Opinião

Interesses desiguais

Luciano Rocha

Jornalista

Os interesses de minorias sobrepõe-se às das maiorias, como amiúde se comprova, tanto a nível interno, como externo e de tanto suceder chega a parecer normal esta divisão do todo em partes assimétricas.

05/05/2022  Última atualização 10H55

Aquelas diferenças, sublinhe-se para avivar memórias entretidas, não são naturais. Apenas impostas por interesses de uns quantos que os sobrepõem à lógica. A esmagadora maioria dos angolanos conhece, por experiência, essa realidade, que teve o auge, no tempo das "vacas gordas”, quando o país esteve à mercê de pequenas "elites”, esmagadoramente  constituídas por incapazes. Nem ricos, quanto mais milionários, sabiam ser.  As únicas particularidades que os diferençava dos restantes eram apego desmedido a dinheiros públicos, desvergonha, necessidade de ostentarem, de todas as formas, os resultados do que roubavam, em manifestações de novo-rico , que os traiu.

Os resultados das perversidades daquela cambada, que deixou o país à beira da banca rota, continuam à vista da maioria dos angolanos. Tão grave, porventura, mais ainda, do que a situação social que ela deixou, a reflectir retrocessos, são os exemplos das formas de pensar e estar que legaram. Esta pesada herança é bastante mais custosa de reverter do que se possa pensar.

Provas daquele legado maldito espalham-se entre nós como areia no deserto, com inúmeros seguidores da vida fácil a tentar seguir as pegadas dos que elegeram como ídolos e mestres. Alguns imitam-nos, conscientes do que fazem, na mediocridade, bajulice, pose, palavreado desconexo, coscuvilhice, intriga, distorção daquilo que vêm e ouvem. Outros, no entanto, fazem-no por apenas acharem que todas aquelas características  são correctas por serem as que sempre conheceram. Num e noutro caso, capazes de obediências cegas, sem questionarem ou interrogarem-se quanto às consequências  das atitudes que tomam. 

O mundo daquelas criaturas é de tal jeito circunscrito que sequer as detenções  de suspeitos de atentarem contra o erário  e condenações pelo mesmo crime os faz alterar comportamentos. Em certos casos  parece até que os refinam.

Os saques ao cofre público deixaram, bem à vista, feridas profundas na vida de muitos angolanos,  especialmente dos que sempre foram mais desfavorecidos. Recentemente, porém, também daqueles outros que, devido a uma série de circunstâncias, engrossaram aquele grupo. Mesmo os que se enquadram no segundo caso, a acção dos larápios de "colarinho branco” não lhes foi, nem é, alheia. Pois o Estado, ao contrário do que lhe compete, não conseguiu -  continua sem conseguir - prestar-lhes ajuda necessária.

 Os interesses de uma minoria - os salteadores do erário - relegaram, uma vez mais, para plano secundaríssimo os das maiorias. O facto origina mais um adiamento da consolidação da democracia plena em Angola, que não se compadece com fossos tão grandes a dividir os filhos dela em partes desiguais. 

Na Angola fraterna e justa, os filhos que ela nasceu ou adoptou, independentemente das opções políticas, cores partidárias, credos religiosos, mesmo a laicidade ou ateísmo pelos quais cada um opta, não podem ser prejudicados nos direitos que a Constituição lhes consagra, desde que cumpram os deveres a que estão obrigados estabelecidos no mesmo documento.

Mais do que elogios bacocos ou salamaleques, tão ao gosto de alguns, a critica fundamentada - não confundir com encomendada, nem interpretada como inimiga - pode contribuir para  a resolução de uma série de problemas que a sociedade angolana enfrenta.

Um comentário ou chamada de atenção, no momento oportuno, mesmo em questões que aparentemente  pareçam de somenos importância, podem valer mais do que discursos  empolgantes da boca para fora, amontoado de palavras desconexas.

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