Reportagem

Infecções hospitalares: ameaças mortais aos doentes

Alexa Sonhi

Jornalista

As infecções hospitalares são uma ameaça à sobrevivência dos pacientes. É a ideia que fica, depois de esclarecimentos de especialistas. O mal pode ser contraído em unidades de saúde públicas e privadas, assim como em residências e farmácias

14/09/2021  Última atualização 08H15
© Fotografia por: Vigas da Purificação| Edições Novembro
"Meu Deus! O João morreu! Mas de que então­­­, se ele parecia estável, depois da operação que sofreu na perna esquerda? Até falámos ao telefone. Ele disse-me que já se sentia bem melhor e que dentro de dias receberia alta. Mas foi mesmo só a perna que fracturou no acidente que o levou à morte”, questionou um amigo, ao ouvir de outro a notícia da morte de um colega. 

"Não foi só a perna!  Enquanto esteve internado, o João apanhou uma infecção hospitalar que complicou o seu estado de saúde. E, infelizmente, não conseguiram curar a infecção e  acabou por falecer num hospital de Luanda, onde estava internado desde o dia do acidente”, respondeu-lhe o amigo. 

Diferente do que muitos pensam, as infecções hospitalares não se contraem apenas nos hospitais públicos, nos quais, aparentemente, as condições não são as melhores. Até em unidades de saúde privadas, onde, supostamente, há melhores condições, também se pode contrair uma infecção gravíssima, que nos pode levar à morte.   

Segundo a especialista em infecciologia Maria das Dores Mateta, a infecção hospitalar, ou Infecção Associada aos Cuidados de Saúde (IACS), chega a ser mais perigosa do que a doença que causou o internamento do paciente, porque, nestes casos, as bactérias se tornam mais resistentes aos antibióticos administrados e a infecção pode causar a falência de vários órgãos. O paciente não resiste e acaba por morrer.  

Talvez tenha sido o que aconteceu a João Colele, que teve um acidente de viação grave na estrada nacional número 100, no mês passado, e esteve internado num dos hospitais privados de referência do país. 

João Colele foi submetido a uma cirurgia à perna esquerda, a seguir à qual dava sinais de recuperação. Porém, depois de alguns dias de internamento, os médicos ficaram preocupados com a inversão do quadro clínico do paciente, que passou apresentar febre muito alta, taquicardia (batimentos cardíacos muito altos) e hipertensão.

Os médicos tudo fizeram para tentar melhorar o seu quadro clínico, mas a infecção hospitalar que João contraiu dentro da unidade foi mais forte. Acabou por morrer, quase um mês depois de ter dado entrada ao hospital.

A infecciologista Maria das Dores Mateta explica que nem sempre a infecção hospitalar deve-se às más condições hospitalares ou à falta de cuidados dos profissionais de saúde. Muitas vezes, as infecções acontecem tendo em conta a vulnerabilidade do sistema imunológico do paciente.
"Os pacientes com comorbidades, como ser diabético, hipertenso, portador de VIH, pessoa que já teve câncer ou imunodepressiva, são mais propensos a contrair uma infecção hospitalar.

Ainda assim, a médica garante que existem pacientes que até podem entrar em contacto com os micro-organismos que causam as infecções hospitalares e saírem vivos desta situação. Porque, além da medicação, as suas próprias defesas, o organismo, ajudam a combater a infecção.  

Foi o caso de Patrícia António, que há cinco anos sofreu uma cesariana numa maternidade pública. Depois de dois dias de internamento, contraiu uma infecção hospitalar que quase lhe tirou a vida.
De acordo com Patrícia, a cesariana correu muito bem e, apesar das difíceis condições de acomodação, ela e a bebé também estavam bem.

"Mas, de repente, comecei a ter febres altas, calafrios, dores anormais na zona da cesariana. A ferida passou a deitar pus”, explica.
Como não percebia o que se passava, Patrícia perguntou ao médico o que lhe estava a acontecer. Foi, então, informada que tinha apanhado uma infecção hospitalar e que, por isso, tinha de voltar ao bloco operatório e a bebé ser enviada para casa, para ser cuidada por outra pessoa.  

"O meu sonho de ser mãe acabava de se tornar um grande pesadelo. Já no bloco operatório, a minha tensão subiu, fiz duas paragens cardíacas e fiquei em coma por quatro dias. Quando acordei, fui levada para outro hospital, onde consegui curar a infecção hospitalar”, relata.
Por conta da situação que teve, Patrícia diz que ficou traumatizada e, por isso, decidiu não ter mais filhos. Hoje, dedica todo o seu amor à única filha que neste ano lectivo entrou para a escola.

 Hospital Américo Boavida

13 por cento dos doentes são infectados


O director clínico do Hospital Américo Boavida, Cordeiro Alves, explicou que, de todos os pacientes que dão entrada nos cuidados intensivos, cerca de 13 por cento contraem infecção hospitalar. Logo, além das pessoas propensas, qualquer um está susceptível de apanhar uma infecção hospitalar.

"Por isso, a luta dos hospitais deve ser trabalhar para reduzir o número de contágios. E uma das maneiras de o fazer é criar a Comissão de Controlo de Infecção Hospitalar (CCIH). Esta comissão tem a missão de notificar as infecções, estabelecer protocolos para abordagem das infecções, racionalizar o uso de antibióticos e o tempo de internamento de cada paciente”, propõe. 

De acordo com Cordeiro Alves, quanto menos tempo o paciente ficar hospitalizado, menos hipóteses tem de desenvolver uma infecção hospitalar. Mas, a par disso, os tratamentos invasivos propiciam as infecções, tal como a respiração mecânica, intubação naso-traqueal, o uso da sonda a nível da bexiga, passagem de cateter, biópsias, endoscopias ou as cirurgias em si.

Na visão de Cordeiro Alves, a administração, sem critérios, de antibiótico de amplo espectro é outra das grandes causas de infecção hospitalar. Por isso, esses medicamentos devem ser devidamente prescritos por profissionais autorizados.


Tipos de infecções

Das endógenas às inter-hospitalares

Cordeiro Alves, director clínico do Hospital Américo Boavida, explica que as infecções relacionadas ao ambiente hospitalar podem ser Endógenas, em que a infecção é causada pela proliferação de microrganismos da própria pessoa, Exógena, em que a infecção é causada por um microrganismo que o paciente adquiriu através das mãos dos profissionais de saúde ou como consequência de procedimentos, medicamentos ou alimentos contaminados.

"Também há a infecção Cruzada, bastante comum quando existem vários pacientes na mesma enfermaria, e a infecção Inter-hospitalar, que são levadas de um hospital par o outro. Ou seja, a pessoa adquire a doença no hospital de onde recebeu alta, mas foi internada em outro”, esclareceu o médico.

Por isso, prosseguiu Cordeiro Alves, é importante que seja identificado o tipo de infecção hospitalar que o paciente adquiriu, para que a Comissão de Controle de Infecção possa traçar medidas de prevenção e controle de microrganismos no hospital, para se combater essas infecções.
O director clínico do hospital Américo Boavida explicou também que, para reduzir o nível de infecções, é preciso esterilizar muito bem todos os materiais que vão ser usados nas cirurgias. A água e os alimentos a serem usados dentro do hospital devem ser devidamente tratados e protegidos e se não forem comprados fora melhor ainda.

Outra grande arma para combater as infecções hospitalares é  a limpeza do próprio hospital. Deve ser feita por empresas especializadas em higiene hospitalar. Não basta apenas limpar. Deve ser rigorosamente fiscalizado para se diminuir o nível de infecções.


Garante  Infecciologista

Não se trata de negligência médica


A médica especializada em infecciologia Maria das Dores Mateta define a infecção hospitalar como sendo qualquer infecção adquirida enquanto a pessoa estiver internada numa unidade de saúde, podendo manifestar-se ainda durante o internamento ou após ter recebido alta médica, desde que a mesma seja relacionada com algum procedimento realizado no hospital.

De acordo com a infecciologista, as infecções hospitalares não são só contraídas dentro das grandes unidades hospitalares. Também podem ser apanhadas em farmácias, laboratórios ou em casa, desde que seja ligado a algum tratamento médico. 

A médica sublinhou que as infecções hospitalares constituem um grave problema de saúde pública a nível do mundo, porque, segundo a Organização Mundial da Saúde, (OMS), cerca de 1,4 milhões de pessoas são infectadas hospitalarmente a cada momento, sendo esta uma das principais causas de morbilidade e mortalidade entre pessoas submetidas a procedimentos clínicos.  

Maria das Dores Mateta disse que a taxa de infecções hospitalares ocorre tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. A diferença é que nos países desenvolvidos a taxa pode rondar de seis a sete por cento e nos países em desenvolvimento é de 10 por cento para cima.

A infecciologista frisou que a infecção hospitalar não se trata de negligencia médica, porque, por mais cuidado que se tenha, é quase inevitável não se registar um caso de infecção hospitalar, tendo em conta o próprio ambiente do hospital. 

E uma das principais formas de travar infecções hospitalares é a lavagem correcta e regular das mãos, pelos profissionais de saúde.
"Estamos sempre a pegar nos doentes e cada um tem a sua própria patologia. A nossa própria pele tem bactérias. Por isso, todo cuidado deve ser redobrado.


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