Opinião

In(justiça) por mãos próprias

Edna Cauxeiro

Domingo, 24 de Outubro do ano vinte, vinte e um. Doze minutos impediam a hora cinco de chegar às seis da matina.

31/10/2021  Última atualização 09H35
Pela janela do quarto, era possível visualizar a madrugada perder a batalha e ser expulsa pelo dia. "Gatuno, gatuno, socorro, gatunooooooooo, socorrooooooooo…”.
Duas vozes femininas davam vida a uma gritaria que arrancou as réstias de sonolência que ainda envolviam a cronista. Esta pulou, assustada, do leito. Confusa, olhou para o relógio e constatou que sequer era oficialmente dia.


Os gritos continuavam. Abriu a janela. "Gatuno!”, acusava uma senhora. "Não é sou eu”, respondia um menino franzino, com cerca de 11/12 anos. "Socorro!”, gritava outra senhora, para atrair gente. "Madrinha, me viste mesmo que é sou eu que roubei?”, perguntava o menino. "Me larga, não é sou eu. Acordei agora, dormi no chão, atrás do prédio”, apelava o petiz.  Vários seguranças foram socorrer as senhoras que, afinal, percebeu a cronista, não estavam a ser assaltadas. Ambas arrastavam, literalmente, o menino para uma esquadra.


"Mostra onde puseste o que roubaste”, exigiu um segurança. "Não é sou eu”, insistia o menino. O segurança, sem rodeios, aplicou uma rasteira no acusado e deu início a um desfile de porretes no corpo da criança. A cronista contou: "um, dois, três, quatro, cinco, seis…dez”. O menino, gritando de dor, insistia: "não é sou eu. Não me bate, kota”. Estendido no chão, depois das porretadas, mal conseguia colocar-se de pé. Deve ter sentido no corpo o equivalente a dez descargas eléctricas. Pensou a autora do texto. Pelo menos é o que ouvia na infância.


O "purete” dá esticão. Dizia quem já foi vítima desse instrumento de punição, geralmente usado por polícias ou seguranças, estes últimos, que a voz popular baptizou de "operativos”.
Pouco se importando com o estado do menino, outro segurança deu início a uma nova maneira de tortura no pequeno: um, dois, três bicos. Um jovem traunseunte acrescentou mais três.


As duas supostas vítimas de furto permaneciam impávidas e serenas diante dos maus tratos a que a criança era submetida. "Vão matar o miúdo. Levem-no à esquadra mais próxima”, gritou a autora dessas linhas, já completamente desperta e revoltada com a situação. O barulho tirou, igualmente, da cama, outros moradores dos prédios ao redor. Várias janelas se abriram, inibindo o grupo de adultos inconscientes e irresponsáveis de dar continuidade à tortura à criança.  
                        
       
Como que, despertos do transe em que pareciam estar, os algozes cessaram a malfeitoria. Dois deles obrigaram o menino a levantar-se,  cambaleando, para continuar a ser arrastado pelas duas acusadoras, a uma esquadra. Mal conseguia caminhar. A sua camisola, furada, foi completamente alargada por uma das senhoras, que o transportava com a gola da roupa enrolada à sua mão direita, enquanto a sua cúmplice na acusação sem provas alargava a parte da cintura da camisola do menino, enrolada à sua mão esquerda.


Sociedade doente, pensou a espectadora. Como podem duas mulheres, provavelmente mães, permitir que uma criança seja violentada dessa maneira? Onde estarão os pais desse pobre menino indefeso? Ladrão ou não, não merece ser torturado e muito menos  morto por cidadãos supostamente honestos, mas que não se coibiram de agredir um petiz, correndo o risco de se tornarem co-autores de um homicídio.


Uma verdadeira (in)justiça por mãos próprias, muito usual, nos últimos tempos, na nossa sociedade. Embora constitua crime, a agressão a supostos marginais tornou-se quase legítima, na visão de cidadãos angolanos, aparentemente sãos. Chegam a matar o acusado, por vezes inocente, de porrada. Uma atitude que deixa a descoberto  os problemas mentais que muitos "estão com eles”.          
        

 
Torturar animais e/ou pessoas, sobretudo crianças, sem sentir dó nem piedade é, no mínimo, doentio.  Só desejo que, na ausência dos pais do menino agredido, o Pai de todos os pais, mães e filhos, aquele a quem uns chamam Deus, outros Jeová, Rei da Glória, Senhor, Altíssimo, Soberano, entre outros nomes sagrados, proteja o pequeno.



"Estou de regresso à vida / vida / vida… / sei que estava inocente / inocente…/ oh, estava /ficava / jurava / era Inocente”.
Cantou Paulo Flores, o ti Paulito, naquele dia, há muito tempo.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião