Cultura

Horácio Bapolo segura a melhor representação

A peça é um grande momento de sátira social, incomodativa para quem pensa que a sociedade é hoje “perfeita”, é um oásis. O dramaturgo transforma cada acção numa ficção empolgante, um retrato psicológico de um segurança que sobrevive ao subsalário, a sobrevivência alcançada com o negócio de aluguer da sua arma aos meliantes, “Puto, volta sempre para alugares o fusível. O carregador até voltou certo de balas”.

08/05/2022  Última atualização 12H45
© Fotografia por: DR
Direi que é uma paródia misturada com a sátira, um mesclado de escrita portentosa nos seus efeitos em retratar os nossos submundos e como um guarda, ex-antigo combatente, pensa, simula e age quando lhe viram as costas para certos prazeres da vida, sendo um deles poder um dia comer um naco de picanha.

O melhor da peça não é a luz, não é a mobília do palco, mas sim pelo facto de Horácio Bapolo, um actor de estatura pequena, deve ter 1,65 metros de altura e de largura corporal que passa no buraco de uma agulha (sem ser pejorativo), conseguir ocupar o largo espaço do palco do Elinga. Entrei atrasado já com três minutos perdidos. Sobre esses instantes não poderei comentar, por isso não sei em que momento da exibição o Horácio se transfigurara, como ocorreu exactamente essa  máscara e passagem do seu eu, do seu sensorial para o "coração”, para os tiques e trejeitos do segurança de nome Felisberto Faztudo.

O êxtase que o actor utiliza toma o seu corpo por inteiro e consegue colocar de lado a sua identidade. Ficamos diante de um guarda alucinado  e o suor dessa transfiguração corre-lhe da cabeça careca aos pés. No pico da peça o actor usa-se a si próprio para "ser a tela” do que acontece do outro lado do muro da vivenda: é na expressão corporal o violador, é a mulher violada, é simultaneamente a testemunha e em outro momento é o relator de uma luta de jovens vadios como os cães, ou seja, o actor usa o seu corpo como uma tela que nos coloca diante do mundo imaginado ou real que só o guarda é a única testemunha e narrador.

Luanda perdeu um grande monólogo.


Adriano Botelho de Vasconcelos

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