da academia, aliás como parte substancial das origens da Música Popular Angolana, quer a nível do canto como ao nível instrumental. O carisma era resultado de uma conjugação de vários factores: a linguagem e a mística da comunicação do Nagrelha com o seu público, a propensão para a liderança, a assimilação de comportamentos pouco recomendáveis e a integração dos seus seguidores nas franjas marginais do Sambizanga e da periferia em geral.

Acredita que vai surgir um "novo” Nagrelha?

Na história da arte e das sociedades, existem ocorrências previsíveis e outras não. O surgimento de uma personalidade carismática, igual ao Nagrelha, é naturalmente impossível, por uma simples razão: não existem pessoas repetíveis. Pode ser que surja um ícone com as mesmas características, caso permaneçam as causas que estão na origem da formação do Kuduro, ou seja,  as assimetrias sociais e a ausência de um sistema de ensino estruturado. Contudo, o Kuduro, enquanto género, pode evoluir para outras vertentes. Pode ser que surja no futuro, o Kuduro sinfónico, quem sabe?

Sempre pensando na evolução e na refundação do género, seria interessante integrar a história do Kuduro nos estudos culturais universitários, tal como já existe no Brasil com os estudos da Adriana Fancina e Hermano Vianna, em relação ao funk brasileiro, um género vizinho ao kuduro.  Julgamos ser possível estabelecer nexos periodológicos, sem preconceitos, e elevar à categoria de ensino superior, conteúdos sobre o kuduro, género musical contemporâneo de expressão internacional.

Os estudiosos da contemporaneidade musical angolana estão em condições de reunir material disperso, incluindo depoimentos de artistas e protagonistas de reconhecido mérito, sobre a história e discografia do Kuduro, visando a sua sistematização e integração no âmbito dos Estudos Culturais Angolanos, de nível universitário.

A proposta de sistematização da história do Kuduro, que pressupõe um debate alargado entre investigadores e artistas, poderá analisar e dar a conhecer o estado actual deste género musical com o objectivo de encontrar consensos possíveis para a sua estabilidade periodológica, conhecer as diferentes fases do Kuduro no feminino, reflectir sobre a génese das letras das canções, aconselhar a reutilização das conquistas de Angola, ao nível da educação, saúde, construção de infra-estruturas, educação cívica, e preservação dos bens públicos nas composições musicais, numa perspectiva de associar a arte à educação patriótica. 

Atenção: pelas características estéticas, rítmo peculiar e propósitos textuais,   a análise comparativa do Kuduro deve ser empreendida no interior deste género musical, pelo que se nos afigura descabido aproximar o Kuduro às correntes musicais mais preocupadas com arranjos e construções elaboradas, do ponto de vista  harmónico e melódico. É urgente acabar com os preconceitos da investigação universitária no domínio da "Cultura Popular”, na sua relação com as indústrias culturais.

*Investigador especializado em música popular urbana angolana.

MARIA LUÍSA ROGÉRIO (*)
"A voz que emergiu dos ghetos”

"Compreendo que Nagrelha signifique pouco ou nada para algumas pessoas. Eu própria, talvez influenciada por um pseudo-elitismo barroco como diria o Raimundo Salvador, também tinha um certo olhar preconceituoso sobre o Kuduro até ao dia em que entrevistei Euclides da Lomba, salvo erro no ano de 2000.

A minha ignorância não me impediu de perceber que tinha duas opções: gostar ou ignorar! Paradoxalmente, gostava de dar uns valentes toques na roda, lá onde a intelectualidade se esvai, as estéticas etc. e tal perdem rede. Kuduro não é o tipo de música que eu coloque para ouvir em casa ou no carro, mas é o tipo de música que não me deixa indiferente.

Quando danço ao som do Kuduro, esqueço as malambas, as dores do corpo e da alma. Kuduro, como ensinou Da Lomba naquela entrevista, é mais do que ritmo dançante para o qual correntes elitistas olham com preconceito, quase com desdém. Kuduro é um fenómeno social. Por detrás da forte batida, das rimas irreverentes e muitas vezes ofensivas, do "baixo calão” e dos movimentos insinuantes, encontramos uma cultura popular. Não a cultura das definições acadêmicas nem a que nos coloca bem na fotografia do politicamente correcto. Falo da cultura que manifesta razões, formas de ser e de estar na vida.

Nagrelha é a voz que emergiu dos ghetos, rompendo a "fronteira do asfalto”, como tão bem descreveu Luandino Vieira. Obviamente, isso incomoda! Um "mussequeiro” sem maneiras a invadir-nos a casa adentro com o seu "pretuguês”? Onde é que já se viu "liambeiros delinquentes” do musseque armados em gente só porque já aparecem na televisão? Pois, é esse mesmo! Nagrelha é a voz do povo.

Se quiserem entender o que isso significa, nem que seja para criticarem com mais fundamentos, visitem o Sambizanga, o Rangel, o Cazenga e todas periferias. Depois, podem estender o caso de estudo ao asfalto. Talvez descubram a dimensão do "Comboio”. Ninguém é obrigado a gostar de Kuduro. Ou do Nagrelha. Mantenham-se à vontade na redoma do etnocentrismo cultural euro-ocidental. Isso não me incomoda, cada um com a sua identidade. Exercitar a liberdade de expressão é um direito. Respeitar a dor alheia é sinal de civilidade. Isso também é democracia!

Descansa em paz Nagrelha”

*Jornalista

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