Reportagem

Igrejas em Cabinda contribuíram no processo da Independência Nacional

Alberto Coelho | Cabinda

Jornalista

“As Igrejas Católica e Evangélica em Cabinda, duas instituições que, na era colonial, mais evidenciaram a expressão religiosa cristã no seio das populações, deram um contributo importante no processo de luta para a Independência Nacional.

25/11/2021  Última atualização 09H10
© Fotografia por: DR
O pastor evangélico Pedro Puati Dias disse, ao Jornal de Angola, que muitos padres e pastores se envolveram  intensamente no apoio a grupos e indivíduos que tiveram o pensamento de se organizarem para formar os movimentos de libertação nacional.

Segundo o religioso, muitos guerrilheiros que transitaram, naquela altura, para o ex-Zaíre e Congo Brazzaville para integrarem as fileiras dos movimentos de libertação passaram por Cabinda e foram apoiados por missionários da Igreja Evangélica local.

Como se processava a fuga dos angolanos para os movimentos de libertação? Pedro Dias explica: "De Luanda vinham de barco, integrados em grupos, como coristas da Igreja. Em Cabinda, os missionários tinham a missão de os transportar para o interior e, depois, transpô-los para o outro lado da fronteira".

Segundo o pastor Pedro Dias, essa missão era um acto arriscado, na medida em que vários missionários eram perseguidos pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado que, entre 1945 e 1969, foi responsável pela repressão de todas as formas de oposição ao regime político vigente na altura). Ainda assim, arriscavam ir à prisão e até a própria vida, para apoiar os movimentos que lutavam pela Independência Nacional.

"Através do enquadramento de professores nas escolas missionárias evangélicas, a PIDE conseguiu infiltrar agentes secretos que faziam o trabalho secreto de informação”, explicou, para acrescentar: "tivemos um professor, dentro da missão evangélica, que chegou a ser director da escola, que era um agente da PIDE e fazia denúncias sobre o trabalho dos missionários, bem como sobre os jovens que ingressavam nos movimentos de libertação e os motivos que levaram à fuga do reverendo Zacarias Mendes Café, para o ex-Zaíre”.

O apoio aos movimentos de libertação levou à perseguição da igreja pela PIDE, sobretudo os missionários americanos e europeus não portugueses. O pastor Pedro Dias explicou que, devido às revoluções registadas em 1961, com o surgimento dos movimentos de libertação de Angola, a PIDE começou a perseguir os religiosos estrangeiros que se encontravam nas missões evangélicas em Cabinda, Zaire e parte da região do Bengo, que apoiavam o processo de independência de Angola.

"Sentindo-se ameaçados, estes missionários tiveram que abandonar o país e colocar a responsabilidade da Igreja à disposição dos próprios angolanos", explicou o pastor Pedro Dias, sublinhando que, a par de Alfredo da Silva Buza, o pastor Zacarias Mendes Café foi das principais vítimas da perseguição da PIDE no seio da Igreja Evangélica em Cabinda, já que a filha, Maria Mambo Café, tinha ingressado, com um grupo de jovens, nas fileiras do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Com a retirada dos missionários estrangeiros, explicou Pedro Dias, era arriscado o pastor Zacarias Mendes Café permanecer em Cabinda. Por decisão consensual da Igreja, refugiou-se no então Congo Belga (RDC).
A primeira Igreja 
A primeira Missão da Igreja Evangélica de Angola (IEA), em Cabinda, foi criada nos anos de 1800 pelo reverendo inglês Mateus Zacarias Stober, depois de este migrar do Nzeto para esta região. Em Cabinda, Mateus Stober comprou uma fazenda de café, com uma vasta extensão de território que pertencia a holandeses, onde implantou a primeira igreja, hoje alberga a Paróquia de Tendenquele, sede regional do Ngoio.
Segundo o pastor Pedro Puati Dias, a fundação da Igreja Evangélica de Angola baseou-se na instalação de quatro missões: Nzeto, Quimponde, Cabinda e Mboca. Esta última, foi herdada de missionários evangélicos franceses, no quadro da divisão de África, na Conferência de Berlim.
Primeiros missionários 
Os primeiros missionários evangélicos nativos, nomeadamente Zacarias Mendes Café, Filipe Mangovo e Alfredo da Silva Buza foram formados na missão de Kinconzi, no ex-Congo Belga, hoje República Democrática do Congo.

Antes dos nacionais assumirem a responsabilidade da gestão da igreja, em 1962, por causa das revoluções, o trabalho religioso era administrado por missionários estrangeiros provenientes da América e da Europa. Depois da Independência Nacional, referiu, a Igreja Evangélica de Angola evoluiu muito com a criação de novos templos, passando de duas para seis regiões eclesiásticas: Tando-Zinze, Necuto, Buco-Zau, Cacongo e Belize.

À semelhança da Igreja Evangélica de Angola, alguns missionários da Igreja Católica, em Cabinda, também foram vítimas das perseguições da Polícia Secreta portuguesa, o que levou muitos padres a serem deportados para outras regiões de Angola, e até mesmo para Portugal, caso de D. Manuel Franklim da Costa, ex-bispo emérito de Lubango.

Outra figura de realce foi o padre católico Joaquim Pinto de Andrade, que seria deportado para Lisboa, a 1 de Julho, para a cadeia política do Aljube, onde foi colocado em isolamento. Depois, em Novembro foi enviado para a Ilha do Príncipe, acabando por regressar a Lisboa, em Março de 1961, sendo de novo colocado no Aljube, incomunicável.

Muitos missionários católicos haviam sido acusados de ajudarem a PIDE a deter pessoas que, no acto da confissão, revelavam actos subversivos praticados contra o regime colonial. "A relação entre padre e fiel segue as determinações morais e éticas do sigilo profissional e que estão previstas na Lei da Igreja", afirmou Pedro Puati Dias.

Questionado sobre o assunto, um missionário local, que não quis se identificar, disse ao Jornal de Angola que no quadro do Direito Canónico da Igreja Católica, o segredo sacramental da confissão é inviolável, mesmo para pessoas que cometerem crimes.
Lândana, berço da evangelização
No passado colonial, o distrito religioso, que compreendia as regiões de Cabinda e Zaire, era formado por seis missões fundadas e dirigidas pelos missionários do Espírito Santo: Lândana, Cabinda, Lucula, Maiombe, Santo António do Zaire e Tomboco.

Fundada em 1873, pelo Reverendo Padre Hipólito Carrie, Lândana foi o ponto de irradiação do trabalho apostólico dos padres da Congregação do Espírito Santo. De lá partiram os fundadores das Missões de Cabinda, Lucula, Luáli, Maiombe e até Malanje.

Foi em Lândana onde se consagraram os primeiros sacerdotes nativos. O primeiro angolano ordenado sacerdote na história religiosa do vicariato de Cabinda e Zaire, foi o padre Lourenço Bunga, consagrado a 9 de Janeiro de 1909, em Lândana, onde frequentou os estudos primários, preparatórios e os cursos de Filosofia e Teologia. Trabalhou na Missão Católica de Lucula até a morte, a 6 de Agosto de 1940.

A sua vida foi de entrega total à Igreja, merecendo o cognome de "Bilolo Bitandu" em referência à uma planta muito abundante nas planícies de Cabinda que anualmente suporta as queimadas e reverdece logo às primeiras chuvas. São também destaques os padres nativos João Alexandre Tati, ordenado em 1921, Lourenço Clemente Mambuco (1930), Manuel Franklim da Costa (1948), Eduardo André Muaca (1953), Sérgio Gabriel Macaia (1955), Lourenço Pitra (1957), Próspero de Ascensão Puati (1957), Paulino Fernando Madeca (1958), José Faustino Buílo (1958), Gabriel Nionje Seda (1962), Faustino Nzau Pitra (1964) e Angelino Gaspar Nanga (1965), dentre outros.

Em declarações ao Jornal de Angola, o bispo de Cabinda, D.Belmiro Chissengueti, descreveu o valor de Lândana no contexto da segunda evangelização de Angola na África Subsaariana. "É daqui onde nasceu a Missão da Caconda (Huíla) e outras missões no interior de Angola. Quando se olha para Lândana, não se olha apenas pelo lado religioso que aquela Igreja representa, mas do lado da formação de homens e outras gerações de quadros que depois fundaram as missões de Zenze, Luáli, Belize e Ponta-Negra."
 Igrejas e o Nacionalismo em Angola
Num artigo publicado pela Revista Lusófona de Ciência das Religiões, sobre "As Igrejas e o Nacionalismo em Angola”, o espiritano professor Tony Neves lembra que "pastores e padres envolveram-se num processo imparável que viria a ter um ponto de chegada e também de partida: 1975, a Independência”.

Tony Neves escreve que a primeira Missão Protestante, fundada em Angola, a de São Salvador do Congo, foi também a primeira a receber ordem de encerramento, em 1961. O comando militar português tomou de assalto as instalações onde funcionava uma Igreja, uma escola, vários dormitórios, um hospital e as residências de quantos ali trabalhavam. Foi o início das investidas da tropa portuguesa contra quem não dava sinais de apoiar o governo colonial. 

A história continuou com o encerramento das Missões de Quibocolo, do Bembe, de Calambata. Nos finais de 1962, todas as Missões da Canadian Baptist Foreign Mission Society retiraram-se de Angola. As expulsões e detenções prolongaram-se no tempo e afectaram todo o território angolano. Dois dos casos mais mediatizados foram o do missionário metodista Raymond Noah, detido pela PIDE, em Julho de 1961, e o do médico Rodger Shields, missionário em S. Salvador. 

Este acabaria por abandonar Angola por não ter condições para exercer a missão, com liberdade e sem ameaças. A Igreja Metodista sofreria ainda a prisão, em Setembro de 1961, do Reverendo Júlio Miguel e seus três filhos, Emílio de Carvalho (Bispo), João Carvalho e Roberto Carvalho. O Governo português, em 1963, obrigou os missionários protestantes a receber autorização da PIDE para deslocações fora das suas zonas administrativas, proibiu a emissão de programas da rádio pelos protestantes e o envio de literatura para diversos pontos de Angola, a partir da tipografia da Missão do Dôndi.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Reportagem