Cultura

Intervenção artística junta investigadores

O musicólogo e compositor angolano Víctor Gama apresenta, a partir de amanhã, no deserto do Namibe, o projecto “Tectonik: Tômbwa - Café Mito da Utopia”, que inclui uma exposição “pop-up”, um laboratório de pesquisa e a projecção de filmes, numa das ruínas das casas de cantoneiros, junto à estrada entre Moçâmedes e o município do Tômbwa.

29/06/2022  Última atualização 07H25
A iniciativa contempla a projecção de filmes numa das ruínas das casas de cantoneiros © Fotografia por: Dr

Produzido pela PangeiArt, o projecto tem várias dimensões, como antropológica, cultural e artística, inspirado na vida, obra e desaparecimento do antropólogo angolano Augusto Zita N’Gonguenho, morto na década de 1980, em consequência do conflito armado, na região Sul do país.

Iniciado em 2006, o projecto baseia-se nas notas fragmentadas do malogrado antropólogo Zita N’Gonguenho, que foram encontradas na África do Sul, no final dos anos 1990, e "pretende recuperar os seus conceitos, análises e arquivo”, esclarece Victor Gama, que está no Tômbwa, há mais de uma semana, com a escritora sul-africana Stacy Hardy, para a preparação da intervenção artística internacional.

O autor do projecto refere, ainda, que a pesquisa do antropólogo Zita, "Para uma antropologia da Utopia: formação de identidades utópicas”, é uma tese largamente referenciada no livro "Utopia”, do filósofo renascentista no Século XVI, Thomas Moore, de nacionalidade inglesa, e que Zita associou ao expansionismo colonial europeu.

Como argumentação, disse, usou exemplos do sistema administrativo português, e escolheu a estrada e as casas de cantoneiros, construídas na segunda metade do Século XX, como locais de pesquisa de campo. Victor Gama considera que a metodologia de pesquisa de Zita N’Gonhuenho, embora desconhecido pela população e  autoridades do Namibe, incluía métodos científicos, bem como antigos sistemas de adivinhação derivados da crença animista de que toda a matéria está imbuída de uma essência espiritual.

Durante um mês, o projecto vai servir como um local de pesquisa, para explorar e reencenar as ideias de Zita e metodologias de pesquisa radicais, afim de expor e contrariar modos dominantes de pensamento e prática colonial e pós-colonial, que produziram resultados catastróficos para o planeta e as suas espécies.

"Café Mito da Utopia” abre ao público no dia 1 de Julho, com uma exposição das notas do antropólogo Augusto Zita, poesia angolana, arte local e a projecção de documentários sobre o deserto, e vai servir como ponto de encontro entre artistas, poetas, músicos, pensadores, membros das comunidades locais e o público em geral.

O projecto conta com a colaboração da escritora sul-africana Stacy Hardy, da arquitecta  Paula Nascimento, do cineasta Kiluanje Liberdade e do realizador  Francisco Keth.

Além disso, para acompanhar o projecto e com um programa paralelo, um grupo de 16 investigadores internacionais, provenientes da África do Sul, estão a caminho da cidade de Ondjiva, no Cunene, com destino à cidade do Namibe. Organizado pela Universidade de Western Cape, na África do Sul, o grupo vai contribuir com palestras no Lubango, Moçâmedes e Tômbwa. Ainda no Lubango, os pesquisadores vão visitar algumas instituições de ensino e pesquisa, para interagir quer com professores e estudantes, quer com as autoridades do Governo Provincial da Huíla, com o intuito de se criar vínculos no domínio do intercâmbio científico e artístico.

Francisco Pedro | no Namibe

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