Entrevista

“Já vivi um pouco de tudo em televisão”

Ferraz Neto

Jornalista

Conhecida como “A Senhora da Televisão”, Patrícia Pacheco vive uma fase interessante da sua vida. Apresentadora da Zap Viva, tem a responsabilidade de “pilotar” o programa “Grandes Manhãs”. Com a simpatia que tanto a caracteriza, aos 50 anos de idade e com cerca de três décadas de carreira, Patrícia Pacheco revisitou gentilmente o seu percurso, desde os primórdios na RNA, em conversa com o Jornal de Angola

07/08/2022  Última atualização 07H10
Patrícia Pacheco © Fotografia por: DR

A sua caminhada jornalística tem ligação com a Rádio Nacional de Angola. Recorda-se do primeiro casting para a rádio?

Não fiz casting para entrar na Rádio Nacional. Quando eu tinha 9 anos os meus pais decidiram que eu viesse para Luanda. Eu não tinha amizades. Por isso, resolveram pôr-me a praticar ginástica no Petro Atlético de Luanda. Era da categoria ginástica rítmica. Eu e mais algumas crianças fomos escolhidas para acompanhar os cantores infantis no dia 1 de Junho, no espectáculo da Rádio Nacional. Na altura havia o Mamborró, o Joseca e o Maya Cool. Depois, convidaram-me para fazer parte dos meninos da Sala Piô. Durante um período do dia íamos para escola; no outro período íamos para a Sala Piô, onde fazíamos o trabalho de casa, lanchávamos e participávamos dos programas infantis "O Sol” e "Rádio Piô”. Foi assim que comecei na Rádio Nacional de Angola e a fazer rádio, a partir dos programas infantis.

 

Antes de fazer parte do programa Piô na Rádio Nacional, tinha outra preferências profissionais?

Comecei na rádio muito pequenina. Não me lembro de ter sido um sonho fazer rádio ou mesmo televisão. Tenho memória de que quando era bem nova gostava de fazer leitura e ouvir a minha voz gravada naqueles aparelhos que tinham a função "Gravar”. Já pensei em ser hospedeira. Também quis ser engenheira, inclusive fiz alguns anos da Faculdade de Engenharia, sem entretanto concluir. A vida preferiu levar-me para outros caminhos.

 

Quais os ensinamentos que o primeiro contacto com a rádio lhe trouxe?

A rádio trouxe-me muitos ensinamentos. Comecei muito pequena na RNA e consolidei a minha trajectória na Luanda Antena Comercial (LAC), primeira rádio privada de Angola. Foi um aprendizado constante. Quando íamos para a cabine fazer os programas e cometéssemos uma gralha ou fizéssemos alguma coisa errada, eu já sabia que íamos ter a directora Luísa Fançony à porta, para nos dar um puxão de orelha. Ela foi uma das pessoas que me ajudaram a tornar-me uma comunicadora. Ela sempre foi muito atenta, muito atenta ao que dizíamos e fazíamos. Ter feito rádio ensinou-me, acima de tudo, a conhecer as palavras e a saber comunicar. É um meio mágico, que nos desafia a sermos criativos e a pensarmos rápido, porque a rádio é intensidade.

 

A Patrícia Pacheco fez parte da evolução da rádio e da televisão… Quem são as suas maiores inspirações?

Sobre as minhas inspirações, não consigo dizer nomes. É óbvio que tenho comunicadores em Angola como fora de Angola que me prendem. Mas presto atenção a tudo e a todos. Quando estamos a comunicar podemos correr o risco de nos perdermos. Por isso, às vezes é preciso olhar não só para nós mesmos, mas para o outro e dizermos assim: quero seguir este caminho. Aprendo com os gurus, com os mais velhos, com os da minha faixa etária e até mesmo com os mais jovens cheios de talento e garra e com vontade de comunicar. Em resumo, seria injusta se dissesse um ou outro nome apenas, mas tenho sim grandes referências que inspiraram a minha carreira.

 

O facto da rádio ser novidade e de haver pouca oferta em termos de canais, ajudou a que conseguisse realizar muitos dos seus projectos? Se calhar, hoje em dia já não seria tão fácil…

Acho que não posso me queixar. Na altura, não havia tantas rádios como há hoje, assim como diferentes tipologias de meios de comunicação. Fiz programas infantis, juvenis e depois para mais adultos. Fiz parte da primeira rádio privada em Angola. Depois, entro para a TV. Penso que fiz tudo que podia ter feito na comunicação social.

 

Quais as áreas em que tem trabalhado desde que abraçou o jornalismo?

Ainda bem que me faz esta pergunta sobre ter abraçado o jornalismo. Faz-se alguma confusão entre um comunicador e um jornalista. Eu, como comunicadora e apresentadora de televisão não tenho as ferramentas que um jornalista tem. Alguém que tenha feito uma formação em jornalismo tem ferramentas que eu não tenho. Profissionalmente sou uma comunicadora, apresentadora de televisão e, no passado, uma radialista, mas não sou uma jornalista.

 

Como tem sido o seu percurso nos últimos anos?

Nos meus últimos anos tenho tido um percurso completamente virado ao entretenimento. O entretenimento é a minha praia. Acho que é no entretenimento que vou terminar a minha carreira como apresentadora de televisão. Gosto de programas que transformam vidas, que mexem com a vida das pessoas, como o "Unitel Estrelas ao Palco”, "Angola Encanta” e "Sou Angolano, Conheço Angola”. Gosto muito também de conduzir formatos que me permitam conversar com as pessoas. Isto é algo que nos últimos anos tem sido possível com o "Grandes Manhãs” e que me dá um prazer enorme. Crianças, adolescentes, jovens, ouvir as experiências dos kotas. Gosto também de falar de assuntos que parecem ser tão simples, mas que levam para quem está em casa mensagens poderosas, que ajudam as famílias a se tornarem mais coesas, mais amigas e mais companheiras. E, sim, estou apaixonada por este tipo de formato.

 

Já alguma vez se imaginou fora da televisão?

Não penso nisso. Se calhar é porque gosto muito do que faço. Tenho a sorte de trabalhar naquilo que gosto. Infelizmente, há muitas pessoas que estão empregadas, mas não no seu emprego dos sonhos. Não é o meu caso, felizmente. Estando eu com os meus 50 anos de vida, aprendi que cada dia é um dia e não há portas fechadas para nada.

 

Já fez muitas entrevistas… São muitas histórias, experiências, memórias por contar… Se fosse feito um filme sobre a Patrícia Pacheco, quais dessas histórias é que não podiam faltar?

Se fosse feito um filme sobre a minha trajectória, teria que ser um filme de acção, drama, romance e comédia. É que já vivi um pouco de tudo em televisão. Foram momentos espectaculares. Na rubrica "Vidas Com Histórias” conversei com pessoas com dificuldades enormes. Lembro-me de um menino de 20 anos que foi electrocutado e, em consequência disso, perdeu os dois braços. Tinha um semblante de alguém com medo do futuro, mas também com vontade de superação. No fundo, as minhas conversas apresentam pessoas com grandes dificuldades, mas também com uma incrível capacidade de ultrapassar as dificuldades e imprevistos da vida. Num dia dos namorados partilhei a história de um casal que está junto há mais de 60 anos e continuam apaixonados. São histórias que nos fazem olhar para a vida com outros olhos, com esperança sobretudo.

 

Como é que vê e se adaptou à evolução da rádio e da televisão?

Tenho tentado ao máximo, e de certa forma acho que tenho conseguido, me reinventar. A própria televisão onde comecei a minha trajectória há 20 anos mudou muito. A qualidade e a exigência hoje são outras. Houve uma altura em que só assistíamos um único canal de televisão. Hoje temos a oportunidade de ver vários canais nacionais e internacionais. Eu própria, enquanto telespectadora sou muito exigente. Tento cada vez mais perceber que televisão é equipa. Sim, sou um rosto, mas por trás existe uma equipa que procura dar o seu melhor para apresentar um bom produto. Sou daquelas pessoas que acredita em matemática. Por isso, mais com menos é menos. Portanto, o mais ou menos a mim não me satisfaz. Eu gosto de mais com mais. Gosto do bem feito. Quem trabalha em televisão tem que estar formatado para muitas vezes ter horário de entrada e não de saída, porque o resultado final tem que ser perfeito. 

 

Está a trabalhar num canal privado, o ZAP Viva. Fale da sua experiência profissional anterior noutros canais  de televisão? 

Sou filha de todos os canais de televisão de Angola. Comecei na Televisão Pública de Angola, depois fui para a Zimbo, na altura em que abriu. Éramos milhares de pessoas a fazer o casting. Fui bem sucedida e tive a felicidade de apresentar a primeira emissão em directo daquele canal. Estive lá durante muitos anos e foi bom. Agora estou no ZAP Viva, muito encantada e envolvida por este projecto que me desafia e com o qual me realizo todos os dias. Têm surgido propostas de trabalho em outros lugares. Só que gosto do que faço, deste grupo de trabalho, destes profissionais; é uma máquina que quer permanentemente fazer mais e melhor. Todas estas características me prendem, me motivam a continuar aqui. É aqui que eu estou bem!

 

O "Estrelas ao Palco” é um dos programas com as suas impressões digitais. Há lá espaço para todos?

O "Estrelas ao Palco” é um programa de televisão, é um projecto, é um filho que cresceu comigo. Por isso, tenho um carinho tão grande, tão especial pelo "Estrelas ao Palco”. Quando comecei a fazer esse programa estava no início da minha carreira na televisão. Aliás, foi para fazer o "Estrelas ao Palco” que entro para a televisão. Na altura eu fazia um programa na rádio LAC, que no segundo ano do concurso fez uma parceria com a TPA para fazermos o "Estrelas ao Palco”, que na altura era "Chuva de Estrelas”. Foi esta a porta para o Jorge [Gomes] e eu saltarmos para as telinhas. Portanto, é o início de todo meu trajecto na televisão. Tenho orgulho muito grande quando olho para vários nomes que hoje dão cartas e que passaram por este programa e que falam do programa neste formato com muito carinho. Sempre fomos muito exigentes, mas sempre tratamos e olhamos para cada um dos concorrentes como aquele sonho que podia começar ali e transformar-se numa realidade. Vem aí um novo "Estrelas ao Palco”, vamos voltar ao formato de imitação, o formato que apaixonou Angola e de certeza que vem aí uma nova estrela da música angolana, vem aí um grande vencedor e muitas outras estrelas. Porque cada edição do "Unitel Estrelas ao Palco” nos habituou a descobrir estrelas promissoras.

 

Após 30 anos de carreira, podemos dizer que a Patrícia Pacheco é uma boa ouvinte?

É uma pergunta um pouco ingrata de ser eu a responder. As pessoas que já estiveram nos programas em que estive, que já conversaram comigo no "Grandes Manhãs”, é que deveriam responder sobre eu ser ou não uma boa ouvinte. Ser uma boa ouvinte é uma das principais características de um bom comunicador. Um bom apresentador de televisão é como um mestre de cerimónias que recebe os convidados, deixa os convidados à vontade, coloca perguntas pertinentes para tirar dali boas respostas, mas que sobretudo é capaz de deixar os seus convidados brilhar, falar, conversar, interagir. Eu tento ser isso ao máximo. Espero que sim. Nestes meus anos de carreira tenho estado a ser uma boa ouvinte e continuarei a ser uma boa ouvinte.

 

Sei que não liga a estatutos, mas o que lhe deram estes 30 anos de carreira?

Estes anos de carreira deram-me algumas ferramentas que não tinha quando comecei.  Deram-me um outro olhar sobre algumas coisas. Deram-me também a certeza de que abracei a profissão certa, que é isso que quero fazer por muito tempo. Proporcionaram-me a bagagem que tenho a nível de tudo que já fiz. A cada dia que passa parece que a lista de pessoas com quem quero conversar ou que quero entrevistar vai ficando mais curta. Mas de repente aparecem outras pessoas com outras coisas para conversar e outra vez a lista fica enorme. A televisão, com todo o entretenimento, com todas as vertentes é e continuará a ser um meio de educação.

 

Qual o formato e novidades do "Grandes Manhãs” neste seu regresso, para corresponder às expectativas dos telespectadores?

Um formato diário, de segunda a sexta-feira, com coisas boas. Sempre com um toque para somar, trazendo algo novo na vida das pessoas, com muitas dicas que poderão ser úteis no dia-a-dia. E porque está a chegar o "Unitel Estrelas ao Palco”, deixo também um convite a todos aqueles que têm talento, que sabem imitar: está aí a oportunidade de brilharem neste concurso de descoberta de talentos.

 

A fama pode tornar-se num inimigo?

Talvez. A fama é o momento, é o que a exposição pública traz. Proporciona muitas coisas boas, tal como também proporciona muitas coisas más. Em parte, cabe a nós gerir a nossa exposição pública. A fama é claramente um pau de dois gumes. Felizmente, não me lembro de nenhuma coisa que tenha beliscado o meu nome. Sou muito acarinhada pelas pessoas, por isso penso que a fama tem sido muito simpática comigo.

 

Qual a melhor homenagem que lhe podem fazer?

Fico toda babada quando ouço falar bem das minhas filhas. Porque acho que é o nosso maior projecto de vida. É termos a sorte de criar boas pessoas, deixar boas sementes. A cereja no topo do bolo, com os meus 50 anos de vida, é a minha netinha, que é a coisa que me deixa mais babada mesmo. Acho que quando a nível pessoal não estamos bem não há nenhum ganho profissional que vai ocupar aquele espaço. Se em casa, no nosso íntimo, estivermos bem, é bem mais fácil agarrar os troncos.

 

Quem é mais "galinha”, o pai ou as filhas?

Tenho um bom fã clube em casa; meu marido, as minhas filhas, os meus irmãos, a minha mãe, bem como o meu falecido pai que adorava me ver na televisão. Aliás, a minha veia de comunicadora herdei do meu pai. Ele foi radialista durante muitos anos.  Minha mãe também fez rádio. Logo, esta minha veia de comunicadora é muito deles.

 

Qual delas "bebeu” mais do comportamento da mãe?

Acho que a minha mais nova. A Luana é mais como eu, tem redes sociais; a mais velha não tem. As duas têm um pouco de mim. Cada uma tem a sua forma de ser, mas no geral a mais nova puxou mais as minhas características.

 

E por trás de uma grande mulher está sempre um grande homem…

Este ditado vai ficando cada vez mais em desuso. Eu sou mais desta corrente: "Ao lado de uma grande mulher está um grande homem”; e "Ao lado de um grande homem está uma grande mulher”. Porque só juntos um casal vai mais longe.

Há um ditado que diz: "Se queres ir depressa vai sozinho, mas se queres ir longe vai acompanhado”. Quando algumas vezes me perguntam se existe algum segredo para manter uma união por muito tempo, respondo: "Não há segredo senão querer que dê certo, lutarem para que dê certo, porque não há pessoas perfeitas, somos imperfeitos à procura de melhorarmos; e juntos vamos mais além”.

 

Ainda tem muitas coisas por fazer? Quais?

Sim, tenho. No dia que olhar para o meu horizonte e reparar que não tenho mais coisas por que lutar e para conquistar… Ainda assim, não sou uma pessoa afoita no que às conquistas diz respeito. Sou muito tranquila neste aspecto. Quero alcançar objectivos mas de forma serena. Quero ver as minhas filhas felizes, realizadas. As minhas duas filhas já são formadas, e isso é daquelas conquistas que mais alegram os pais. Queria muito ser avó e já o sou. Que venham novos desafios e que eu seja capaz de ultrapassá-los. Seja como for, quando não consigo alcançar um objectivo não desespero. O que seria das vitórias se não houvessem as derrotas? Há sempre mais alguma coisa ao virar da esquina.

PERFIL

Nome completo: Patricia Liliana da Rocha Neto de Miranda Pacheco



Data de nascimento: 30.04.1972

 

Naturalidade: Sumbe , Kwanza-Sul

 

Filiação: Neto Miranda e Alcina Miranda

 

 

Estado civil: Casada

 

 

Nome do cônjuge: Mário Pacheco Júnior

 

Filhos: 2 filhas (Luana Pacheco e Maria Alcina Pacheco) 

 

Marca de perfume: Gosto de perfume mais fresco

 

Marca de roupa: Não sou de marca

 

Marca de sapatos: Calçados cômodos

 

Cor predilecta: Gosto de cores vivas

 

Defeito: Perfecionista, exigente

 

Prato preferido: Calulu de peixe seco com peixe fresco; cozido à portuguesa com todos; não gosto de bolo com créme;

gosto de bola de Berlim sem créme e de bolo caseiro

 

Local para férias: Cruzeiro de barco

 

Cidade predilecta: Não tenho

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