Sociedade

Isabel Matondo Garcia Sango: “A pressão do meu pai levou-me à escrita”

Rui Ramos

Jornalista

A jovem de Maquela do Zombo sofreu agressões verbais na escola, mas fez do infortúnio a sua força e escreveu sempre e as fez das palavras a sua própria vida

29/05/2022  Última atualização 10H45
© Fotografia por: DR

Isabel Matondo Garcia Sango, filha de Paulino Sango e de Sofia Garcia, nasceu no dia 28 de Novembro de 1996, em Maquela do Zombo, província do Uíge.

Em 1999, ela e a família mudam-se para Luanda, onde passaram a morar no bairro da Petrangol, em casa de um irmão, o Polo, que os acolheu até conseguirem independência financeira.

Ainda muito nova, seguia as manas à escola. Entrava na sala e ficava lá com elas, mas recordou que algumas vezes o professor expulsava-a, porque não tinha idade para assistir às aulas.

Quando começou a estudar, achou que tudo seria um mar-de-rosas. Mas, as coisas transformaram-se num mundo de tristeza e solidão. "Sofri graves agressões verbais (bullying) da parte de colegas e, até mesmo, de professores. Chamavam-me do Mato, langa daqui, langa dacolá, por conta da minha forma de falar”.

Isabel Matondo Garcia Sango lembra de ter o hábito de se sentar constantemente entre os mais velhos e eles falavam mais o kikongo que o português, o que teve influência no seu modo de se expressar.

"Nalgumas aulas, quando o professor questionava, eu escrevia secretamente a resposta num papelinho e dava a uma colega e esta levava a nota, embora a resposta fosse minha”, recordou.

Após a separação dos progenitores, o pai, Paulino Sango, tornou-se um homem solitário e triste. "Quando ele soube que eu transitava na escola, ao invés de me abraçar, aplicava-me três ‘correctivos’, na época, mortais: dizer diariamente, em síntese, tudo quanto aprendera, fazer cópias, porque eu tinha uma letra horrível, e ler em voz alta”.

Do dever de fazer cópias e leituras em voz alta, nasceu a paixão de Isabel Matondo Garcia Sango pelas letras. "Eu compunha músicas e escrevia histórias de amor nas quais os meus pais eram os protagonistas e eu dava-lhes um final feliz”.

Ainda insatisfeita, recordou, decidiu fazer da sua "fraqueza” o seu motivo de existência. "Eu só queria envolver-me em actividades que concentrassem um determinado número de pessoas e interagir com elas. Com isso, consegui o meu primeiro emprego como supervisora no Censo de 2014”.

Isabel supervisionava os recenseadores dos Mulenvos de Baixo. Eram pessoas mais velhas que ela, algumas já chefes de família, quando ela estava quase a completar os 18 anos.

Em 2015, Isabel Sango ingressa no Ensino Superior, ao frequentar o curso de Gestão e Administração de Empresas. No ano seguinte, colabora no MAPTSS, INEFOP e faz o curso de Formação de Formadores no CENFOR, durante seis meses, e uma formação de Atendimento ao Cliente, de dois meses.

Durante quatro anos, Isabel Matondo Garcia Sango leccionou o curso de Atendimento ao Público, no Centro de Formação do Talatona, no período pós-laboral. "Interagi com muitas pessoas (licenciados, pessoas que cursavam o ensino médio, trabalhadores) e foi uma experiência incrível, até chegar a pandemia, em 2020”, disse.

Durante esse período, a jovem teve de se reinventar e retomou o trabalho no blog pessoal, no Facebook "Isabel Sango Escritora”, onde conheceu o escritor português António José Alçada, que a seguia a partir dessa ferramenta. Este convidou-a a escreverem o livro "Vivências Paralelas”. Devido ao processo de revisão e edição pela editora, o lançamento apenas se efectuou no ano seguinte.

Em 2021, cursou Jornalismo. Graças a este curso, a convite do escritor Erineu Cambonga tornou-se a apresentadora das Lives da AJEA (Associação dos Jovens Escritores de Angola) e gestora de Marketing e Projecção dos artistas que compunham a instituição.

Quando a Associação deu passos mais altos, tornou-se sócia da Editora AJEA (Editora Artes dos Jovens Escritores de Angola).

Actualmente, integra Brigada Jovem de Literatura de Angola (BJLA), onde ocupa o cargo de delegada municipal do Cazenga. Quando questionada sobre a razão de não usar um pseudónimo, responde: "Tenho uma dívida para com o meu pai, devo-lhe o facto de hoje eu ser quem sou, e embora ele hoje não esteja em vida, uma das formas que vi de o perpetuar foi manter o meu sobrenome, para as pessoas me conhecerem pelo que sou; filha de Paulino Sango”.

Isabel Sango repete que hoje brinca com aquelas que eram as suas fraquezas; as Palavras. "Virei artista de banda e sempre que posso canto, declamo, pronuncio as palavras e escrevo-as. Sempre que me apetece considero-me uma artista”, explicou.

A jovem agradece os pais, a outros membros da família, amigos, colegas e professores, por terem dado tudo para que "eu fosse o que sou hoje, podendo sentar-me com os ‘grandes’ e falar com eles de tu para tu", gabou-se.

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