Entrevista

Entrevista

Jessica Hand apela à paciência na obtenção dos resultados do combate à corrupção

César Esteves

Jornalista

Em fim de missão em Angola, a embaixadora do Reino Unido, Jessica Hand, em entrevista ao Jornal de Angola, reconhece que o combate à corrupção “é uma prioridade fundamental e muito corajosa do Presidente João Lourenço, que com isso “envia-nos fortes sinais de que o Governo, a liderança do país e a população estão prontos para combater a corrupção e visando melhorar o futuro do país”. “Reconhecemos que não é nada fácil e sabemos que as situações que podem advir deste combate são bastante complexas. O desvio de fundos frequentemente envolve vários países e jurisdições. Facto com que o combate à corrupção seja um processo moroso e complicado”

17/11/2021  Última atualização 05H35
© Fotografia por: Dombele Bernardo | Edições Novembro
A senhora embaixadora está em fim de missão a Angola, que balanço faz?

O que mais me marcou, é o ritmo acelerado em que as coisas estão a mudar em Angola. Um exemplo claro disso é o facto de que quando cheguei a Angola, reuni com várias pessoas e explicava que o Reino Unido pretendia aprofundar as relações bilaterais com Angola em diversas áreas e perguntava: o que o Reino Unido pode fazer para tornar esta colaboração frutífera? E a resposta era: precisamos de tudo. Agora quando vou a reuniões e proponho colaborar ou fazer parcerias entre o Reino Unido e Angola, questiono: o que o Reino Unido pode fazer para aprofundar as relações entre os nossos países? De seguida, recebo um plano de como podemos partir para acção. Então, noto que existe um sentido maior de estratégia e o conhecimento do que Angola precisa fazer para desenvolver certas áreas. Penso que isto é o resultado do processo de reforma que tem sido implementado muito rapidamente e de forma muito corajosa. Os resultados são notórios, as pessoas tiveram que mudar, desenvolver novas formas de trabalhar visando atingir os objectivos, criou-se uma nova imagem de Angola e como resultado surgiram condições favoráveis para a implementação de negócios e parcerias externas. Vejo também que existe uma população jovem mais energética e as pessoas agora vão atrás de soluções que funcionem para as suas vidas e não esperam que o Governo lhes diga o que devem fazer. Isto comprova que existe um entendimento ascendente do papel do Governo para estabelecer as regras, as políticas e formato no qual as coisas devem acontecer, e informar a população, mas não dirigir as actividades individuais. É encorajador ver também o número crescente de empreendedores jovens, pessoas de negócios e grupos sociais a enfrentar assuntos pertinentes com o objectivo de melhorar as condições gerais.  



Que impressão a senhora embaixadora tinha de Angola, antes do início da sua missão, e que imagem leva, agora?

Quando cheguei a Angola, em Março de 2018, a impressão que tive é que era um país que estava num período de transição. Havia algumas incertezas sobre o futuro e o rumo que o país estava a seguir. Contudo, entendo que isso deve-se à própria história do país que foi turbulenta e à vontade de garantir um futuro próspero. Reconheço que a Angola de hoje é um país aonde a confiança é crescente e que está a tentar definir a sua identidade e propó-sito. Sempre que peço a um amigo angolano que me explique o que significa ser angolano, é um tema que tem gerado debates muito interessantes, recheado de perspectivas diferentes. O que me faz pensar que Angola está numa posição que pode escolher o rumo que pretende, basta querer e fazer acontecer. Neste momento, Angola tem a possibilidade de recriar-se e tornar-se no que quiser. Vejo que o Governo está a tentar diversificar a economia e mudar este paradigma de que o país só gera renda a partir das vendas do petróleo e ter uma economia mais aberta, sustentável e inclusiva.  Fazendo com que as pessoas usem o seu talento e vocação para que a Angola se torne ainda mais influente na região da África Austral e no mundo.  


Que aspectos mais privilegiou na sua missão em Angola?
Esta é uma questão desafiante, da qual poderia falar durante horas. (Sorrisos) Para o Reino Unido, e especialmente como embaixadora, confesso que tive momentos excepcionais, claramente um desses momentos foi a visita do Príncipe Harry a Angola, em Setembro de 2019, outro momento foi a Cimeira de Investimentos Reino Unido e África, em Janeiro de 2020, aonde tivemos a representação de uma delegação angolana e Angola foi um dos países que estimulou mais atenção e engajamento por parte das empresas e investidores britânicos presentes. Agora, olhando para assuntos mais correntes, o Reino Unido continua a colaborar na desminagem em Angola, que é crucial para tornar as áreas mais afectadas em zonas seguras para a população, os negócios, os transportes e o turismo. O Reino Unido orgulha-se em ter empresas britânicas, como a The Halo Trust e a MAG (Mines Advisory Group) que, em parceira com a Agência Nacional de Acção Contra Minas, têm contribuído para a melhoria de vida das pessoas que vivem em áreas afectadas. Como doador estamos muitos satisfeitos em poder colaborar com outros países para apoiar Angola a tornar-se livre de minas. No âmbito económico, Angola e o Reino Unido têm colaborado em várias áreas, desde o apoio ao crédito à exportação e, claro, no processo anticorrupção, que está relacionado com o sector político-económico. Durante o meu tempo aqui em Angola, vi empresas britânicas, como a Anglo American, Rio Tinto e Pensana, a investirem no sector da mineração em Angola. Todas essas são em-presas de negócios de longo prazo, são empresas que quan-do se comprometem com um país, permanecem lá durante muito tempo. Penso que ainda há mais sectores a serem explorados - o sector das energias renováveis, é um sector re-cheado de oportunidades e a Embaixada Britânica orgulha-se de apoiar a criação da Associação Angolana de Energias Renováveis (ASAER), que vai fazer uma série de workshops e tornar-se cada vez mais forte. Ressalto que temos estado a contribuir para o diálogo político, a apoiar os princípios de Direitos Humanos que Angola tem vindo a desenvolver cada vez mais, a liberdade de expressão e igualdade do género e a candidatura de Angola à Commonwealth que, por si só, indica que Angola pretende implementar os valores que todos os membros da Commonwealth acreditam e implementam no seu país, o que tem sido muito encorajador.


Quais foram as principais dificuldades com as quais se deparou durante o seu mandato?
Eu não falo em dificuldades, prefiro focar-me em desafios a serem ultrapassados. Porque quando superamos um desafio, este torna-se numa oportunidade. Houve sim frustrações, como o ritmo em que as coisas se desenvolvem e isso deve-se às regulações e procedimentos locais. Mas é encorajador ver as mudanças que estão a ocorrer para tornar Angola mais acessível e previsível. Este aspecto transcende também para o lado político, a habilidade de envolver os ministérios em assuntos importantes que trazem a mudança e progresso ou em novas áreas de cooperação. Então, penso que o ritmo em que as coisas acontecem foi desafiante para mim. À medida que viajei pelo país, notei que os desafios são iguais para todos, tanto para mim na qualidade de diplomata como para os angolanos em geral: as condições das estradas, as comunicações em geral, a confiabilidade do sinal e serviços de Internet, implementação de facilidades de pagamento. Estes são assuntos que todos nós, na qualidade de residentes em Angola também sentimos, e são assuntos que o Reino Unido está disponível para ajudar e apoiar a melhoraria das condições gerais para todos. Não se trata apenas de empresas britânicas se instalarem e resolverem situações pertinentes, mas sim de Angola e o Reino Unido trabalharem em conjunto de acordo às prioridades do país para melhorar estes aspectos.


Que avaliação faz da cooperação entre Angola e o Reino Unido, nos mais diversos domínios?
É bom ressaltar que, quando vim para Angola, as relações entre o Reino Unido e Angola eram boas, porém, não eram amplas e profundas. O que consegui alcançar durante os 4 anos de missão foi alargar as áreas de cooperação, aprofundar o conhecimento entre os dois países e desvendar novas formas de colaborar. Agora temos uma colaboração crescente entre o British Council e o Ministério da Educação que apoia a formação de Língua Inglesa, através da capacitação de professores de Inglês, este é um aspecto que vai continuar a crescer. Em termos de empresas britânicas a colaborar em Angola, já não temos somente a BP, as nossas áreas de colaboração transcendem o petróleo e gás. Agora colaboramos também nos serviços financeiros, mineração, energias renováveis, distribuição de energia, temos empresas a construir hospitais, ou seja, estamos a trilhar novos caminhos para a colaboração presente e futura. Também temos conversado sobre um vasto leque de temas importantes no contexto internacional e no contexto bilateral para assegurar que temos os acordos necessários para permitir que as políticas e projectos em comum se desenvolvam. Estou muito satisfeita por poder passar um contexto diplomático vibrante e activo entre Angola e o Reino Unido para o meu sucessor.


 Como avalia a política angolana? A interacção com os seus parceiros, em particular com o seu país?
O trabalho de um diplomata é entender as políticas do país onde se encontra, sem julgar as mesmas e encontrar formas produtivas de colaborar. Em Angola, ao fazer isso, o Reino Unido apercebeu-se como é importante colaborar. No processo anticorrupção, de momento estabelecemos boas relações entre a Procuradoria Geral da República (PGR) e outros departamentos-chaves que também lideram este processo em Angola e a Agência Nacional Anti-crime Britânica. Penso que isto é o resultado das discussões entre as empresas britânicas e o Governo angolano visando melhorar o ambiente de negócios. Porém, existem áreas em que ainda carecem de mais discussões e trabalho para atingir os resultados pretendidos, como os serviços aéreos. O que vemos no geral é que as políticas em Angola estão a evoluir e oferecem soluções apelativas para o Reino Unido, empresas britânicas e investidores. Ainda existem alguns desafios no horizonte, como por exemplo o factor da barreira da comunicação linguística, é muito importante aumentar a quantidade de falantes de língua inglesa em Angola, porque afinal a língua inglesa é a língua dos negócios e da educação internacional. Daí a importância em ter o British Council a colaborar com o Ministério da Educação. Também estamos a apoiar a Parceria Global para a Educação, cuja meta é fortalecer os sistemas de educação nos países em desenvolvimento, a fim de aumentar drasticamente o número de crianças que estão fora do sistema de ensino e aumentar a qualidade do mesmo.


Durante o seu mandato, a senhora embaixadora focou a sua atenção em temáticas como acção climática, crédito à exportação, Comércio e Investimento, Desminagem, Educação, Liberdade de Expressão e Caça ilegal de Vida Selvagem. Por que razão privilegiou essas áreas?
O Reino Unido priorizou estas áreas porque são fundamentais para a parceria bem-sucedida e duradoura e outras que facilitam o processo da parceria entre Angola e o Reino Unido. Por exemplo, o sector da Educação é fundamental, pois se não temos a capacidade para comunicar e compreendermo-nos, não poderemos colaborar. Crédito à exportação é fundamental para apoiar os negócios britânicos a se implementarem em Angola e terem o apoio que precisam para colaborar. A desminagem é crucial para permitir que certas comunidades vivam sem medo de minas e em liberdade no seu país, mas também é importante porque abre portas ao progresso para desenvolver os negócios, infra-estruturas, comunicações de que essas áreas precisam e tornar o país próspero. A liberdade de expressão e outros direitos humanos também são muito importantes porque são valores padrão a nível mundial. E mais do que isso, permitem que a população tenha debates abertos e livres sobre o seu próprio futuro e dá-lhes confiança para falar com pessoas de outros países e outras realidades. Mais recentemente abordámos a Acção Climática e a Caça Ilegal de Vida Selvagem, apoio para o Ecoturismo e a Conservação de Biodiversidade é muito importante, não apenas pela colaboração entre o Reino Unido e Angola, mas pelo futuro do planeta e a sobrevivência da humanidade. Este é o problema dos nossos tempos e há medida que sediamos a COP26, o Reino Unido está na linha da frente do combate às acções climáticas e queremos apoiar todos os países a terem as suas próprias iniciativas. Angola tem uma oportunidade fantástica de proteger o seu meio ambiente  rico, diverso e único agora, mas também de alinhar o seu progresso para o futuro à medida que vai diversificando a economia. Por exemplo, Angola pode escolher e aplicar princípios sustentáveis para assegurar que as técnicas de construções são amigas do ambiente, assegurar a produção orgânica de alimentos e ensinar as pessoas como devem ser mais sustentáveis e cuidar ao invés de causar danos ao meio ambiente.


O Presidente João Lourenço elegeu como uma das bandeiras da sua governação o combate à corrupção e à impunidade, dois males que grassavam de forma intensa no país. Que comentário se lhe oferece fazer sobre o assunto? Acha que, por via desse caminho, Angola poderá, a médio ou longo prazos, alcançar bons índices de desenvolvimento?
Infelizmente a corrupção é um mal que afecta todos os países, especialmente a sua reputação e as relações com outros países. Penso que o combate à corrupção é uma prioridade fundamental e muito corajosa do Presidente João Lourenço. Envia-nos fortes sinais de que o Governo, a liderança do país e a população estão prontos para combater a corrupção e para se desafiar visando melhorar o futuro do país. O Reino Unido contribuiu para este combate em Angola com a sua perícia. Reconhecemos que não é nada fácil e sabemos que as situações que podem advir deste combate são bastante complexas. O desvio de fundos frequentemente envolve vários países e jurisdições. Facto com que o combate à corrupção seja um processo moroso e complicado. Noto que Angola percebeu que é positivo combater a corrupção, mas há que ser paciente para ver os resultados. Por isso, apoiamos estas acções que já estão a dar frutos relativos à reputação de Angola no panorama internacional. Como, por exemplo, o ranking de Angola no Índice de Facilidades em Fazer Negócios tem vindo a melhorar, que é um indicador crucial para os investidores estrangeiros, reflecte se o país é credível, se existem mecanismos para apoiar os investidores ou não.


Falemos, agora, da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), que decorre, de 1 a 12 de Novembro, em Glasgow, na Escócia. Não é a primeira vez que a ONU reúne quase todos os países do planeta para discutir questões climáticas. Acha que dessa vez o mundo vai conseguir soluções concretas para controlar a mudança climática que se diz estar descontrolada?

Esta é uma questão complicada. Existe um vasto leque de questões nas quais temos que trabalhar colectivamente para mudar a nossa maneira de viver, emendar a nossa abordagem e mudar a forma como fazemos muitas coisas. As mudanças climáticas afectam todos nós e como vivemos. Por isso, temos que mudar a nossa maneira de usar os combustíveis fósseis, que são um dos grandes poluidores deste planeta e temos que mudar os nossos hábitos e como olhamos para a natureza. A natureza não deve ser olhada como uma fonte da qual tiramos apenas aquilo que necessitamos, mas sim uma fonte de vida para a qual também precisamos contribuir. É absolutamente necessário abordarmos este tema agora, pois a ciência é muito clara, estamos a magoar o nosso planeta, estamos a magoar-nos a nós próprios e a colocar em risco o futuro da humanidade. As pessoas têm que ter em mente que nós também somos parte integrante da natureza. A Conferência da COP26 vai permitir colocar estes assuntos na mesa e debater sobre o mesmo de forma a que os países cheguem a um acordo sobre a acção necessária para melhorar a nossa relação com a natureza.Foi uma honra e prazer ver Angola representada por Sua Excelência Presidente da República, João Lourenço, e uma delegação de alto nível composta por vários ministros. Angola está a ter a oportunidade de tratar assuntos do seu interesse no contexto global, como o Plano Nacional para as Mudanças Climáticas, aumentar a energia sustentável no país, proteger a Vida Selvagem e a conservação e repovoamento dos mangais.


Com que expectativas o Reino Unido acolhe o evento?
O Primeiro-Ministro Britânico, Boris Johnson, admitiu que vai ser difícil chegar a um acordo. Mas as situações desafiantes trazem foco e as mentes focadas alcançam resultados. Eu penso que necessitamos avançar o diálogo e a medida que os países foram anunciando os seus compromissos para reduzir emissões e comprometerem-se a remover os grandes poluidores, como substituir carros a combustível para carros eléctricos. Que tenham mais cuidado com a natureza, a conservação das florestas e que usem esse meio conscientemente. Que usem as finanças de forma a beneficiar projectos sustentáveis e amigos do ambiente. Basicamente devemos aumentar a consciencialização sobre o que cada indivíduo pode fazer. Já vimos o activismo dos jovens e as crianças sobre os esforços que cada um pode fazer da sua maneira para se tornar mais sustentável, isto é, parar de usar garrafas de plástico, reciclar o lixo residencial, usar sacos de pano reutilizáveis ao invés dos sacos de plásticos descartáveis. É bom ressaltar que no mês de Outubro decorreu o evento "Youth 4 Climate Summit” (Cimeira da Juventude para o Clima), realizado em Itália, em que participa-ram jovens activistas climáticos angolanos. A Cimeira da Juventude para o Clima visa dar visibilidade ao trabalho de jovens líderes climáticos de todo o mundo e celebra o poder da geração jovem para impulsionar acções climáticas ambiciosas. Logo, penso que a COP26 cobre tanto as nossas práticas individuais, como as políticas internacionais.  Ambas são importantes para reverter os danos causados ao ambiente.


O Reino Unido está, neste momento, a trabalhar com todas as nações para chegar a um acordo sobre como lidar com as mudanças climáticas. O que se espera que venha a obter com o acordo?

Temos quatro áreas prioritárias que são a Mitigação, Adaptação, Financiamento e a Colaboração. A Mitigação é o compromisso de proteger e manter a capacidade de alcançar as emissões de carbono neutras e manter o nível de aquecimento global a 1,5 grau °C, para assim parar com o processo de degradação do nosso planeta. A Adaptação é a capacidade de mobilizar e gerar estratégias para apoiar os mais vulneráveis para proteger comunidades e os habitats naturais. No caso de Angola, por exemplo, vemos os efeitos da seca no Sul, é necessário criar mecanismos para evitar esses impactos e proteger essas comunidades. O Financiamento é a capacidade de angariar finanças públicas e privadas para gerar apoios financeiros para os mais vulneráveis, este é um dos objectivos dos Acordos de Paris e é algo que pretendemos avançar agora na COP26. Devemos colaborar e trabalhar em conjunto para a mudança, porque somos todos culpados e devemos nos unir para travar estes impactos globais.


Qual é para a senhora a urgência nesta COP26?
A urgência da COP26 é a sobrevivência da humanidade e do nosso planeta, porque não existe um "Planeta B”.


Fala-se que os compromissos assumidos na COP21, realizada em Paris, em 2015, não chegaram perto de limitar o aquecimento global a 1,5 grau, e a janela para o alcançar vai-se fechando. Acha que a COP26 vai impedir que ela se feche na totalidade?
Tenho esperança e tenho que acreditar que a COP26 vai de facto alavancar a colaboração mundial a favor do combate às mudanças climáticas. De 2015 a 2021, tivemos um intervalo de seis anos, em que poderíamos ter feito mais, contudo não fizemos ou vimos uma acção colectiva, como resultado as mudanças climáticas agravaram-se. Agora com essa perspectiva em mente, a COP26 vai permitir unificar os países e implementar uma acção climática global, a passos diferentes, mas a favor de um só objectivo: proteger e assegurar a sobrevivência do nosso planeta. Espero que sejamos capazes de manter essa janela aberta e ainda possamos abri-la ainda mais, senão o futuro do mundo vai estar em perigo.



O Reino Unido pretende reunir os países para chegar a um acordo sobre um resultado abrangente, ambicioso e equilibrado, que leve adiante acções climáticas. Acha que se vai conseguir atingir este objectivo?
Temos que ser optimistas, temos que avançar para a COP26 com pensamento positivo, senão estamos a minar o progresso e o nosso futuro. Por isso penso que as metas propostas são realistas. O mundo está a vivenciar as mesmas ameaças em todo o lado: as secas, as elevadas temperaturas, as enchentes, os vulcões em erupção, os plásticos, o lixo não reciclado e deitado no chão e nos oceanos, a poluição do ar, os fogos extremos etc... Isso faz-me pensar que a COP26 tem metas essenciais que precisam ser alcançadas para o bem da humanidade.  

Em Dezembro do ano passado, o Reino Unido comunicou sua nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), no âmbito do Acordo de Paris, para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). O NDC compromete o Reino Unido a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em toda a economia em pelo menos 68% até 2030, em comparação com os níveis de 1990. Em que pé está este processo?

O Reino Unido tem como estratégia alcançar o objectivo concreto de ser um país de carbono neutro até 2050 e somos o primeiro país a implementar uma legislação para alcançar esta meta. Para que tal seja alcançado, temos metas específicas a serem implementadas e nos próximos 30 anos vamos implementar as Contribuições Nacionalmente Determinadas que envolvem o Governo, as indústrias, as empresas e a sociedade, juntos vamos focar-nos em: continuar a produzir energia limpa, visto que somos o maior produtor de energia eólica offshore do mundo; encerraremos o apoio governamental directo ao sector de energia de combustíveis fósseis no estrangeiro; vamos duplicar o financiamento à acção climática mundial para ajudar as nações em desenvolvimento com o valor de £ 11,6 biliões por ano até 2025; anunciamos o fim da venda de carros novos a gasolina e a diesel no Reino Unido até 2030, apenas venderemos carros novos eléctricos; gastaremos pelo menos £ 3 biliões do nosso financiamento para a acção climática mundial para proteger a natureza e as soluções baseadas na natureza nos próximos cinco anos; vamos plantar árvores em 30.000 hectares de terra por ano até 2025; anunciamos planos e apoios para a agricultura que colocam os agricultores na vanguarda da reversão do declínio ambiental e do combate às mudanças climáticas; tornaremos obrigatório divulgar informações económicas relacionadas ao clima até 2025; o sector de baixo carbono e a cadeia de abastecimento fornecem mais de 460.000 empregos no Reino Unido e a nossa ambição é ter dois milhões de empregos verdes até 2030. É desta forma que o Reino Unido pretende alcançar as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas até 2030.


De que forma Angola pode tirar proveito da presença no evento?

Angola pode tirar proveito de várias formas, como, por exemplo, reforçando as medidas que já foram implementadas ou anunciadas. Pode também inspirar-se no que outros países estão a implementar e identificar parceiros ou aliados com base no que é viável para Angola.  Espero que Angola contribua com a sua experiência porque tem a sua própria história para contar e nenhum país está a vivenciar as mudanças climáticas sozinho:  vários países estão a passar pelo mesmo.  Então temos que ter noção que todas as experiências são válidas.


       "A resposta de Angola à pandemia da Covid-19 foi decisiva e corajosa”
Senhora embaixadora, a pandemia da Covid-19 atrasou projectos e iniciativas pelo Mundo, tendo levado, aliás, ao adiamento da COP26. Quando acha que estaremos (os humanos) preparados para uma melhor resposta a eventos como a Covid-19?
A lição que a Covid-19 nos ensinou é a importância de pensar o impensável e a capacidade de ciência e de cientistas.  Nós não estávamos preparados para esta pandemia. Mostrou-nos o valor das vidas humanas, da ciência e do quão é importante ter uma resposta mundial unificada. Assim como estamos a fazer com a COP26. Houve também aspectos positivos, como o ritmo de resposta à Covid-19, o desenvolvimento da vacina que foi extremamente acelerado e o ritmo que esta foi distribuída não tem comparação. A colaboração efectiva é importante e quando o bem-estar está em jogo é importante simplificar procedimentos para que possamos proteger os nossos e quem precisa de ajuda. En-quanto não apoiarmos e vacinarmos todas as pessoas do mundo, ninguém estará seguro, porque as pessoas movem-se e engajam umas com as outras. Por isso é bom reconhecer que existe a necessidade de uma acção global quando a ameaça afecta a todos.

Como avalia a resposta dada pelo mundo à pandemia?

Eu penso que a resposta mundial à pandemia da Covid-19 foi extraordinária, acho que foi fantástico poder unir cientistas mundiais para desenvolver uma vacina para combater um novo vírus em cerca de 6 a 8 meses.  Provou a importância de ter organizações como a Organização Mundial de Saúde (OMS), de ter uma base de dados científica e de partilhar esses dados pela comunidade científica. Provou também o valor imensurável da diplomacia para ter nações parceiras que comunicam entre si e se ajudam através de um fórum apropriado e mediador como é a Organização das Nações Unidas (ONU).  Ainda há muito a aprender, a Covid-19 ainda não terminou e temos que estar alerta, vacinar quem ainda não está vacinado e continuar a implementar as medidas de protecção individual.
 
E Angola?

A resposta de Angola à pandemia da Covid-19 foi decisiva e corajosa. Penso que não foi de todo fácil impor restrições e fechar o país, mas com certeza que protegeu a população e salvou vidas. Ajudou também a ganhar tempo e a criar espaço para criar as condições médicas para apoiar a população e também para organizar as campanhas de vacinação. Angola implementou uma boa estratégia para criar postos de vacinação, fazer com que as vacinas cheguem a quem precisa delas e para fornecer informação sobre a importância das vacinas e isso é muito impressionante.


A pandemia voltou a mostrar que África é sempre deixada para trás, quando o mundo se pretende proteger de um fenómeno. O que tem a dizer?
É uma boa questão. Eu não penso que África foi deixada para trás, eu penso que o mundo todo foi deixado para trás, porque ninguém sabia o que havia de fazer ou que direcção seguir. Houve sim muita partilha de informação que incluía África e não só e é importante ressaltar o contributo do continente africano. Os países africanos como a Africa do Sul, o Quénia, a Etiópia, o Senegal também tiveram decisões arrojadas e partilharam o seu conhecimento científico, que contribuiu para o debate mundial. Agora fala-se de se construir instalações de produção de vacinas em África para fornecer e produzir as vacinas para o continente. O mundo reconhece que África tem potencial para tal, então este foi um resultado positivo. Considero que é bom olharmos para África com base nas qualidades e desafios de cada país, pois cada país é diferente de outro, assim como olhamos para os países da Europa, da Ásia ou das Américas. Somos todos diferentes, cada um tem a sua própria identidade e temos que reconhecer isso em África também. Penso que este é o início do reconhecimento do que cada país africano tem para oferecer.


Não acha que a distribuição devia ser mais equitativa ou menos egoísta, da parte das nações poderosas?
A distribuição de vacinas é um assunto desafiante e o Reino Unido é defensor da distribuição equitativa de vacinas e fizemos este apelo em colaboração com a OMS, através das instalações de distribuição de vacinas da COVAX, na Cimeira do G7 pedimos aos líderes presentes para se comprometerem a disponibilizar mais vacinas e a distribuírem-nas mais rapidamente. Este não é apenas sobre proteger a nós mesmo, mas sim sobre proteger toda a população mundial, porque se não nos apoiarmos uns aos outros, não nos estamos a apoiar a nós próprios a travar esta pandemia. Ninguém está seguro até que estejamos todos seguros e não devemos deixar ninguém para trás.


Que lembranças leva de Angola?
Levo memórias de viver num período de mudança. A mudança que vi no país como resultado do que o Governo está a tentar alcançar, mudanças que eu vi nas pessoas que deixaram de ser tão recatadas e passaram a ser mais activas e com a vontade de debater temas pertinentes. Tenho que mencionar também as mudanças na minha própria Embaixada, pois mudamos as nossas prioridades, aumentamos o nosso engajamento com os diversos ministérios e departamentos do Governo, fizemos transformações físicas para mudar o nosso ambiente de trabalho. Penso que tudo isto foi uma experiência valorosa, que demonstra o que se pode atingir em apenas quatro anos de trabalho.


O que mais lhe agradou em Angola?

As pessoas, sem sombra de dúvida. Nunca conheci um angolano ou angolana que não é acolhedor ou é desagradável. São todos engajados, curiosos, dispostos a debater sobre temas interessantes, também conheci pessoas tímidas e com algumas incertezas e sempre tentei apoiar-lhes, permiti que se desen-
volvessem porque acredito que todas as ideias são válidas e todas as pessoas têm uma história para contar. Mas a alegria e a hospitalidade que recebi dos angolanos é contagiante, aconteceu até nas áreas mais remotas, rurais e carentes quando ia visitar os campos de desminagem. Quando chegava, as pessoas foram sempre acolhedoras, oferecem algo muito simbólico que até lhes pode fazer falta. Outra coisa que não me sairá da memória é a variedade paisagística e a natureza que existe em Angola, é simplesmente marcante. Só para ter uma noção, no jardim da Embaixada Britânica existe uma variedade de pássaros enorme, e isto é só uma pequena amostra da rica biodiversidade existente em Angola.



Que mensagem deixa à partida, de certeza para uma nova missão?
A mensagem que deixo para a população angolana é simples: tenham coragem e acreditem que podem fazer a diferença nas vossas próprias vidas a favor do vosso bem-estar. Essa diferença pode ser feita hoje nas vossas comunidades e dará frutos para os vossos filhos e para o vosso país amanhã. No Reino Unido temos um provérbio que diz: "Se não és bem-sucedido à primeira vez, tenta quantas vezes forem necessárias.” O que significa dizer:  não desista de si e dos seus sonhos, não tenha receio de aprender ou mudar, e acima de tudo não tenha medo de cometer erros. Às vezes cito o Reino Unido como exemplo, porque pode ser um bom país agora, mas cometeu muitos erros, especialmente durante a Revolução Industrial, mas aprendeu, melhorou e estabilizou-se. Então não se esqueçam que todas as pessoas, todas as sociedades aprendem com os erros e mudam. O importante é não repetir os erros. A mudança é sempre positiva, porque se não mudarmos não crescemos. Angola começou a mudar, então sejam a força da mudança e contribuam positivamente para a inovação. Continuem a mostrar ao mundo esta nova Angola, porque nós estamos ansiosos para saber e compreender mais sobre vocês.

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