Cultura

Homenagem singela

Manuel Rui completou na quinta-feira 80 anos de vida e a editora Mayamba e a Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto promoveram uma jornada de homenagem que incluiu a realização da mesa redonda, “Manuel Rui – Vida e Obra”, que incluiu a realização da mesa redonda “Manuel Rui – Vida e Obra”, com comunicações de professores da referida Faculdade, o lançamento dos livros de Manuel Rui “A Boneca de Trapos”, “A Alegria e a Girafa”, “Tio Jorge e Outros Quês” e “O Benguelense Boxeur” e de Luís Gaivão os livros “Manuel Rui: Obra, Escritor, Pensamento” e “O Sul Descolonial na Obra de Manuel Rui”.

07/11/2021  Última atualização 09H10
Manuel Rui completou 80 anos © Fotografia por: DR
Manuel Rui e os lugares do Sul

Manuel Rui tinha 26 anos quando publicou o primeiro livro de poemas, Poesia sem Notícias (1967) e, seis anos depois, a primeira obra em prosa Regresso Adiado (1973). Encontrava-se a estudar em Portugal e tinha saudades da sua terra.
Seguiram-se cerca de 50 títulos, cobrindo todos os géneros literários, o poema, o romance, o conto, o teatro, a canção, a literatura infantil, a entrevista, o hino, o ensaio e está traduzido em mais de 10 línguas.

Percorreu várias etapas literárias: na primeira (1967-1981) produziu mais poesia do que prosa, com pleno entusiasmo anticolonial até 1975 e com grande ardor nacionalista militante após a independência, dando um enorme contributo na formação da nova nação angolana, ao mesmo tempo que desempenhou lugares de proeminência política e cultural, em prol dessa mesma afirmação nacionalista. É o autor da letra do Hino Nacional de Angola e é membro fundador da União dos Escritores Angolanos, bem como de outras organizações da cultura.

Numa segunda etapa, já num tempo mais calmo e onde a reflexão crítica se tornava deveras importante para que o percurso de afirmação nacional não seguisse por caminhos indesejados, deu início à segunda etapa literária (1982-2009), em que a crítica social e a sátira aos costumes são eximiamente tratados. Foi com Quem me dera ser Onda (1982), um best-seller mundial de que é difícil saber-se o número de edições e traduções, que Manuel Rui alcançou a internacionalização.
Nesta etapa, atinge a maturidade literária e cada vez mais a sua produção se afirma na busca incessante das raízes da angolanidade que é feita de muitos contributos étnico-sócio-culturais.

Se com a obra poética Cinco Vezes Onze Poemas em Novembro (1984) retoma o elogio da independência nacional, vai daí em diante, revelar-se como um escritor de nível mundial, porque angolano dos pés à cabeça, com a obra-prima Rioseco (1997), a que se seguem outras, igualmente importantes, para o estudo sociológico dos fenómenos históricos que Angola atravessou, sendo a guerra civil e as suas sequelas, o mais marcante.

 Com O Manequim e o Piano (2005), A Casa do Rio (2007) e Janela de Sónia (2009) a sua escrita performa-se  num patamar literário de qualidade exímia como retratista do país e da sociedade, das heranças culturais, das convulsões sociais e políticas que suportou, e denota-se por um estilo repleto de poesia, de ironia e humor, de imprevisto e de denúncia, maravilhando todos os leitores com a utilização soberba dos recursos estilísticos que domina e aplica com a naturalidade de um mestre.
Após este período de afirmação da angolanidade, segue-se um outro, desde 2009 até aos dias de hoje, a que eu chamo de período descolonial.

Agora, Manuel Rui projeta aquela angolanidade de que vinha tratando tão exemplarmente, expandindo-a através das  extensões imensas do Oceano Atlântico e procura, com êxito, ressaltar os intercâmbios culturais que ali se realizaram, através da busca das raízes ancestrais que os angolanos e os africanos levaram para as Américas e de lá fizeram regressar, retransformadas, à terra-mãe.

Inicia este período com Travessia por Imagem (2012), que nos elucida sobre as transculturações entre angolanos, cubanos e todas as culturas e povos que se enredaram neste Oceano Atlântico. Parece que Angola se desloca para a América Central (Cuba) a fim de se rever no espelho que é o espólio étnico-cultural deixado pelos escravos que para ali foram levados e que transformaram Cuba num país tão próximo. Dessa revisão da história nascem novos laços descoloniais, igualitários, onde todos têm lugar.
Sucede o belíssimo romance-poético A Trança (2013) de imersão no encantamento da identidade africana que se mestiça com a contemporaneidade, por forma a carregar esta com a energia vital que lhe falta. É a história duma linda mestiça que vem da Holanda até ao Huambo, para assistir ao nascimento do avô.

Já em Kalunga (2018) encontramos o autor no seu esplendor no domínio da história, da ficção e dum pensamento descolonial. Um romance que atesta o seu percurso de libertação das conotações ideológicas e que coloca em igualdade e universalidade as diferenças culturais e étnicas, mais ricas quando repletas pelos valores da justiça, da liberdade e da fraternidade, contra a exploração do homem.
Toda a obra poética de Manuel Rui se debruça sobre o seu mundo envolvente e tem como pano de fundo o nacionalismo, a luta e o empolgamento na afirmação dos valores que nortearam a independência, a natureza física do país, os rios, as chuvas, o kalunga, a floresta, também Luanda e o planalto e, acima de tudo, é a demonstração dum elevadíssimo sentido estético/modernista, só possível pela formação cultural e literária que recebeu de várias origens atlânticas (Angola, Brasil, Portugal, América Latina, etc)
 O posicionamento de rigor ético que nunca dá folga à mentira ou à corrupção e os princípios estéticos de altíssima qualidade e originalidade do escritor perpassam, inquestionáveis, sobre toda essa produção poética de altíssima qualidade

Ao mesmo tempo e em paralelo, pela sua obra ficcional, toda ela imersa numa linguagem essencialmente poética e de marca local (os espaços de Angola e do Sul) atinge um patamar literário e estilístico de qualidade muito acima do comum e, para mim, merecedor, há muito tempo, dum prémio literário internacional e falo duma candidatura nacional ao Prémio Nobel.
Pois bem. O que enforma a obra deste extraordinário escritor não é mais do que uma visão do mundo, da história, dos acontecimentos, a partir dum ponto de observação colocado no Sul, em Angola e no Atlântico.
Quando, pela ação narrativa, um qualquer personagem se posiciona próximo dum pensamento retrógrado ou colonialista, por exemplo, logo Manuel Rui o ridiculariza com a sátira inteligente, aliada à ironia cortante e ao humor desgastante e faz reviver o repúdio por essas atitudes estúpidas de imposição de estereótipos.

A sua obra literária coloca-se, pois,  no Sul e Angola é o centro onde bebem e donde irradiam todos os personagens verdadeiramente importantes: Ruca e Zeca (Quem me dera ser Onda) são o espelho da esperteza do luandense e desmascaram os comportamentos sociais desviantes; Noíto (Rioseco) é a exaltação da mulher angolana, ligada à mais antiga tradição matriarcal, sábia, autêntica, mística; Sónia (Janela de Sónia) a linda moça em comunhão com a natureza do planalto, significa a pureza das intenções na recofiguração dum "país novo”; Alfredo e Vander (O Manequim e o Piano) são dois ex-militares que desejam, igualmente,  construir uma nova Angola, finalmente liberta dos escombros da guerra; Maria (que se transforma em Citula) (A Trança) é a linda mestiça de olhos verdes que vem da Europa para ver nascer o seu avô no Planalto angolano, que xinguila e assim recupera um pensamento do Sul, livre, natural, e sem preconceito, como forma de energia vital; Zito, o alter-ego de Manuel Rui (Travessia por Imagem) percorre o Atlântico e encontra em Cuba ou no País Basco, ou em Angola, "as subtis, aparentemente submersas, partículas culturais afins” que interligam angolanos com cubanos, brasileiros, mexicanos, uruguaios, bascos, portugueses, catalães e outros, através da dança, da música, da mesa, da arte, de escrita e do amor; Tanu e o grupo de guerreiros Elavoco (Kalunga) vão, no século XVII, ao Brasil para resgatar os pais de Tanu que foram levados para ali como escravos e é o início da história ficcionada da luta dos angolanos contra a escravatura e pela independência. Nos intervalos de todas estas publicações surgiram inúmeras outras obras onde se denotam todas as características do autor. São tantas e tão diversas nos seus objetos que não cabe aqui referenciá-las, por falta de espaço.

A "teoria abissal” de Boaventura de Sousa Santos, grande amigo e colega de curso de Manuel Rui, descreve que existem dois tipos de pensamento a dividirem o mundo: este lado da linha (do Norte, pensamento eurocêntrico, colonialista, preconceituoso, que só aceita a sua forma de racionalidade que fundamenta a ciência, a lei e o Estado e que combate o pensamento diferente da mainstream) e o outro lado da linha, (do Sul, pensamento que admite outras racionalidades, mais ligadas à tradição, à natureza e que aceita outras dimensões cognitivas e dá relevo à sensibilidade). Este é o pensamento do mundo que foi subalternizado, colonizado, humilhado, explorado, o Sul e é neste Sul que toda a obra de Manuel Rui se desenvolve.

É pois, pelos caminhos das "Epistemologias do Sul”, dum saber ecológico e próximo da natureza e do humanismo que desfilam os enredos tecidos entre os personagens de Manuel Rui. É através dessa redescoberta do escondido e/ou quase apagado, ou como refere Boaventura Sousa Santos, essa "ecologia de saberes” e "sociologia das ausências” que Manuel Rui nos induz a entendermos o pensamento angolano e o pensamento dos povos do hemisfério Sul, o pensamento do Sul.

Não existem culturas estanques, paradas, fixas numa ficção da história, como referem todos os pensadores pós-coloniais, e as culturas são continuamente transformadas, "transculturadas” pelas fronteiras e pelo efeito da deslocação massiva das populações e/ou pela teledifusão  dos recursos informáticos das plataformas mais diversas, avassaladoras.
Mas as culturas vão-se enriquecendo, transformam-se, recebem e fornecem elementos que rejeitam a monocultura e o tratamento discriminatório.

A globalização não é facto consumado, abrindo lugares de diferença, localizações que permanecem avessas à cedência indiscriminada. Esses são os lugares das  epistemologias atlânticas, das epistemologias do Sul, os espaços por onde Manuel Rui se desloca na sua obra portentosa.

O pensamento do Sul, na obra de Manuel Rui, é este pensamento positivo, da vontade de fazer bem, com o recurso a modelos que não desprezem proximidade da natureza nos processos de construção da modernidade, como forma de ultrapassar o conflito entre "este lado” e o "outro lado”.

Ele encara a literatura como o quebrar das fronteiras, porque, como escreve, nas naus atlânticas, com escravos e marinheiros sem liberdade, viajavam as palavras e "todos iam nessa maneira de conhecer o ledo luto do outro lado do mar em tanta dúvida que o mar tivesse lado. Penso que o mar não tem mesmo lado. Tudo dependendo da navegação.”
 "A viagem das palavras é sempre bonita”  e no pensamento do Sul o futuro tem lugar.
  Citações de "Travessia por Imagens”.

*Doutor em Sociologia: Pós-colonialismos e Cidadania Global, mestre em Lusofonia e Relações Internacionais, licenciado em Filosofia e Humanidades. Investigador, ensaísta, escritor e humorista. Foi Adido Cultural em Luanda, Luxemburgo e Bruxelas.

Luís Gaivão*

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