Opinião

Investir em Angola

Sousa Jamba

Jornalista

Cerca de dez anos atrás, assisti a uma grande conferência sobre investir em Angola, em Washington DC. Vários empresários, vindos de diversas partes do país, estavam em Washington.

30/07/2021  Última atualização 05H10
Fomos todos muito bem recebidos pela Doutora Maria Luísa Abrantes, na altura representante da agência de exportações e investimentos de Angola na capital norte-americana. Havia lá representantes de multinacionais do sector agrícola, bancário, saúde, etc. Será que aquela conferência teve resultados positivos? Se não for este o caso então deveremos culpar a falta de uma estratégia sólida sobre o futuro económico da nossa região.

Uma década depois, agora já no interior de Angola, penso naquela conferência e pergunto-me quais terão sido os resultados. Tem havido muitas conferências sobre as possibilidades de investir em Angola. Alguns meses atrás, apareceu por cá uma delegação de peso vinda do Reino Unido, também com muito interesse em investir em Angola. Os britânicos tinham saído da União Europeia e estavam, então, à procura de novos mercados.

No Ocidente, há alguns empresários prontos a investir em qualquer parte do mundo. Lembro-me, claramente, de momentos quando fiz reportagens no leste do Congo e Sul do Sudão, durante a guerra, que havia sempre empresários que viam oportunidades em locais improváveis. Um empresário israelita tornou-se bilionário na República Democrática  do Congo (RDC)com base na amizade que mantinha com figuras influentes do país. Ele comprava uma mina que depois revendia num instante; neste processo ele foi fazendo milhões. O povo da RDC quase que passou a ganhar nada dessas transacções.

Há investidores que devem ser evitados, por serem, essencialmente, mercenários; o que muitos países africanos precisam são investidores que se conseguem alinhar aos objectivos estratégicos dos países. Se os africanos não passarem a pensar, em todo o tempo, estrategicamente, então o resto do mundo vai sempre vir cá só para tirar vantagens.

Isto significa que nós, os africanos, temos que nos sentar e traçar uma estratégia colectiva para o desenvolvimento das nossas regiões. Durante a presidência de Thabo Mbeki, na África do Sul, falava-se muito do Renascimento Africano, e dava-se ênfase a vários planos económicos continentais.

Existe, no Botswana, a sede da SADC. Fala-se muito de uma união monetária da SADC, etc. Tem havido muitas conferências da SADC sobre a economia. Estou a escrever isto no Huambo, aqui no Planalto Central. Tecnicamente, é mais fácil eu sair daqui para ir a Helsínquia, capital da Finlândia, do que ir a Gaberone, capital do Botswana, por via terrestre. Se quiser ir a Gaberone de carro (todo-o-terreno, claro), terei que ir a Menongue e de lá entrar numa estrada péssima, que me vai levar mais de um dia, até à fronteira da Namíbia.

De lá, teria que aguentar mais uma outra longuíssima viagem até Gaberone. Se eu quiser ir a Lusaka, capital da Zâmbia, teria que viajar por mais de um dia numa péssima estrada entre Huambo e Luena. Lá, eu teria que pegar uma viatura para Lumbala Nguimbo e depois chegar à fronteira. Estas são localidades que, numa situação ideal, seriam atingidas por terra, numa questão de horas. Temos aqui uma grande falha no sector dos transportes regionais.

À tarde, muitos na minha vila natal de Katchiungo passam a vida a ver o comboio a vir do Luena a caminho do Lobito.  Recentemente, contei 37 vagões; isto é impressionante. Tecnicamente, este comboio poderia passar pela RDC, passar por toda a Zâmbia, passar pelo Zimbabwe e parar na África do Sul. Lembro-me de um programa na televisão britânica, apresentado pelo grande jornalista David Dimbleby, que falava sobre empresárias zambianas que faziam compras em Dar- es-Salam, Tanzânia, para vender os produtos na Zâmbia, RDC e até mesmo no Malawi. Estas senhoras já não fazem negócios porque os chineses montaram lojas no interior desses países e importam os bens directamente da China. A principal loja no Cuito Cuanavale, soube, é de um chinês. O que terá acontecido é que o trabalho daquelas senhoras nunca foi inserido numa estratégia nacional.

Conheço algumas pessoas aqui no Planalto Central que vão à Zâmbia com regularidade para comprar motobombas — lá custam cinquenta dólares; aqui no Bailundo custam setenta mil kwanzas, quase cem dólares. Essas mesmas pessoas vão à Zâmbia comprar cimento, que sai muito barato, porque há lá uma gigantesca fábrica de cimento. Isto significa que elevar a cooperação com a Zâmbia poderia resultar num avanço notável na agricultura familiar aqui no Planalto Central. Será que os economistas da SADC lá em Gaberone estão a pensar nisso? Descobri, recentemente, que há uma fábrica na Zâmbia que produz engenhos para irrigação que não precisam de qualquer combustível. Estes seriam ideais para muitas partes do rio Keve.

Não é apenas uma questão de conferências e inaugurações. Todos nós lembramos da inauguração do Aeroporto do Luau e dos discursos animadores que foram feitos. A Zâmbia tem várias linhas aéreas eficientes que poderiam voar de Lusaka até Luanda, fazendo escalas em várias localidades no Leste de Angola. Isto só seria possível se o debate sobre a integração regional envolvesse mesmo todos. Quando não nos sentamos para traçarmos uma estratégia eficaz sobre o nosso futuro, alguém vai traçar uma estratégia para que sirvamos os seus interesses!

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião