Reportagem

Hospital de Caluquembe brilha à noite

Arão Martins | Lubango

Jornalista

A requalificação do sistema eléctrico permite fornecer energia ao Hospital de Caluquembe, à Escola Bíblica e aos bairros do Ibekmum e Cayeje e à Missão Evangélica Sinodal em Angola (IESA). Diniz Marcolino Eurico, presidente da IESA, disse ao Jornal de Angola que agora “já se pode ler a Bíblia à noite com alguma facilidade e os alunos da Escola de Formação de Técnicos de Saúde do hospital têm agora energia para carregar os telefones e navegar na Internet”

17/04/2022  Última atualização 09H25
Hospital de Caluquembe © Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro – Huíla

Terça-feira. Os ponteiros do relógio marcam 21h00. Maria Paulo, 55 anos, apressa-se a acender a lenha para confeccionar sopa de legumes para o filho que está internado no Hospital da Igreja Evangélica Sinodal de Angola (IESA) de Caluquembe (196 quilómetros a norte da cidade do Lubango). Oriunda da aldeia de Cue I, Maria Paulo risca o palito de fósforo para acender a fogueira e o candeeiro. Devido à humidade, o palito demora a produzir a faísca que dá lugar ao fogo. A falta de energia eléctrica, no interior da casa de adobe, deixa Maria ainda mais preocupada. Ao acordar, no dia seguinte, Maria, cujo filho deu entrada naquela unidade hospitalar um dia antes, é surpreendida com a cerimónia de inauguração do programa de requalificação do sistema de energia eléctrica do hospital e seus arredores.

Hoje, toda a extensão do hospital está iluminada, possibilitando aos estudantes do Instituto de Formação de Técnicos de Saúde estudar e investigar com os meios tecnológicos a qualquer hora do dia. A iluminação dá um novo brilho ao Hospital de Caluquembe, no passado chamado "Salva Vidas”, e à própria Missão. Foram adquiridos e instalados dois grupos geradores com capacidade de 280 KVA, distribuídos em 150 e 130 KVA cada. Foram, ainda, instalados 81 postes de iluminação pública de 110 milímetros. As linhas de distribuição são subterrâneas.

Além do hospital, o projecto está dimensionado para fornecer energia eléctrica a mais de 200 habitações da região de Kukala, onde se situa a unidade. O redimensionamento permite fornecer energia ao hospital, escola bíblica e aos bairros do Ibekmum e Cayeje. Existe um projecto de interligação com a energia eléctrica da rede nacional a partir da barragem do Gove. Os técnicos reservaram um ponto para a interligação com a rede nacional, explicou Teodoro José, director do projecto.

 

Hospital continua a ser referência

O Hospital de Caluquembe, que ocupa uma área de 20.286 metros quadrados, é uma referência na prestação de serviços de saúde às populações do Sul do país, por causa da sua localização geográfica privilegiada, com ligações para o Lubango, Huambo e Benguela.

A requalificação do sistema de iluminação pública e domiciliar do Hospital de Caluquembe abrange as ruas e residências de toda Missão. Redimensionou-se a iluminação nas zonas que dão acesso ao hospital, escola técnica e morgue.

Para o sucesso dos trabalhos foram gastos Kz 76.644.234 (Setenta e seis milhões, seiscentos e quarenta e quatro mil e duzentos e trinta e quatro kwanzas). Setenta por cento deste valor resultou do Orçamento Geral do Estado.

A directora do Hospital de Caluquembe,  a médica Carla Daniel, disse que a requalificação do sistema de iluminação pública visou oferecer melhor assistência aos pacientes e a todos que procuram os serviços de saúde e não só.

Com a energia, disse, há possibilidade de se conservar com segurança os medicamentos, reagentes e vacinas. Sublinhou ainda a prestação de  serviços e assistência adequada, sobretudo no período nocturno. "A situação era difícil. Muitas vezes tínhamos um doente no bloco operatório e, de repente, o gerador ia abaixo, devido a um curto-circuito na rede”, lamentou, acrescentando que "graças a Deus, nunca aconteceu acidente grave e nem morte devido a tais circunstâncias”.

O Hospital Evangélico de Caluquembe funciona com seis médicos de diversas especialidades e mais de 300 funcionários, entre enfermeiros, técnicos administrativos, pessoal de apoio hospitalar e outros.

Carla Daniel informou que parte dos custos com o pessoal é suportada pelo Orçamento Geral do Estado. O hospital é igualmente sustentado com dinheiro da própria igreja, de doações e comparticipação dos doentes. A directora lembrou que o Hospital de Caluquembe mantém a tradição de tratar doentes oriundos de várias partes do país.

Considerado de nível regional, o hospital está localizado numa zona rural e serve de ponte no traçado Lubango (Huíla) e Huambo, numa distância de 200 quilómetros nos dois sentidos. O hospital está no centro e atende pacientes oriundos dos municípios da Ganda, Chongoroi e Cubal (Benguela) e outros municípios limítrofes com o Huambo.

 

Obra comparticipada

O presidente da IESA, Diniz Marcolino Eurico, disse que "desde os tempos dos missionários”, o fornecimento de energia eléctrica abrangia apenas o hospital e a casa dos missionários. Os autóctones e a própria Missão, fundada em 1897, nunca foram contemplados. "Isso foi motivo de permanente discussão, incompreensões veladas. Romper tal paradigma, hoje, e fazer com que a luz do Hospital de Caluquembe sirva também a Missão é motivo de grande satisfação”, sublinhou.

Reconheceu que num país onde os recursos financeiros são escassos, fazer a obra de requalificação da rede eléctrica não deixa de ser um sacrifício. O líder religioso agradeceu ao governador provincial da Huíla na altura, Luís Nunes, que concordou, a pedido da IESA, em inscrever o projecto no Orçamento Geral do Estado, com a comparticipação da própria igreja.

Doravante, disse, "já se pode ler a Bíblia à noite com alguma facilidade, os alunos da Escola de Formação de Técnicos de Saúde do hospital têm agora energia para carregar os telefones e navegar na Internet”.

Destacou igualmente a iluminação permanente do templo de Kukala, que é o símbolo da divindade.   "Luz é vida e, no tempo actual, a energia eléctrica faz parte da vida”, reconheceu, salientando que a iluminação da Missão vai diminuir a circulação dos indesejados e amigos do alheio e facilitar a circulação dos moradores de Kukala.

Anunciou que a próxima etapa será a montagem da média tensão. "Teremos muito mais energia para consumir em relação ao que se tem actualmente”, comparou.

Garantiu que a Missão vai ter capacidade para vender energia eléctrica aos kukalenses, que se devem preparar para conectarem as casas à rede eléctrica do Hospital de Caluquembe. "Não vamos substituir a Empresa Nacional de Electricidade (ENDE) mas vamos ajudar até que o Governo possa instalar, no município de Caluquembe, a energia da rede nacional a partir da barragem do Gove, província do Huambo”, garantiu.

Acção social  e ganhos
Acção social da IESA

Diniz Marcolino Eurico lamentou o facto de haver pessoas que minimizam a capacidade interventiva da IESA na área social. Lembrou que a acção social da IESA no Sul do país já foi matéria de pesquisa e estudos científicos e académicos de várias universidades.

Além do Hospital de Caluquembe, com as suas valências, a IESA tem a funcionar, há vários anos, o Instituto de Formação de Técnicos de Saúde. É a instituição que começou o projecto da Cruz Azul em Angola, o Instituto de Teologia Evangélica no Lubango e tem um instituto superior sinodal que funciona também na cidade do Lubango,

Destacou ainda a Rádio Maranata, que surgiu no âmbito do trabalho de evangelização, o "Projecto de Esperança”, que ajuda famílias vulneráveis, o projecto agro-pecuário denominado 301, para a multiplicação de sementes e animais e ensina as pessoas a melhorar as culturas agrícolas.

 

Ganho para o município

Para a administradora municipal de Caluquembe, Mariana Soma, mais uma etapa foi conquistada na obra médica da Igreja Evangélica Sinodal de Angola (IESA). Referiu que a melhoria da energia eléctrica no hospital de referência é um ganho, não só para o município ou a província, mas para o país em geral.

Os primeiros beneficiários do projecto, disse, são os pacientes, as famílias e todos os que recorrem ao hospital.

Mariana Soma garantiu que, apesar dos constrangimentos orçamentais, o Governo continua engajado na solução das maiores preocupações dos cidadãos, das organizações e das instituições parceiras. Manifestou a disponibilidade da Administração Municipal em continuar a colaborar com a obra médica da IESA e com outros parceiros.

 

Construção do aeroporto de Caluquembe

A Igreja Evangélica Sinodal em Angola tem na forja a construção de um aeroporto. O projecto, segundo o reverendo Diniz Marcolino Eurico, já tem a licença do Governo Provincial. Esclareceu que a execução da obra não arrancou devido às restrições impostas pela pandemia da Covid-19. A execução vai contar com o apoio de parceiros. Além do aeroporto do município, a denominação religiosa vai contar com um aeroporto alternativo para a aterragem de avionetas.

"Sonhar não é pecado. Reiteramos o desejo da igreja de comprar uma avioneta para circular com rapidez de um ponto ao outro na evangelização e na assistência social”, disse o líder da IESA. "Preferimos fazer primeiro e só depois falar. Matar a cobra e mostrar o pau, como se diz na gíria”, sublinhou.

Apelou a quem de direito a apetrechar o bloco operatório do hospital, que precisa entrar em acção. Há oito anos que se espera por esta intervenção.

O presidente da IESA elogiou o trabalho do Governo para a busca de soluções dos principais problemas sociais, bem como a assistência médica e medicamentosa das populações. Reconheceu que no país nem tudo vai mal. Entende que cada um é livre de criticar mas considera "bom e ético” agradecer. "Agradecer é um dever dos cristãos”, salientou.

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