Sociedade

Homens ignoram curso de educador de infância

A sala está completa. É mais um dia de prova final. Metódio João é o único rapaz na turma, num universo de 50 estudantes.

25/11/2019  Última atualização 08H10
Contreiras Pipas | Edições Novembro © Fotografia por: Numa sala com 50 alunos, no Instituto Superior de Serviços Sociais, há apenas um homem

São poucos os jovens do sexo masculino que optam pelo curso superior de Educação de Infância, unicamente ministrado no país pelo ISSS - Instituto Superior de Serviços Sociais. 

Natural de Benguela, Metódio rumou para Luanda, há três anos, mal terminou a formação média em Instrução Primária, justamente para frequentar o curso superior de Educação de Infância.
Já no terceiro ano, Metódio João conta que escolheu o curso porque gosta de lidar com crianças dos zero aos cinco anos. “Em qualquer caminhada existem sobressaltos, mas estou a superar as expectativas, pois o mais importante é que estou a realizar um sonho”, sublinha.
Ele já não pretende regressar tão cedo a Benguela, pelo facto de Luanda ser a terra das oportunidades. “O curso ainda é novo e há mais abertura cá, em Luanda”, admite, para sustentar que a área de Educação de Infância é muito fértil e com um vasto espaço para se estudar, escrever e investigar.
O curso de Educador Social é daquelas escolhas feitas com paixão. É assim que Telma Beatriz, 32 anos, justifica a formação. Trabalhou dois anos numa creche e por sentir a necessidade da componente científica, matriculou-se este ano no curso de Educação de Infância.
Com a experiência trazida, a instituição selecionou-a para iniciar o estágio na creche instalada localmente. Depois de apresentar as áreas que a creche comporta e o tipo de atividades realizadas pelas crianças, Telma Beatriz explicou: “Basta sentir amor pelas crianças e vai ver que o trabalho não é difícil”.
O chefe do Centro de Documentação e Investigação do ISSS, Eufrásio dos Santos, disse que quando se fala de um educador, é importante olhar-se para o educador de infância, porque “é daí onde se começa a formar os melhores quadros”.
Criado há nove anos, o Instituto Superior de Serviços Sociais é uma instituição pública que tem colocado entre 60 a 80 técnicos superiores de Educação de Infância no mercado de trabalho. “Felizmente a maior parte tem tido aceitação”, explicou Eufrásio dos Santos.
O docente explicou que este ano o instituto vai realizar, em alusão à data, uma palestra sob o lema: “Educar de forma diferente”, onde se pretende chamar a atenção da sociedade que o processo educativo é complexo amplo, ou seja os educadores não podem estar isolados, sem o encarregado de educação, família, comunidade e instituições de ensino que são compostos por professores e outros profissionais que apoiam o processo de formação das crianças.
Dos três mil candidatos inscritos no concurso público, apenas 200 frequentam o curso de Educação de Infância, por insuficiência de vagas.
“Já é um curso muito procurado por homens, mas ainda não em número igual ao de mulheres”, disse o responsável pelo centro de investigação, que acrescentou que as turmas contam, às vezes, com cinco estudantes do sexo masculino, que, em alguns casos, acabam por ser bons educadores.
Ao lamentar alguma forma de estigma de encarregados que se recusam a ter um rapaz como educador de infância, reiterou que não têm registos de licenciados em Educação de Infância no desemprego.
Na visão daquele docente, o sucesso dos recém-formados é fruto do processo de estágio, que tem permitido que muitos sejam contratados a partir do terceiro e quarto ano de formação.
A formação dos educadores é processada em duas fases, designadamente a teórica e prática. No primeiro ano, os estudantes têm as disciplinas genéricas. No segundo ano, as cadeiras são mais especificas.
A medida que forem fazendo as cadeiras específicas, automaticamente fazem estágio para implementar o que aprenderam nas metodologias, oficinas e literatura infantil. A partir do terceiro ano, o estágio é três vezes por semana. O estágio culmina no quarto ano (último), com a produção de um relatório científico.
Actualmente, além dos estágios realizados nas creches e escolas públicas e privadas, com as classe de iniciação, os estudantes participam em dois projectos de intervenção comunitária da instituição, no bairro do Sossego e Wonga.
Nesses bairros, os pais são desprovidos de condições para colocar os filhos no ensino pré-escolar. Essas localidades têm escola primária, mas não existe uma creche.
O ISSS organiza uma rotina diária com base no programa aplicado nas instituições pré-escolar, no quadro das regras do Ministério da Educação. Logo que atingem cinco ou seis anos são encaminhados para as instituições do ensino primário.
“Comparativamente, as crianças que não fazem parte do projecto, sobretudo quando vão à escola, vimos que o aproveitamento é superior nas crianças que participam nos nossos programas”, disse Eufrásio dos Santos.
O estágio dos estudantes é realizado em creches privadas e públicas, que têm parceria com a instituição. Nos últimos anos, o ISSS tem recebido estudantes provenientes de outras províncias, que, no final, concorrem a bolsas de estudo do INAGBE.

Valorização
A propósito do Dia do educador, assinalado sexta-feira, o professor Eufrásio dos Santos defendeu ser importante que a família participe do processo de educação da criança.
“O professor trabalha com o aluno, mas se não houver correspondência por parte da família, é um processo sem resultados”, avançou, advertindo que o pessoal da limpeza, segurança e administrativo da escola também contribui para o processo de formação do indivíduo.
Admitiu que a sociedade ainda olha o educador como um emprego escapatório, julgando que quem se formou em Educação era incapaz de fazer engenharia ou economia.
“É verdade que muitos foram para o sector da Educação como uma forma de conseguir emprego”, frisou, garantindo que o professor tem um papel importante no desenvolvimento de uma sociedade, por isso tem de ser valorizado”.
“Embora haja alguma melhoria, o educador ainda tem problemas de salário, condições de trabalhos dignas”, indicou o responsável pelo centro de investigação do ISSS.

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