Opinião

“Ignóbeis do Cazenga”

O resgate, recente, no Cazenga, Luanda, de nove escravas sexuais, na sequência de uma investigação do SIC, é mais um alerta sobre os perigos do “crime organizado” que agrupa vários delitos e ignora fronteiras.

23/09/2021  Última atualização 05H15
O número exacto dos malfeitores do Cazenga ainda é desconhecido - pelo menos, não divulgado, por naturais cautelas, pelo Serviço de Investigação Criminal  - , tal como o das vítimas. Também os contornos daquelas acções ignóbeis que envolvem cárceres privados, sequestros, violações psicológicas e físicas, entre elas sexuais, incesto, pedofilia, promoção e incentivo à prostituição, gravidezes obrigatórias, procriação forçada, propagação de doenças.

Àqueles delitos, atentatórios dos direitos humanos,  juntam-se os de imigração clandestina e incentivo a este delito, corrupção - activa e passiva -, pois quadrilhas daquela natureza beneficiam, invariavelmente, de cumplicidades variadíssimas, a diversos níveis, pagamentos em múltiplas  formas, consoante os cargos ocupados e a importância social atribuída aos que, na retaguarda, alimentam o funcionamento das redes.

Uma organização criminosa de génese detectada, agora, no Cazenga, está devidamente estruturada, como qualquer sociedade legal. Com funções definidas de cada membro, numa cadeia de valores respeitada. Não é quadrilha de bairro, grupo de amigos, com áreas de acção restritas, que se dedicam ao pequeno furto, os chamados pilha-galinhas. Tão-pouco a mando de outrem. Por outras palavras, "meros” executantes, "paus mandados”, "peixe miúdo”, que atafulham cadeias de todo o Mundo.

Os "ignóbeis do Cazenga”, a exemplo das organizações internacionais congéneres , têm cúmplices de "alto nível social” , tanto nos países onde operam, como fora deles. Gente aparentemente acima de quaisquer suspeitas, "vizinhos respeitados e respeitadores”, "bons chefes de família(s)”. Alguns, inclusive, "cumpridores” de princípios religiosos, da forma que mais lhes convém, a ignorância os faz respeitar ou ouvem. Em leituras retiradas das variadíssimas versões da Bíblia ou do Corão. Pregadas, não poucas vezes, por cultores do princípio "faz o que digo, não faças o que faço”. São os profetas da desgraça, a servirem-se  de desesperos e ignorâncias para atingirem sórdidos fins.

A rede dos "ignóbeis do Cazenga”, ao que parece, tinha um estrangeiro -  em fuga, como chefe, que, no fundo, pode ser apenas "testa de ferro”, como é comum em organizações criminosas. A investigação policial, espera-se, há-de descortinar se assim é ou apenas um "cabo”, disposto a correr riscos, em obediência aos compromissos de desonra. Sejam ou não estas as circunstância, não se deixe, uma vez mais, soltar a xenofobia - cobertor curto de incompetências e invejas - com consequentes e previsíveis desfechos. A verificar-se isso é, salvo as devidas proporções, querer apagar um incêndio com gasolina.

As vítimas do Cazenga, em princípio, todas estrangeiras, merecem - hoje e sempre - a solidariedade e indignação da Nação Angolana, sem descorar reflexões sobre a série enormíssima de circunstâncias e protagonistas, que as materializaram.

A rede de "ignóbeis do Cazenga” tem, até ver, um  chefe  estrangeiro em fuga, mas não é a nacionalidade, que se vier a apurar , que faz dele um ser abjecto, pois a ignomínia não é exclusividade de países e continentes determinados, locais para nascer. É "apátrida”e se a deixam, expande-se, cruza fronteiras, vai até onde a deixam ir.

Os "ignóbeis do Cazenga” chegaram até, onde os deixaram. O SIC travou-lhes a marcha criminosa, mas não se ficou por aí. Persegue-lhes, pacientemente, as pegadas, que se estendem além do território nacional, mas, outrossim, cá dentro, na busca de eventuais ramificações. 

No meio daquela confluência de crimes hediondos, há as vítimas - uma vez mais, mulheres e crianças - que, nem nos piores pesadelos, alguma vez viveram as atrocidades sofridas em Angola. Tão importante como a acção do SIC é o tratamento que lhes está e vai ser dado, de forma a atenuar-lhes dores, enxugar-lhes lágrimas e mostrar-lhes a outra face, a maior, acentue-se, de um país solidário. 

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