Especial

IDA aposta na revitalização da cintura verde de Luanda

Joaquim Neto

Jornalista

Uma campanha massiva de distribuição de cinco mil toneladas de sementes, fertilizantes, equipamentos de rega e para desbravamento das matas decorre, desde o passado dia 8 de Dezembro até Janeiro do próximo ano, para assegurar o aumento da produtividade em vários municípios e comunas do país, criar mais empregos e reduzir a fome e a pobreza no seio das populações locais.

17/12/2020  Última atualização 19H40
© Fotografia por: DR
Tido como um programa de robustez económico-produtiva para Luanda, o seu ponto de arranque nas cooperativas agropecuárias de Cambembeia e Casseculo, as acções nele constantes vão, a curto prazo, aumentar as tradicionais zonas de cultivo, revitalizar a cintura verde de Luanda e empregar mais de sessenta mil jovens.

Na mira de substituir as já ocupadas com a construção das centralidades do Sequele e Kilamba, e por outros empreendimentos de betão nos musseques Baia, Mbonde Chapé, Barra do Cuanza, e noutras localidades onde as lavras, até então tidas como principal fonte de rendimento das famílias, foram expropriadas pelo Executivo, o programa prevê assegurar a revitalização do sistema de produção de hortícolas, legumes e frutas, nos arredores da capital do país, e repor um sistema de cultivo nas zonas periurbanas da cidade de Luanda.

Com um potencial de produção anual avaliado em mais de 12 milhões de toneladas de alimentos agrícolas diversos, Luanda tem, actualmente, um sistema de agricultura familiar confinado aos camponeses de Calumbo, Icolo e Bengo e Funda, cuja capacidade produtiva real, cifrada em cinco a seis mil toneladas, a transformam num centro de consumo dependente dos produtos oriundos do interior do país, para satisfazer as necessidades alimentares dos mais de oito milhões de cidadãos residentes na capital.

A intenção das autoridades ligadas ao apoio técnico-científico às mais de 10 mil famílias produtoras, filiadas nas associações de camponeses e cooperativas agro-pecuárias do país, é salvar a segunda época de produção alimentar, pelo facto de a primeira, iniciada em Setembro do corrente ano, carecer da preparação atempada de terras, sementeiras e lavouras.

A ausência de recursos financeiros inviabiliza a importação de sementes melhoradas, instrumentos de trabalho e outros insumos não produzidos no país, pelo que as colheitas vão ser muito reduzidas e incapazes de responder à crescente procura de alimentos diversos no mercado. Segundo apurou o Jornal de Angola de fonte oficial, produtores e distribuidores de sementes da Huíla estão a ser mobilizados e financiados para atender não só as famílias produtoras daquela região do país, como também as que actuam nas províncias do Namibe, Cunene e Cuando Cubango.

Na mesma senda, produtores e distribuidores de sementes de Benguela atendem as famílias desta região do país e das províncias do Huambo, Bié e Cuanza-Sul, enquanto os de Malanje são mobilizados e financiados para atenderem as províncias do Cuanza-Norte, Bengo, Malanje, Uíge, Zaire, Lunda- Norte, Lunda-Sul e Moxico. O objectivo é evitar que haja fracasso no processo de aquisição de sementes melhoradas.Quadros do Ministério da Agricultura e Pescas, já reformados, vão executar o programa, com vista a evitar quebras no processo de produção interna de sementes.

Recursos disponíveis

A segunda época do cultivo de alimentos vai, de Fevereiro a Julho de 2021, pelo que o Ministério da Agricultura e Pescas, por via do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), está a mobilizar todos os recursos disponíveis para evitar um eventual colapso alimentar dos angolanos, tornando-os menos dependentes das importações, que, também, estão a ser retidas às reservas alimentares nos mercados e fornecedores internacionais, devido ao surto epidémico do novo coronavírus, que se alastra pelo mundo.

O director-geral do IDA, David Tunga, disse que Luanda deve constituir-se numa importante retaguarda segura, no que tange à produção interna de comida, por ser o maior centro de consumo da África Austral, responsabilidades acrescidas pelo facto de o país optar por entrar na zona de comércio livre, em África, situação que vai exigir maior qualidade e mais quantidade de alimentos produzíveis internamente. Segundo o também especialista em segurança alimentar, urge criar mecanismos conducentes à criação de uma cadeia interligada de produção, comercialização, armazenamento, transformação e consumo.

"Se cada um dos três milhões de camponeses, residentes na província de Luanda, puder produzir alimentos, então poderemos assegurar uma auto-suficiência em termos de produtos do campo e reduzir a dependência dos produtos da cesta básica, fundamentalmente a farinha de milho e de bombó, feijão, milho, farinha torrada, hortofrutícolas, peixe, frangos e ovos, uma vez que vão ser introduzidas em cada uma das 500 associações existentes, pintos de reprodução para galinhas de abate e produção de ovos”, disse.

Para David Tunga, a maior contribuição para atingir esse desiderato reside nas tradicionais famílias camponesas, que devem engajar-se cada vez mais na organização das associações e cooperativas agro-pecuárias, a fim de acederem aos créditos disponibilizados pelo Executivo Central.Além da utilização dos campos agricultáveis em sequeiro, dependentes das quedas pluviométricas, o IDA está a introduzir nas localidades da Quiminha, Forte Secala, Casseculo, Bom Jesus, Guimbe, Muxima, e nas zonas ribeirinhas, entre-os-rios Kwanza e Zenza e nas valas de regadio do Cassanje – Calucala, sistemas mecanizados de bombagem de água para irrigar os campos, e aproveitar duas épocas sucessivas de cultivo de hortícolas, milho e batatas (rena e doce) para assegurar a vindoura campanha agrícola 2021-2022, e cobrir eventuais hiatos ou espaços mortos, entre uma campanha agroalimentar e outra, para prevenir surtos de fome e de desemprego.

O vice-presidente da Cooperativa agropecuária dos Unidos de Cambembeia, Bartolomeu Cassinda, disse, ao Jornal de Angola, que não está a ser fácil cumprir com a agenda de produção alimentar, por parte dos seus 500 associados, devido à ausência quase generalizada de sementes, instrumentos de trabalho e tractores para assegurar o desmatamento e lavoura mecanizada dos terrenos.

Segundo o responsável, os preços estão muito inflaccionados. "Cada hectar mecanizado custa entre 80 a 120 mil kwanzas. Por isso, solicitamos a intervenção do IDA, com vista a facilitar os custos de produção, que são cada vez mais elevados, situação que encarece o preço final aos consumidores, fundamentalmente os clientes dos mercados do Quilómetro-30, onde tem sido canalizada a maior parte da produção”, disse.

Os municípios de Cacuaco, a partir da comuna da Funda, e o do Icolo e Bengo, nas localidades de Cassoneca, Cabala, Cabiri, Caculo Cahango, Bom Jesus, Mazozo, Guimbe e Quiminha, e na municipalidade de Viana, através da comuna de Calumbo, regiões banhadas pelos rios Kwanza, Zenza, Lucala, e pelas lagoas de retenção de águas do Zenza, Golungo e Quiminha, vão, a curto prazo, receber equipamentos mecanizados de rega e de energia solar, para a irrigação permanente das terras férteis, com vista a assegurar a sua rentabilidade produtiva e "engordar” o bolso dos seus produtores.

As famílias a serem engajadas neste programa de revitalização da cintura verde de Luanda vão, receber conhecimentos técnicos em como produzir melhor em pouca extensão de terrenos agricultáveis, e como rentabilizar os respectivos processos de produtividade nas fases de desmatação, lavouras, sementeiras e colheitas, assim como gerir os seus rendimentos e planificar as épocas vindouras, com o surgimento de 500 escolas de campo, financiadas pelo Ministério da Agricultura e pelo Banco Mundial.

Esse programa de implementação imediata vai ser executado com outro tipo de intervenção rural, direccionado à fixação de jovens desempregados, na capital do país, que visa a distribuição de terrenos para a actividade agrícola, criação de pequenos ruminantes e aves bem como a distribuição de  equipamentos para a pesca continental, e a construção de habitações onde poderão coabitar com as respectivas famílias.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Especial