Entrevista

Jay Oliver: “Continuo a ser ‘mixeiro’ e cantor”

Ferraz Neto

Jornalista

Construir uma marca e vê-la amadurecer é um processo demorado e, por vezes, penoso. No caso de Jay Oliver, a sua ascensão e afirmação no mundo musical foi rápida, graças ao seu dinamismo. Muito antes de estrear-se como músico, o jovem empreendedor, natural do Bairro Mártires de Kifangondo, em Luanda, dedicou-se ao mundo dos negócios.

18/12/2022  Última atualização 05H00
© Fotografia por: Edições Novembro

Hoje, aos 31 anos, e em véspera de vender o seu terceiro trabalho discográfico, intitulado "Ébano”, Jay Oliver mostra-se preparado para conquistar os quatro cantos do mundo e admite que "para ser músico não é necessário estar dependente de uma produtora”. O jovem que um dia sonhou ser piloto de aviação esteve à conversa com o Caderno Fim-de-Semana. Falou-nos sobre a mudança que quer trazer à gestão musical angolana – com a criação de uma produtora, e da sua vida como business man (homem de negócios)

Como descobriu a paixão pela música?

Desde criança que o meu sonho era ser piloto de aviação. Nunca sonhei ser músico. Sou de uma família católica, e era durante as aulas de catequese que ouvia alguns colegas a cantar. Eles faziam parte do grupo coral da Paróquia São Francisco Xavier e participavam todos os domingos do coro que animava as missas dominicais. No regresso a casa, sentia-me bastante isolado, por conta dos amigos estarem a ensaiar ou a participar dos ensaios corais. Decidi participar também dos ensaios do grupo coral. Desde então, passei a gostar de música e canto. Aprendi a soltar um bocadinho a voz e passado algum tempo ganhei o gosto pelo canto e pela música. A minha paixão pela música foi se aprofundando cada vez mais, por conta do canal televisivo MTV. Aos 16 e 17 anos, passei a imitar alguns músicos americanos cujos vídeos eram transmitidos neste canal. Veja que não sabia falar inglês, mas passei a imitá-los como se soubesse falar a língua deles. Os vizinhos me ouviam constantemente e elogiavam-me. Desde então, passei a ter uma paixão pela música. Aos 18 anos, decidi inscrever-me numa escola de música para saber mais de canto. Cheguei a imitar Anselmo Ralph, Conde entre outros músicos. Aos 19 anos, gravei a minha primeira música em estúdio e aos 21 anos, lancei a minha primeira música oficial. De lá para cá, são mais de 25 milhões de visualizações desde o seu lançamento.

 

A família teve algum suporte na sua afirmação artística?

Veja que cresci com os meus avós e os meus tios. Os meus pais viajavam muito em busca de melhores condições de vida, mas tive a educação deles mesmo que à distância. Na verdade, os meus avós nunca apostaram na minha carreira artística, por não ser aquilo que eles sempre sonharam para mim. Mas aos poucos fui sendo apoiado na minha aposta na carreira artística. Como sabe, os nossos familiares sempre tiveram sonhos em relação ao nosso futuro e isso aconteceu comigo. Quando as coisas começaram a resultar em termos de afirmação, a família uniu-se para apostar na minha carreira artística. Como sabe, faço parte de uma família de músicos. Sou sobrinho dos músicos Dog Murras e Didi Murras. A partir do momento que comecei a me tornar conhecido no cenário musical, estes sempre estenderam a mão solidária.

 

Onde é que arranja inspiração? Vai para a rua, viaja, lê?

Comecei por me inspirar em músicos americanos cujos vídeos assistia no canal MTV. Entre estes o Chris Brown, Ne Yo e R. Kelly. Entre os angolanos tenho inspiração em Anselmo Ralph, Conde e outros nomes. Acabam por me influenciar muito porque tornamo-nos uma família, damo-nos mesmo muito bem. Tenho ainda outros.

 

Ao longo destes anos fez quantos trabalhos discográficos?

Três discos. O meu primeiro disco foi lançado em 2014 e o segundo em 2017. Antes do final do ano 2022, farei o lançamento do meu terceiro trabalho discográfico intitulado "Ébano”. São trabalhos discográficos lançados de forma independente, com o meu próprio esforço e sem o patrocínio de alguma instituição pública ou privada. No início da minha carreira bati algumas portas, mas infelizmente não fui bem-sucedido. Daí que parti para a minha autonomia financeira para poder materializar os meus projectos artísticos. Hoje, vejo que sou exemplo para aqueles músicos que sonham com uma carreira musical brilhante, mas que estão impossibilitados em dar sequência aos seus sonhos. Lutei e luto sozinho, diariamente, para que consiga ganhar espaço no mercado nacional e internacional. Ser cantor não significa que esteja ligado a uma produtora. Não é verdade!

 

Explica-nos melhor: de que forma é a sua autonomia financeira?

Desde muito cedo que me tornei independente financeiramente. Comecei a trabalhar com os meus 15 anos. Aos 15 anos já era motoboy, hoje moto-táxi. Fazia entrega de encomendas pelas diferentes partes de Luanda. Fui e ainda hoje sou uma figura que apoia pessoas que visitam o nosso país ou angolanos que residem no exterior e que estejam a precisar de ajuda em Angola. Por outro lado, nasci e cresci no bairro Mártires de Kifangondo, com muita agitação em termos de negócios, que te obriga a entrares no mundo dos negócios, desde que tenhas dom para tal. Compro motorizadas avariadas, recupero e volto a vender. Nisso vou buscar lucros. Cresci assim, neste meio com visão para o negócio. Os meus tios foram também as pessoas que me moldaram para o mundo do business, com a compra e venda de viaturas, como intermediário. Passei a tratar documentos de residências, viaturas ou mesmo constituição de empresas. Ajudei muitas pessoas a legalizarem as suas empresas com alvarás comerciais e até arranjei advogados para este ou aquele caso. Fui guardando as minhas economias e me tornei um indivíduo autossustentável financeiramente. Veja que aos 19 anos, tornei-me independente, com casa própria. Hoje em dia, sustento a minha actividade artística com as minhas "mixas”, que ganhei. Continuo a ser "mixeiro” e cantor ao mesmo tempo.

 

E as receitas que arrecada com os espectáculos? O que faz com elas?

A qualidade e a sonoridade que exijo nos meus trabalhos são bastante dispendiosas. Veja que já não lanço um disco há quatro anos, mas pelos discos vendidos já consegui recuperar o dinheiro que investi. Neste terceiro trabalho discográfico investi um valor superior aos demais e penso recuperar o dinheiro investido nos próximos anos. Neste disco, gastei muito dinheiro por conta da qualidade do vídeo, do som e de muita coisa que coloquei para que tenha a qualidade exigida pelo público. Neste álbum fiz um investimento que seria bastante benéfico para mim e para a minha família. Preferi me posicionar no mercado musical, por sentir a falta de um disco do Jay Oliver. Senti que estava ausente para os meus fãs.

 

O que é que a marca Ébano traz de novo à música nacional?

Sou um ambientalista, um amigo da natureza. Tenho o sonho de construir uma casa no meio da mata, uma fazenda com vários animais. Ébano é o nome de uma espécie de árvore, cuja madeira é bastante rija e difícil de partir. O Ébano é uma terceira obra, que alimenta o sonho de um terceiro filho biológico. A árvore Ébano faz parte da minha característica como pessoa. Sou uma pessoa persistente.

 

O que podemos esperar do seu novo trabalho discográfico?

É um disco acabado e muito bem trabalhado. Em termos de convidados neste disco tenho cinco. Veja que comparativamente aos dois primeiros discos, onde os meus convidados eram figuras desconhecidas, já neste trago nomes que são referência. No mundo da música, quando não és conhecido, dificilmente os músicos conhecidos aceitam participar do teu disco. Hoje, já sou mais conhecido musicalmente e trago como convidados a Liliana de Carvalho, que é uma figura conhecida em Portugal e em Angola. Aliás, é a esposa do ex-presidente do Sporting de Portugal, Bruno de Carvalho. O outro convidado trata-se de Luís Gomes, que é um músico e político português e o moçambicano Twenty Fingers. Entre os convidados constam ainda os músicos angolanos Plazza e 3 Finer.

 

O lançamento fica apenas por Angola?

Não! O disco será lançado em simultâneo em Angola e em Portugal, nas diferentes plataformas digitais.

 

Nunca se falou tanto sobre Jay Oliver em Portugal e Angola, por conta da sua participação no reality show Big Brother Portugal. Como surgiu o convite para o BB Portugal?

Resido há sensivelmente 8/9 anos em Portugal. Sou agenciado em Portugal e consegui o contrato para participar do BB. Sou um músico conhecido em Portugal, e graças à fama que carrego consegui ser aceite. Apesar de residir em Portugal nunca tive a oportunidade de privar numa casa fechada com cidadãos portugueses. Não foi algo mau, apesar de alguns dissabores. Sou uma pessoa muito humana e a experiência do BB não foi boa por haver um pendor psicológico muito forte. O Big Brother é um jogo para pessoas fortes em termos psicológicos e cheguei à conclusão que não tenho perfil para aquele tipo de jogo. As pessoas fazem de tudo para ganhar dinheiro, preciso ser eu mesmo. Não é por dinheiro que irei mudar a minha essência. No BB consegui conhecer o meu lado humano. Hoje, há concorrentes que estão a colher o mal, por terem uma conduta bastante errada em casa. Estão famosas e saíram manchadas em Portugal, até as portas estão fechadas.

 

O seu nome é associado constantemente a Bruno de Carvalho e à esposa Liliana de Carvalho. Há alguma parceria?

Não. Nós temos um compromisso de estarmos ligados na arte em alguns trabalhos que possamos fazer. Foi um acordo que tivemos aquando da nossa participação no Big Brother Portugal. Acordámos em fazer música, estamos a materializar estas ideias. Já gravámos uma música, que resultou na apresentação da Liliana no mercado angolano. Foi um dos primeiros projectos acordados. 

 

Que sonhos tem por concretizar, depois do lançamento do "Ébano”?

Apesar de ter os meus negócios, vivo também da música. As minhas "mixas” estão de saúde, mas é na música que pretendo apostar. O meu sonho é a criação de uma produtora cuja vocação será tratar o físico e o psicológico do artista. O meu maior sonho é fazer uma produtora diferente das actuais, com um pendor social. É necessário saber como estão os músicos, o que comeram, a saúde dos seus familiares directos e colocar o artista internacionalmente.

 

Que passos já foram dados para que isto seja uma realidade?

Olha o que faço para mim mesmo. Eu sou a minha produtora. Tenho três discos produzidos de forma independente. Isso prova a minha capacidade de ultrapassar os problemas de forma independente e prova também que posso ajudar outros músicos anónimos que precisam de ajuda. O meu sonho é conseguir artistas anónimos em Angola e internacionalizar os seus nomes. Veja que sou conhecido em Angola, Portugal e Moçambique. Tornei-me numa marca com o meu próprio esforço e sem o empurrão de instituições ou produtoras. Só isso me dá forças para apostar numa produtora de cariz social.


Perfil

Nome completo

José Carlos de Oliveira Martins

 Filiação:Carlos Fernandes de Jesus Martins e Maria Luísa de Oliveira

Data de nascimento: 23 de Junho de 1991

 Filhos:2

 Estado civil:Solteiro

 Profissão: Músico e sócio-gerente de uma agência em Portugal

 Cidade preferida: Luanda

 Defeito: Teimosia

 Virtude: Amar o próximo

Cor preferida: Preta

 Homossexualidade: Respeito a opção de cada um

 Poligamia: Não comento

 Sente-se realizado?: Ainda não

 Sonhos: Realizar espectáculos no Meo Arena e no Estádio dos Coqueiros

 Escritor: Não tenho preferências

Músicos: Chris Brown

 Passatempo: Ginásio

Prato preferido: Funji com kizaca e feijão de óleo de palma

Sabe cozinhar?: Não

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista