Opinião

Intenções de voto

Apusindo Nhari

Jornalista

– «O descuido para com a necessidade de um diálogo alargado, permanente e bem estruturado, em busca do consenso sobre os caminhos que levem a um país de todos é, e sempre foi, a maior debilidade do processo político angolano».

07/08/2022  Última atualização 07H00

– «Que quer dizer com isso, kota Nando?» – pergunta o Marito.

– «Diz-me: lá no prédio onde vives na Maianga, os moradores conseguem concertar-se de forma a resolverem os problemas comuns?» – intervém a Tininha, vendo que Nando suspirara, como a cada vez que se aborda o tema – «No condomínio onde vivo, com facilidades sociais muito maiores do que a maioria, tão pouco nos entendemos...».

O também kota Basílio, decidiu ajudá-la: – «O que ele quer dizer é que foi faltando ao nosso país, desde a luta de libertação até ao presente, capacidade e talento para promover e cultivar diálogo assente no conhecimento das realidades. Sempre houve pessoas com capacidade e individualmente motivadas, até algumas iniciativas, mas a liderança quase sempre falhou com a sua responsabilidade. Será essa uma das causas de não termos hoje o país justo, e melhor para se viver, que poderíamos perfeitamente ter?».

A jovem estudante Luquene meteu-se logo:

– «Será que os partidos são como igrejas? O que vi durante a juventude vivida nestes meus anos 2000, é os dirigentes, quadros e militantes dos partidos, sobretudo dos principais, defenderem os interesses partidários acima de tudo... Ou acharem que as ideias e a vigência dos seus partidos (que nasceram num contexto específico, cultural e socialmente) são eternas e "as melhores” –as únicas válidas! – para o país… Como se de uma "responsabilidade divina” se tratasse. Eu acho que a lealdade deve ser para com o país, acima de tudo!».

– «Confesso que tocas num ponto sensível para mim» – diz o Tomé – «Sou e fui do partido que está no poder desde que nasci, e, concedo, que pouco reflecti sobre o assunto. Sou porque eram-no, e são-no, os meus pais e toda a minha família, e reconheço que já não pelo seu valor político e ideológico, mas com a mesma atitude dos adeptos de futebol para com as suas equipas "de coração”».

– «Na minha família só mesmo a nossa mãe resistiu estes anos todos a mudar de opinião, apesar de reconhecer que as coisas não estão bem. Parece que este ano vai mudar, doi-lhe a falta de futuro para os seus filhos e netos, e os jovens e geral» – aproveitou o Cali, que se orgulha de ter em casa um ambiente de discussão construtivo e são.

– «Eu é que não voto e nem apareço para ajudar» – a Delmara é fiel à sua maneira de ver as coisas – «A minha atitude é de protesto. E nem sequer vou meter um voto em branco».

– «Compreendo-te, Delmara. Eu também. A permanente repetição da desconfiança! Porque é o governo a organizar as eleições em vez de ser uma instância verdadeiramente independente? Lamento que em tantos anos de independência não tenhamos dado esse passo. Sinto-o como um grande falhanço nacional» – o Quim tem procurado ser optimista mas desconsegue, diante da flagrante falta de empenho em se organizar uma sociedade plural.

O Ngola e o Ossima decidiram ficar calados. Acham estranha toda a excitação propagandística e prometedeira no mês antes de eleições. Como se um cidadão consciente e informado fosse mudar de opinião pelo que lhe dizem neste período frenético. Consideram que foi ao longo de 5 anos, desde as eleições passadas que se pôde observar quem é quem e o que são capazes de fazer. Lamentam o quão insuficiente se falou ao longo dos anos das pessoas, de como vivem, de quais os caminhos de que dispõem para viver melhor e do que se podia/devia ter feito respeitar o seu direito a satisfazerem as necessidades básicas de vida, de as capacitar para torná-los cidadãos no pleno sentido da palavra.

Só deu para o Nando concluir:

– «Há muitas imperfeições neste processo eleitoral, estou de acordo, e não se pode fazer muitas melhorias agora a menos de um mês do dia do voto. Todas as vossas opiniões são válidas e discutíveis. Mas lá está o que eu dizia no início. Não tenho dúvidas que é indispensável que os dirigentes políticos e os líderes (ou mais bem "chefes” como gostam de ser chamados) sejam honestos e preocupados com o seu povo, conheçam a História, dela tirem ensinamentos e trabalhem arduamente para promover o diálogo com os adversários políticos e com a população. Para motivá-la, e fornecer-lhe os meios para pensar por si própria. Se disso não são capazes, porque quiseram ser políticos e dirigentes? As eleições não podem, como por um golpe de magia, mudar a postura de cada um. Agora é só mesmo espectáculo! Pensem no seguinte: as eleições só abrem caminho. Se os amanhã eleitos forem permanentemente escrutinados por quem os eleger, perceberão a prioridade de trabalhar para mudar o estado de coisas actual, que é demasiado assente na falta de conhecimento institucional, na facilidade, no supérfluo, na pretensa "excelência” e no demagógico. Apelo a que votemos todos. Alimentemos a esperança de que o nosso voto pode fazer a diferença».

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