Reportagem

Incêndios continuam a fustigar Portugal

Portugal continental registava ontem, às 5h30, quatro fogos activos, sendo o do Sabugal, no distrito da Guarda, o que concentrava mais operacionais e meios, noticiou a agência Lusa, citando o site da Protecção Civil.

28/08/2022  Última atualização 11H13
© Fotografia por: DR

Àquela hora, no Sabugal, estavam 138 bombeiros, apoiados por 39 viaturas, a combater o fogo que deflagrou às 17h11 de sexta-feira, refere o site da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC).

O incêndio foi considerado "ocorrência importante" pela ANEPC, uma vez que já tem uma "duração superior a três horas" e "mais de 15 meios de protecção e socorro envolvidos".

Em fase de resolução, o site da ANEPC indicava, à mesma hora, dois fogos, com 22 operacionais e sete veículos, enquanto em conclusão 17 incêndios, que envolviam 465 operacionais e 138 meios terrestres.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) colocou, na sexta-feira, mais de 50 concelhos dos distritos de Braga, Vila Real, Bragança, Guarda, Viseu, Coimbra e Castelo Branco em perigo máximo de incêndio rural.

O IPMA colocou, também, vários concelhos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Vila Real, Bragança, Viseu, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Guarda, Santarém, Portalegre, Lisboa, Beja e Faro em perigo muito elevado e elevado de incêndio rural.

O perigo de incêndio rural vai manter-se elevado em algumas regiões do continente pelo menos até terça-feira, indicou o Instituto.

O perigo de incêndio, determinado pelo IPMA, tem cinco níveis, que vão de reduzido a máximo, e os cálculos são obtidos a partir da temperatura do ar, humidade relativa, velocidade do vento e quantidade de precipitação nas últimas 24 horas.


Bombeiros feridos continuam hospitalizados

Dois bombeiros, que sofreram ferimentos na sequência do combate aos incêndios florestais, ainda se encontram hospitalizados, revelou, na sexta-feira, a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP).

Num balanço, a LBP indicou que continua "a acompanhar o evoluir da situação clínica de cerca de três dezenas de bombeiros acidentados no combate aos fogos florestais".

Destes, nove "voltaram ao activo", 16 "continuam a convalescer no domicílio em diferentes fases de recuperação" e dois continuam "internados".

A LBP citou os nomes dos bombeiros que continuam hospitalizados: Gonçalo Coelho e Carla Rodrigues.

"Aos dois, em especial, e na generalidade, a todos os restantes bombeiros que ficaram feridos a LBP endereça um forte abraço solidário e o desejo de rápida recuperação".


Sabugal merece maiores atenções

Quatro incêndios estiveram, ontem, a lavrar em zonas rurais, sendo o de Casteleira, Sabugal, o que merece mais atenção, disse, à agência Lusa, fonte da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC).

O incêndio no concelho de Sabugal, distrito da Guarda, deflagrou na sexta-feira (17h11) e está a ser combatido por 155 operacionais, com recurso a 39 veículos e o apoio de quatro meios aéreos.

"O fogo está a aceder aos meios", afirmou a fonte, acrescentando que as chamas lavram com mais intensidade em algumas zonas de difícil acesso, onde actuam os meios aéreos. Não há habitações ou infra-estruturas em risco, de acordo com a mesma fonte. O site da ANEPC assinala um total de 221 incêndios em Portugal continental, 187 dos quais em curso, três em resolução e 31 em conclusão.

O combate às chamas envolve 1.357 operacionais, 425 veículos e seis meios aéreos.


Fogo de Casteleira combatido  por 191 operacionais

O incêndio que começou na sexta-feira, em Casteleiro, Sabugal, distrito da Guarda, continuava a ser, ao meio dia de ontem, considerado o mais importante pela Protecção Civil, envolvendo 191 operacionais, 51 veículos no terreno e dois helicópteros.

A informação publicada no site da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) às 12h00 indica que o incêndio continuava "em curso".

No total, registam-se 29 fogos rurais, que mobilizam 794 operacionais, 224 veículos no terreno e oito meios aéreos no combate às chamas.

Dois destes fogos estão em curso, sete em resolução e 20 em conclusão, de acordo com a terminologia adoptada pela ANEPC.

Em Vila Real, estão assinaladas oito ocorrências, com 369 operacionais, 109 veículos e dois meios aéreos.


ALERTA INVESTIGADORA
Medidas para travar erosão devem ser tomadas "antes das primeiras chuvas"

A erosão causada pelos incêndios pode provocar cheias rápidas e contaminação de massas de água, pelo que devem ser tomadas medidas mitigadoras antes das primeiras chuvas, adverte Ana Rita Lopes, investigadora da Universidade de Aveiro (UA).

A investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA, integrou a equipa que elaborou o mapa de risco de erosão para Portugal Continental - ferramenta para identificar áreas prioritárias para mitigação dos impactos dos incêndios na erosão do solo - conhecido em Março.

Meio ano volvido, e com mais de 100 mil hectares ardidos em Portugal desde o início do ano, Ana Lopes alerta que "a implementação atempada, idealmente antes das primeiras chuvas após época de incêndios, de medidas de mitigação de erosão, é determinante à conservação dos solos florestais e à diminuição dos seus impactos negativos".

Para a investigadora, a aplicação de medidas de mitigação "deve considerar as particularidades dos locais afectados, principalmente o declive, tipo de solo, e a envolvente ambiental e populacional".

Essas medidas têm como principal objectivo a estabilização do solo, quer seja pela redução do impacto das gotas de chuva como pela diminuição da velocidade da sua escorrência ao longo das encostas.

De acordo com a investigadora, as medidas podem ser "bastante diversas" consoante os locais, como a aplicação de um acolchoado de resíduos orgânicos protector ('mulching'), barreiras de troncos a diferentes altitudes e sementeira, em conjunto com "práticas adequadas do ponto de vista fitossanitário e de mobilização do solo".

Quanto aos impactos dos incêndios, Ana Lopes diz que são diversos e interligados: "localmente, a primeira coisa que vemos é a destruição da vegetação que intercepta e protege o solo do impacto directo das gotas de chuva".

"Ao desaparecimento do coberto vegetal juntam-se as temperaturas geradas durante o incêndio, que promovem a alteração das propriedades biofísicas do solo, nomeadamente a redução da estabilidade dos agregados dos solos e diminuição da porosidade, e promove condições de repelência do solo à água, entre outras. Tudo isto dificulta a infiltração da água", explica.

A água que deixa de se infiltrar escorre e ao escorrer leva consigo cinzas, sedimentos, nutrientes e matéria orgânica.

"Estes impactos negativos locais podem reflectir-se na envolvente, por exemplo na possibilidade de: contaminação de massas de água a jusante, cheias rápidas, com arrastamento de sedimentos com capacidade destrutiva de bens e infra-estruturas, redução da capacidade de armazenamento de carbono, perda de fertilidade e redução de produtividade florestal", acrescenta.

Para permitir "um diagnóstico rápido das áreas em maior risco e uma actuação eficiente no imediato", a equipa entregou ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) um mapa de risco de erosão do solo "para as áreas vegetadas mais propensas à ocorrência de incêndios em Portugal continental (eucalipto, pinheiro e matagal)".

Esse mapa foi revisto e validado com dados locais recolhidos em 10 locais de estudo em condições pós-incêndio, que foram monitorizados por investigadores ao longo de 12 anos.

"Acreditamos que este mapa pode ser uma ferramenta de grande utilidade para as partes interessadas, desde os gestores florestais aos decisores políticos, no processo de tomada de decisão após incêndio em Portugal continental, uma vez que permite colmatar algumas das lacunas identificadas neste contexto (áreas críticas de intervenção, de maior risco de erosão do solo), e definir a tempo as medidas de estabilização de emergência mais adequadas, com possível diminuição de prejuízos económicos e ambientais", explicou.

Segundo o documento, em condições de elevada severidade do incêndio, a zona Centro-Norte do país revela um risco muito elevado de erosão do solo pós-incêndio.

A região Centro-Norte do país também é "uma das zonas com maior recorrência de incêndios e, ao mesmo tempo, providencia serviços de ecossistemas importantes para o país, inclusive serviços ligados à quantidade e qualidade da água para fins de consumo humano, sublinhando a importância de uma gestão de fogos rurais que integra a prevenção, o combate e o restauro pós-fogo".

Os dados provisórios, até ao dia 23 deste mês, obtidos com base no Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais (SGIF), registam que arderam 103.332 hectares, 51% de povoamentos florestais, 39% de matos e 10% de área de agricultura.


 MINISTRA PORTUGUESA DA COESÃO TERRITORIAL
"Calamidade na Serra da Estrela não prejudica outros territórios"

A ministra portuguesa da Coesão Territorial disse, sexta-feira, à Lusa, que a declaração de calamidade na Serra da Estrela não prejudica o apoio a outros territórios do país afectados pelos fogos, que podem aceder às mesmas medidas.

"Para qualquer pessoa que conheça o Parque Natural da Serra da Estrela e que tenha ido lá depois dos incêndios, passa a ser óbvio porque é que tinha de ser declarado estado de calamidade", afirmou Ana Abrunhosa, frisando que isso não impede que outros territórios beneficiem das mesmas medidas.

Segundo a governante, que falava à Lusa à margem da apresentação de um pólo tecnológico dedicado às energias renováveis, em Portimão (Faro), apesar de não ter sido declarada situação de calamidade noutras zonas do país afectadas por fogos, isso não significa que não tenham os mesmos apoios.

"Isso não impede, como eu já disse, que os municípios que, em 2022, tiveram 4.500 hectares ardidos ou 10% do seu território ardido não tenham acesso às mesmas medidas", sublinhou, acrescentando que o levantamento já está a ser feito.

Entre as medidas de apoio às zonas afectadas pelos fogos florestais, conta-se a reposição do potencial produtivo, o apoio à estabilização dos solos, repovoamento de árvores e espécies animais, apoio à actividade económica e substituição do equipamento público afectado pelo fogo, enumerou.

De acordo com Ana Abrunhosa, a declaração de calamidade na Serra da Estrela justifica-se pelas características do parque e de todo aquele território, além da dimensão e do impacto do incêndio, já que 50% do concelho de Manteigas e mais de 20% do concelho da Guarda arderam.

Além de, segundo a ministra da Coesão Territorial, ter ardido um quarto do território daquele parque natural -- onde em algumas áreas há riscos para a biodiversidade -- trata-se de um parque que foi declarado Património da Humanidade pela UNESCO.

"Pela sua extensão, pelo impacto do incêndio do território, pelas características em termos de biodiversidade, em termos de património da humanidade que este parque natural representa levou-nos a declarar o estado de calamidade durante um ano", resumiu Ana Abrunhosa.

A ministra disse ainda considerar que qualquer cidadão "compreende bem" porque foi declarada calamidade para o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), "sem prejudicar" outros locais que também sofreram com incêndios em termos das medidas a adoptar. O Governo aprovou, na quinta-feira, a declaração de situação de calamidade por um ano para o PNSE, afectado desde Julho por fogos, conforme pedido pelos autarcas dos territórios atingidos.

Na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do Conselho de Ministros a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, anunciou ainda que o levantamento dos danos e prejuízos causados por estes incêndios será feito no prazo de 15 dias, num processo que se alargará aos outros municípios do país onde tenham ardido "mais de 4.500 hectares ou 10% da sua área", em 2022.

Na segunda-feira, o Governo reuniu-se com os presidentes das Câmaras abrangidos pelo PNSE - Manteigas, Celorico da Beira, Covilhã, Guarda, Gouveia e Seia - e ainda com o de Belmonte - também presente por ter sido atingido pelas chamas - com o objectivo de aferir os prejuízos causados e "estabelecer as medidas necessárias de apoio".

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) considerou o incêndio da serra da Estrela como o mais extenso até agora registado desde o de Pedrógão Grande, em 2017.

O fogo teve início em 6 de Agosto, em Garrocho (Covilhã) e durante 11 dias lavrou na Estrela, estendendo-se aos concelhos de Manteigas, Gouveia, Guarda, Celorico da Beira e Belmonte.

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