Reportagem

Identificados 101 migrantes mortos num ano com destino às Canárias

A identificação de mortos e desaparecidos, no âmbito deste projeto da Cruz Vermelha Internacional, faz-se “através de testemunhos, “contagem de pessoas que viajavam em cada embarcação à saída e chegada e das que morreram” durante a viagem, assim como de outras ferramentas,que incluem notícias de meios de Comunicação Social e imagens

30/08/2022  Última atualização 09H28
O número de migrantes que tenta chegar a outros países a procura de melhores oportunidades cresce todos os dias © Fotografia por: DR

A Cruz Vermelha identificou 101 pessoas mortas ou desaparecidas no mar, no último ano, quando tentavam chegar às ilhas Canárias, Espanha, no âmbito de um projeto-piloto que visa responder a pedidos de famílias de migrantes, cujo paradeiro é desconhecido.

O projecto "Pessoas desaparecidas em rota migratória” chegou às ilhas Canárias (no Atlântico) em Setembro de 2021, depois de uma experiência em Itália, e permitiu identificar até agora 101 pessoas procuradas pelas famílias, que assim puderam fazer o luto, revelou a Cruz Vermelha espanhola, num comunicado divulgado ontem, véspera do Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, instituído pelas Nações Unidas.

Neste ano, foram investigados 45 casos de chegadas de embarcações às Canárias, que levaram à conclusão de que 308 pessoas que pertenciam a esses grupos estavam desaparecidas ou mortas, tendo sido resolvidos 101 pedidos de famílias que procuravam migrantes.

A "procura de pessoas mortas ou desaparecidas em rota migratória” ocorre em três contextos, segundo a Cruz Vermelha: "uma embarcação saiu, mas não chegou à costa de destino; a embarcação chegou com pessoas mortas; na embarcação morreram pessoas, mas os corpos desapareceram no mar”.

A identificação de mortos e desaparecidos, no âmbito deste projeto da Cruz Vermelha Internacional, faz-se "através de testemunhos”, da "contagem de pessoas que viajavam em cada embarcação à saída e chegada e das que morreram” durante a viagem, assim como de outras ferramentas, que incluem notícias de meios de comunicação social e imagens registadas por outras fontes, segundo o mesmo comunicado divulgado hoje.

A Cruz Vermelha "não certifica a morte, mas constrói o relato daquilo que provavelmente aconteceu, com base em factos confirmados e as possibilidades de sobrevivência”, explica o comunicado.

"Cerca de 19.000 pessoas em processos migratórios consideram-se desaparecidas na rota migratória do Mediterrâneo, segundo a Organização Internacional das Migrações (OIM), entre 2014 e 2019”, sendo que só do ano passado há 3.300 consideradas desaparecidas na rota para a Europa, segundo a mesma nota informativa.

"Só 13% dos cadáveres foram recuperados e, portanto, identificados como desaparecidos”, sublinha a Cruz Vermelha, que explica que "a grande quantidade de casos não resolvidos oriundos de países africanos, o elevado número de pessoas desaparecidas e a necessidade de identificar as pessoas migrantes mortas para ajudar as famílias a enfrentar a perda ambígua” vão levar o projecto às costas mediterrânicas de Espanha, nomeadamente, às regiões da Andaluzia, Múrcia, Comunidade Valenciana e ilhas Baleares.

A rota da África Ocidental, que atravessa o oceano Atlântico e a costa oeste de África até às Canárias, é conhecida por ser extremamente perigosa, por causa das fortes correntes marítimas.

Mesmo com tais perigos, esta rota tem atraído cada vez mais migrantes, sobretudo provenientes de países da África subsaariana, que desejam chegar ao território europeu, a grande maioria a bordo de embarcações muito precárias e superlotadas.

Espanha, a par da Grécia, Itália, Malta ou Chipre, é um dos países da chamada "linha da frente” ao nível das chegadas de migrantes irregulares à Europa.


Há mais migrantes e refugiados

A ONU actualizou em alta, para 6,81 milhões, o número de migrantes e refugiados venezuelanos que nos últimos anos abandonaram o seu país para escapar à crise política, económica e social que afecta a Venezuela.

Os dados foram actualizados pela Plataforma de Coordenação Interagências para Refugiados e Migrantes da Venezuela (R4V), da ONU, que em Julho de 2022 dava conta de que 6,15 milhões de venezuelanos estavam no estrangeiro.

Os dados divulgados centram-se na América Latina e Caraíbas, onde, segundo a R4V, estão agora radicados 5,75 milhões de venezuelanos (5,09 milhões em Julho de 2022).

O registo dá conta de um aumento de imigrantes venezuelanos na Colômbia, Brasil, Bolívia, Uruguai, Argentina, Panamá, Costa Rica, na Guiana e no Curaçau. Também apontam para uma "leve” diminuição do número de cidadãos naturais da Venezuela no México, Peru e Equador.

No entanto, não precisa o número de venezuelanos nos EUA, apesar de representantes do Centro de Direitos Humanos da Universidade Católica Andrés Bello (de Caracas) afirmarem que a emigração para esse país está a aumentar.

Segundo a R4V, a Colômbia continua a ser actualmente o país da região com maior número de migrantes e refugiados venezuelanos, 2,48 milhões, seguindo-se o Peru (1,22 milhões), o Equador (502,2 mil), o Chile (448,1 mil) e o Brasi (358,4 mil).

No Panamá, estão actualmente 144,5 mil venezuelanos, no México 82,9 mil e na Costa Rica 20,1 mil.

Na região do Cone Sul, a Argentina é o país com mais venezuelanos (171 mil), seguindo-se o Uruguai (22 mil), a Bolívia (13,8 mil) e o Paraguai (5,9 mil). Na área das Caraíbas, 115,3 mil venezuelanos estão na República Dominicana, 28,5 mil em Trindade & Tobago, 19,6 mil na Guiana, 17 mil em Aruba e 17 mil no Curaçau. Há ainda 1,06 mil venezuelanos em outros países do mundo, segundo a R4V.

A Venezuela tinha, em finais de 2020, uma população de 28.515.829 pessoas. A crise política, económica e social no país agravou-se desde Janeiro de 2019, quando o então presidente do parlamento, o opositor Juan Guaidó, jurou publicamente assumir as funções de Presidente interino do país, até afastar Nicolás Maduro do poder, convocar um Governo de transição e eleições livres e democráticas.

Em Setembro de 2021, a Organização de Estados Americanos alertou que a emigração de venezuelanos poderá atingir os sete milhões ainda em 2022, superando os 6,7 milhões do êxodo verificado na Síria.


Entrada em Ceuta

Marrocos trava centena de migrantes, no domingo, que queriam entrar "à força” em Ceuta, noticia a agência EFE. A situação exigiu um reforço dos agentes da Guardia Civil nas localidades de Benzú e Tarajal, para fazer face a essas tentativas.

Fontes da Delegação do Governo informaram à EFE que a cidade de Ceuta passou por uma das noites de maior pressão migratória de todo o verão, uma vez que existiram tentativas de entrada ilegal tanto por terra, como por mar.

Foi a Guardia Civil que alertou as autoridades marroquinas para esta ocorrência, após ter visto, com recurso a câmaras térmicas, cerca de uma centena de imigrantes subsaarianos a descerem a montanha que dá pelo nome de Mujer Muerta, com o intuito de abandonarem o país pela zona de Beliones e em direcção a Benzú, já em Ceuta. As forças marroquinas tentaram imediatamente pôr fim à investida, tendo entretanto detido os migrantes.

Esta não foi, no entanto, a única investida da noite, visto que houve outra tentativa maciça de entrar ilegalmente via mar, através da zona fronteiriça de Tarajal. Nesse momento, os agentes da Gendarmaria Marroquina, alertados pela Guardia Civil, viriam também a impedir cerca de 50 migrantes de levar a cabo a sua missão.

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