Opinião

Homenagens

Adebayo Vunge

Jornalista

Há uma tendência nova, mais cordata e elegante, no nosso seio que passa por um maior reconhecimento às pessoas da nossa terra pelos seus feitos em prol do país e dos angolanos, nas várias dimensões da nossa vida.

08/07/2024  Última atualização 12H09

Começou por ser uma homenagem com um condão muito politico-partidário. Depois entramos para o campo das organizações sobretudo aos reformados com o kit clássico que incluía um aparelho de som e um televisor ou arca. Entretanto, há alguns anos, creio que desde os 30 ou 35 anos da nossa dipanda, adoptamos uma abordagem mais multipartidária e ultimamente até mais social mesmo.

Para além dos certificados, diplomas de mérito, medalhas e ordenações, entramos para um campo em que estás homenagens se tornaram mais perenes com novos formatos dessas homenagens, como foi por exemplo a designação do novo hospital das doenças cardio vasculares com o nome do Cardeal Alexandre do Nascimento.

Recentemente, uma iniciativa que chamou a minha atenção prende-se com a revisitacão da toponímia de algumas ruas em determinadas zonas da cidade de Luanda, num programa coordenado pelo GPL e que abrange todos os municípios da província. Neste sentido, por exemplo, no Nova Vida já são visíveis placas com os nomes de músicos como Lourdes Van-Dúnem e Bangao bem como de jornalistas renomados que nos deixaram recentemente como são os casos de Siona Casimiro, António Muachilela e Gustavo Costa, de quem de forma particular nutria uma admiração pelo seu brio, talento e força de carácter. Quantas das crónicas publicadas aqui não foram lidas em primeira mão por ele, quantos textos não receberam os seus reparos e críticas, ou quantas vezes não discutíamos sobre o conteúdo e a forma, para além das discussões sobre o país, o que um outro amigo com quem partilho um painel na rádio LAC prefere apelar de "país real”.

O Gustavo Costa como os outros referidos e homenageados no Nova Vida para já, e nos demais municípios nos próximos dias, segundo uma fonte do GPL, merece, sem dúvidas, esse tributo. Por coincidência, faz alguns dias que encontrei uns rabiscos duma proposta de biografia que eu e um amigo estávamos a tentar discutir com ele, embora se mostrasse ainda reservado. De qualquer modo, como na maioria dos outros casos, ficam os seus textos de fina pena, retratando uma realidade como que proferizada pois em grande medida ainda muito actual nos textos escreveu para o Agora, Semanário Angolense e obviamente no Novo Jornal, onde a nossa trajectória se cruzou, ele enquanto Director-Adjunto e eu enquanto Editor.

Mas as homenagens de hoje são igualmente extensivas para duas outras figuras: falo do igualmente antigo jornalista do Jornal de Angola, o Salas Neto e do Ngouabi Salvador. São figuras que nos enchem de orgulho e satisfação pela força do carácter verdadeiramente puro, sincero e humanista. De resto, o livro de crónicas (do Facebook e talvez seja um primeiro caso no nosso jornalismo?) do Salas Neto "As Kussumunas do Bairro Indígena” traz textos escritos "com humor apimentado e definitivamente singular contido na sua prosa”, caracterizou o padrinho Luís Fernando, no prefácio do livro que se lê facilmente numa manhã de cacimbo, com o estalado das ondas e um dedo de conversas dos intrusos a leitura, numa qualquer mesa de restaurante regada de um bom fino.

A minha última mas não menos importante homenagem vai ao maravilhoso e gentleman Ngouabi Salvador que nos levou a alguns anos a não perder nunca de vista a Angola real, mesmo quando os afazeres nos faziam ficar concentrados na Mutamba. Para além do seu brio profissional enquanto funcionário público e jurista com elevadas qualidades ao serviço das finanças públicas, ele dirige há alguns anos o projecto cada vez mais real do Formigas do Cazenga. Essa é uma prova do desporto enquanto instrumento de transformação social e de educação cívica daquelas dezenas de crianças, adolescentes e jovens, razão porque mereceu uma distinção honorífica do Presidente de França, Emanuel Macron.

Finalmente é, para mim, mister referir que, para além da inclusão na toponímia, das medalhas, certificados, da atribuição de nomes a bens públicos, era interessante revisitar e conhecer a obra dessas pessoas. No caso dos músicos, isso far-se-ia promovendo a publicação de um disco ou de um concerto com os principais temas de um autor ou interprete, criando uma dinâmica cultural mais intensa nas comunidades. Para os homenageados de outras áreas precisamos de livros, conferências e outros materiais na mesma linha de modo que, além de saber quem é a pessoa, se entenda e se estude a obra e os seus feitos. Não basta saber que João de Matos foi um General ou que Waldemar Bastos foi um músico e o seu tempo de vida.

As homenagens com a toponimia é uma iniciativa a todos os títulos louvável. É importante que possamos alargar o espectro para mais nomes e figuras na educação como o explicador Engenheiro Pessoa, nas engenharias, Arquitectura e ciências médicas, no teatro ou na academia, como são os casos de Luís Filipe da Silva, André Mingas, Herminio Escórcio, Mac Mahon, Guerra Marques, Mena Abrantes, entre outros, vivos e mortos, deixando para todos muito claro que há mais vida para além da política. Essa falta de referências, por exemplo, é muito notória até nos nomes que damos hoje aos nossos filhos e filhas. De qualquer modo, precisamos de valorizar o que é nosso e esse é um caminho muito seguro nesse sentido.

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