Opinião

Implementação de estratégias

Sousa Jamba

Jornalista

O Aqui na Zâmbia, já há quem esteja a cobrar ao Presidente Hakainde Hichilema as promessas feitas durante a campanha eleitoral para as eleições de Agosto do ano passado. Os apoiantes do Presidente estão a insistir que é preciso dar algum tempo, mas os seus adversários dizem que esta será a História de sempre — do candidato que promete tanto e no fim nem realiza metade das suas promessas.

28/01/2022  Última atualização 06H50
Tudo leva a crer que Hichilema vai evitar os erros de sempre. O Presidente zambiano foi um empresário de renome, antes de vir para a política, e com credenciais académicos invejáveis: licenciatura em Economia pela Universidade da Zâmbia e Mestrado em Economia pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido. Depois disso, trabalhou por alguns anos para a multinacional de consultoria Grant Thornton. Hakainde Hichilema é, certamente, alguém habituado a traçar e a implementar estratégias.

Actualmente, tem havido muitas críticas de alguns membros do partido de Hichilema que se sentem abandonados. Dizem que foram eles que fizeram a campanha, mas as nomeações (para funções próximas do Chefe do Estado) estão a ir para indivíduos que nunca pertenceram ao partido — e em certos casos até figuras que passaram décadas na Diáspora. Os activistas que andaram nos bairros a insistir que o povo deveria votar em Hichilema querem ser diplomatas ou grandes chefes em empresas estatais.

Algo notável nos colaboradores de Hichilema é que são jovens vindos do sector privado — incluindo multinacionais. Isto é um indicativo de que o Presidente zambiano pretende ver, a todo custo, a implementação das suas estratégias. Mas afinal quais têm sido os erros dos outros?

O primeiro grande erro que tem feito que as estratégias não sejam implementadas é a falta de clareza. O líder  fala da sua visão — que quer ver mais crianças nas escolas,  mais médicos e medicamentos nos hospitais; mais estradas, etc. Raramente se fala da proveniência dos fundos, os líderes deixam-se levar também pela retórica. Ao fim do dia tem que haver alguém com a capacidade de implementação.

Quando o Presidente Barack Obama foi à Casa Branca, em 2009, ele levou consigo Rahm Emmanuel para ser o seu Chefe de Gabinete . Rahm Emmanuel era alguém que tinha a reputação de ser muito capaz de fazer as coisas andarem. Nem todos, claro, gostavam de Rahm Emmanuel, que tinha sido várias vezes na vida: banqueiro, militar e organizador de levantamento de fundos para causas políticas. Uma vez na Casa Branca, Rahm Emanuel fez tudo para a implementação das promessas eleitorais.

Quando a estratégia é transmitida com clareza para todos numa organização, é mais fácil a sua implementação. Muitas organizações têm uma cultura organizacional; as pessoas passam a vida a fazer as coisas de uma forma porque as mesmas sempre foram feitas assim. Vários sectores do aparelho estatal, em várias partes do mundo, sofrem deste problema. Em certos casos há mesmo muita resistência à mudança.

O Presidente Hakainde Hichilema, por exemplo, vai insistindo que não há necessidade dos directores dos departamentos terem viaturas caríssimas — que isso só resultava em custos que são injustificáveis. Nem todos chefes gostaram disso; há quem vai para a Função Pública esperando o privilégio de possuir uma viatura que não está ao alcance de muitos. É preciso, então, ter protocolos para garantir que a mensagem seja que o aparelho do Estado agora vai servir para se implementar determinada estratégia.

Uma outra falha na implementação de estratégias têm sido a falta de uma noção de metas a alcançar no curto prazo. Os operadores vindos do sector privado são muito bons na implementação de estratégias porque eles trabalham muito no gerenciamento de projectos. Existe a estratégia de longo prazo — mas para chegar lá é preciso implementar vários projectos. Isto significa a identificação de recursos financeiros assim como humanos, clarificação de tarefas e um cronograma de implementação ao qual se deve aderir seriamente. Isto não é fácil muitas das vezes por causa das guerras de competências; o director A fica completamente furioso porque não foi consultado na implementação do projecto B, então até pode fazer tudo para sabotar o mesmo.

Para nós com muito interesse no futebol africano, está mais do que claro que as nossas equipas não avançam porque o Ministério dos Desportos puxa para um lado enquanto a associação nacional de futebol puxa para outro lado. O líder gasta muito tempo a tentar conciliar as contradições internas do seu Governo do que ajudar na implementação dos programas. No sector privado existe a questão dos imprevistos; os mestres da implementação  de estratégias são muito bons em improvisar para garantir que se tenha sempre em vista o farol.

Depois há também a questão da concentração ou foco; o Presidente zambiano vai ter que desistir de muitas distracções. Há insultos que ele deve ignorar; em 2026, o eleitorado zambiano, cada vez mais sofisticado, virá com planilhas para conferir o que foi implementado e o que não passaram de discursos eleitorais…

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