Cultura

Jazz em Angola já teve dias melhores

Analtino Santos

Jornalista

O mundo celebrou, domingo, o Dia Internacional do Jazz. Angola há nove anos que se junta à efeméride global com a realização de concertos, palestras, exposições e lançamentos de livros

01/05/2022  Última atualização 07H55
© Fotografia por: DR

São vários os actores e as iniciativas em torno deste estilo musical que tem como berço o Congo Square, em New Orleans, EUA. Em Angola o movimento está concentrado na zona urbana de Luanda, com eventos esporádicos fora da mesma e pouca informação sobre o que acontece nas restantes províncias. Mas sabe-se que Benguela destaca-se com um espaço permanente e específico para o Jazz. 

Jazzing, coordenado pelo promotor Adão Guimarães, é  um dos projectos que tem apostado na realização de concertos de Jazz. Pelo Jazz in já passaram Filipe Mukenga, Carlitos Vieira Dias, Mário Gomes, dentre vários artistas. Totó ST esteve na última edição, enquanto Gabriel Tchiema será a próxima atracção.

Adriano Guimarães é de opinião que o Jazz deve ser divulgado com regularidade e não de forma esporádica. E definiu o Jazz in da seguinte forma: "não somos puristas, quem acompanha o projecto ao longo dos anos verifica que apostamos nas fusões”. Lamentou que há falta de apoios para os produtores, além de se queixar da formação: "não se dá importância à disciplina de educação musical no ensino de base e nos institutos médios e superiores, o que tem dificultado a promoção, divulgação e conhecimento da música em geral, e em particular do Jazz”.

"Quebramos barreiras, apostamos em jovens como Wilder Amaro e Mário Gomes; ao longo dos nossos concertos lançamos promessas e jovens instrumentistas que precisam de oportunidades. Também juntamos a música às artes plásticas e a outras vertentes artísticas. Não queremos apenas fazer entretenimento”.

O responsável do Jazz in finalizou da seguinte forma: "todos os dias são do Jazz e é chegado o momento de o levar para outras províncias”.

De Benguela falou à nossa reportagem Francisco Rangel, o mentor do Rasgado’s Jazz Club, que  está localizado na Baía Farta. "A província de Benguela é a única em Angola com um espaço onde o conceito de clube de Jazz e Blues está presente”, disse.

O promotor não programou actividades para o Dia Internacional do Jazz mas prometeu que o fará nas comemorações do Dia da Cidade de Benguela, a 28 de Maio. Nessa ocasião, garantiu, vai realizar um festival em que estarão em palco Pop Show, Afrikkanitha, Unekka, Dodó Miranda, Banda FM e o Trio Eléctrico de Benguela, assim como uma cantora sul-africana e um grupo moçambicano. 


Festival Internacional de Luanda 

Um marco na divulgação do Jazz em Angola foi, sem dúvidas, o Luanda Internacional Jazz Festival (LIJF), realizado pela última vez em 2013. Com quatro edições no cine Atlântico, o LIJF foi responsável pela vinda a Angola de estrelas mundiais entre finais de Julho e princípio de Agosto. A primeira edição aconteceu em 2009, numa iniciativa da Ritek, com António Cristovão no comando. 

Afastado da produção de eventos, António Cristóvão fez um balanço desse tempo: "conseguimos trazer mais de 150 artistas para o país. O nosso objectivo era colocar Angola na rota mundial (do Jazz), o que durante os quatro anos foi possível. Em parceira com o Festival de Cape Town levamos alguns angolanos para este prestigioso evento. Sendo o Jazz um estilo com origem africana, de certa forma, fizemos o regresso desta música ao continente”.

Nomes como McCoy Tyner,  George Benson, Manu Dibango, Dee Dee Bridgewater, Yellowjackets,  Abdullah Ibrahim, Sara Tavares, Rui Veloso, Ismael Ló, Cassandra Wilson, Jimmy Dludlu, Blick Bassy, Ivan Lins, Asa, Marcus Miller, Chuchu Valdez, e outros artistas de topo mundial estiveram em Luanda. Os nacionais Waldemar Bastos, Gabriel Tchiema, Totó ST, Kizua Gourgel, Sandra Cordeiro, Aline Frazão, João Oliveira, Dodó Miranda, Wyza, Filipe Mukenga, e outros, brilharam igualmente no LIJF.

Quanto a um eventual regresso do evento, António Cristovão foi cauteloso. "Não descartamos uma quinta edição e a continuidade do Luanda Internacional Jazz Festival. Internamente reunimos, mas os apoios e patrocinadores não conseguimos”.

Iniciativas várias

Depois da última edição do Luanda Internacional Festival de Jazz em 2013, nos dois anos seguintes aconteceu, na Baía de Luanda, o Jazzing, uma iniciativa da Showbizz, com propostas nacionais e estrangeiras.

O jornalista Moisés Luís, com a equipa da Mieze e o sucesso do programa radiofónico "Caminhos do Som”, ajudou a materializar o Beebop Jazz no Palanca. "Jazz no Kubiku” foi outro projecto, que, durante dois anos, animou os amantes do Jazz em pequenos espaços de Luanda e chegou a organizar dois festivais internacionais.

"Há Jazz no Camões” é um projecto de Jerónimo Belo, um dos mais mediatizados jazzlovers, sobretudo na divulgação e promoção de concertos. Com vários livros e textos publicados, Jerónimo Belo tem trazido a Angola artistas internacionais e organiza, há nove anos, eventos por ocasião do Dia Internacional do Jazz em parceria com a UNESCO.

O Goethe Institut Angola também tem realizado actividades jazzísticas, como por exemplo o projecto "Há Jazz no Museu”, que, no final do ano passado, produziu quatro concertos no Museu de Antropologia. Este ano a embaixada do Reino da Bélgica proporcionou actividades musicais com um trio de Jazz proveniente de Bruxelas, numa parceira com o Festival de Jazz do Cazenga.

Em Angola o Jazz Standard é pouco produzido. A maioria dos artistas e promotores divulga o Jazz Fusion e outras correntes mais contemporâneas. A Orquestra AngoJazz, o guitarrista Carlos Praia, a banda Ixi Rises, os artistas Afrikkanitha e Katiliana Capindiça são algumas excepções, com linguagens mais enraízadas.  

José Andrade Zan foi um dos pioneiros na divulgação do Jazz em Angola. Conhecido por muitos como artista plástico, morreu em 2015 em Lisboa. Começou como músico de Rock na década 60 do século passado no grupo "Os Electrónicos” e nos anos seguintes foi realizador de programas de Jazz até apostar, definitivamente, pelas artes plásticas.

Em Novembro de 2011 a UNESCO designou, oficialmente, o 30 de Abril como Dia Internacional do Jazz, para destacar o Jazz e a sua capacidade de unir pessoas em todo o mundo. O Dia Internacional do Jazz é presidido e liderado pela Diretora-Geral da UNESCO Audrey Azoulay e pelo lendário pianista e compositor Herbie Hancock, também embaixador da UNESCO para o Diálogo Intercultural e presidente do Instituto Herbie Hancock de Jazz.  Este Instituto é uma organização sem fins lucrativos, encarregue de planear, promover e produzir a celebração anual do Jazz.

O Dia Internacional do Jazz reúne comunidades, escolas, artistas, historiadores, académicos e entusiastas de Jazz em todo o mundo, para celebrar e aprender sobre o Jazz e suas raízes, futuro e impacto e sensibilizar para a necessidade de diálogo intercultural e de compreensão mútua; e para reforçar a cooperação e comunicação internacionais. Esta forma de arte é reconhecida pelo seu papel na promoção da paz, do diálogo entre as culturas, da diversidade, do respeito pelos direitos humanos, da igualdade e dignidade humana e da liberdade de expressão.

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