Opinião

João Lourenço lembrou uma verdade irrefutável

João Lourenço lembrou, recentemente, no Bié, na Inauguração de um hospital, o que todos devíamos saber: tudo o que o Estado faz em prol do povo não é favor, pois, acrescento eu, é obrigação e sempre muito pouco.

24/10/2019  Última atualização 09H27

As palavras do Presidente podem ter tido vários destinatários, como o cidadão anónimo, desabituado a receber o que lhe é devido, mas, igualmente, os que pelas funções que exercem, aos mais variados níveis, em momentos idênticos aos protagonizados, no Bié, por João Lourenço, até com muito menos importância na vida das comunidades, estão sempre à espera das palmas e elogios, como se fosse do bolso deles que saisse o dinheiro para, por exemplo, construir a ponte ou comprar a enxada que plantou a primeira árvore de uma zona verde. A única coisa deles é a boca da qual lhes saem as promessas vãs.
A lembrança feita, em público, pelo mais alto magistrado da Nação pode constituir um marco na forma de estar na política, das obrigações de quem se propõe ser intérprete dos direitos legítimos do povo, principalmente dos mais sofredores.
Ao ouvir as palavras de João Lourenço, precisamente na inauguração de uma Unidade de Saúde Pública, que há muito devia estar em funcionamento, não fosse a rapina ao erário feita pela gatunagem de “colarinho branco”, vieram à memória de muitos angolanos as tantas mortes causadas pela ambição criminosa de quem roubou medicamentos à guarda do Estado, para fazer com eles negócio que lhes permitiram enriquecer, atafulhar contas bancárias.
O Presidente da República fez bem em lembrar aquilo que todos os angolanos deviam saber, mas muitos não sabem, porque nunca souberam, esqueceram ou... desejam que jamais se saiba, que o povo tem direitos que lhe são devidos e pelos quais não tem de agradecer.
A Pátria da fraternidade, na qual já não faz sentido inaugurar hospitais, pontes, escolas, bairros, estações de água, luz e tratamento de lixo, escolas, pontes, estradas, fábricas, em suma, tudo o que continua a fazer parte dos anseios presentes, ainda está distante. Para que ela venha a existir, ao menos para a posteridade, é urgente que se comece já a revolução de mentalidades que pode ter tido o “pontapé de saída” no Bié, quando João Lourenço lembrou, quase em jeito de pedido, para não se agradecer ao Estado aquilo que tem a obrigação de fazer.
A “palavra de ordem” está dada. Vamos lá ver quantos servidores do Estado, nos diversos escalões, entenderam e seguem o exemplo que pode levar, entre outras vantagens, à redução da gasosa, número de enfatuados, pindéricos, medíocres, anúncios de não dizer nada, intolerância, cursos comprados.
A Angola que a maioria de nós quer deixar aos que se nos seguem ainda está longe. Mas enquanto for importante abrir furos de água, acabar com ravinas, dar emprego, ajudar as vítimas das secas e cheias, construir estabelecimentos de ensino e saúde, que, cada vez mais, haja menos servidores do Estado a pensarem que lhes são devidos agradecimentos, elogios, aplausos, nomes e fotos nos jornais, por fazerem simplesmente aquilo para o qual são pagos e se dispuseram a fazer, sem ninguém os obrigar.
Os problemas do país são muitos e graves, de tal forma que dias há em que se olha para o horizonte e parece não se ver nada. Nessas alturas é, no mínimo, reconfortante ouvir alguém dizer aos angolanos que não tem de agradecer por lhes satisfazerem direitos consagrados na Constituição. Que é verdade, todos sabem, mas é importante que seja o Presidente a alertar para a realidade.
Alguns marimbondos é que não devem ter gostado nada de ouvir. Mas o negócio deles é outro; é engendrar estratagemas para, sem trabalho, aumentarem fortunas.

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