Opinião

Histórias filosóficas e filosofias da Rússia contemporânea - IV

Luís Kandjimbo |*

Escritor

O relativo fracasso da iniciativa de paz do Presidente ucraniano Volodymyr Zelinski suscita interesse no contexto da conversa que temos vindo a desenvolver sobre a filosofia russa contemporânea. Neste caso, pode dizer-se que, contrariamente ao que vem nos livros do Ocidente, o raciocínio dialéctico não parece ser a matriz do pensamento político dos líderes ocidentais. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desafiou os líderes europeus e norte-americanos, ao formular uma proposta para o fim da guerra na Ucrânia. Percebe-se que, neste momento, a polarização entre o Ocidente e a Rússia inspira-se, em maior ou menor medida, nas filosofias políticas e filosofias das relações internacionais subjacentes aos discursos políticos. Por isso, nós preferimos ir para lá das convicções que constituem o capital intelectual dos líderes. Preferimos relacionar o estado de coisas com a história do pensamento contemporâneo russo. Vamos seguir os traços de Vladimir Veniaminovich Bibikhin (1938–2004), um filósofo russo que levou a sério a necessidade de dialogar com o Ocidente

23/06/2024  Última atualização 11H05

Paradoxo do Ocidente

O relativo fracasso da iniciativa de paz do Presidente ucraniano Volodymyr Zelenski parece ter sido prognosticado pelo historiador e antropólogo francês Emmanuel Todd, no seu recente livro "La Defaite de l’Occident” ( A Derrota do Ocidente).Quanto a mim, o cerne deste polémico livro reside na identificação do paradoxo do Ocidente porque, no entender de Todd, a acção militar da Rússia conduz à crise no Ocidente. Está-se em presença do confronto de "duas mentalidades”, escreve o historiador francês. De um lado, está o realismo estratégico dos Estados-nação. No lado oposto, situa-se a mentalidade pós-imperialde "um império em desintegração”. Daí deriva a dialéctica em que se analisa a russofobia e a ocidentofilia.

 
Ocidentofilia russa

O Ocidente de que fala Emmanuel Todd não acredita na potência criativa e intelectual da Rússia, na medida em que o isolamento do pensamento filosófico russo e a presumível eficácia das sanções económicas transmitem a ideia de a Rússia não se interessa pelo  pensamento filosófico Ocidental. A ilustração disso, tal como anunciámos, pode ser encontrada através da leitura dos textos de Vladimir Bibikhin e Alexander Duguin. A vontade que conduz ao permanente diálogo com o Ocidente pode ser identificada nesses dois autores russos cujas obras convocam como interlocutor o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Bibikhin e Duguin pertencem a gerações distintas. As publicações dos seus livros ocorrem num intervalo de três décadas, acrescendo a diferença das suas idades.

No seu seminal livro "The Philosophy of Another Beginning”, (A Filosofia de um Outro Começo), Alexander Duguin dá uma perspectiva histórica da filosofia russa contemporânea, quando refere à "Escola Heideggeriana” do período pós-soviético, formada por um grupo de filósofos cujo fundador e líder foi Vladimir Bibikhin, que se distinguiu pela actividade hermenêutica e filosófica, explorando a obra de Heidegger. Nessa época as traduções da obra do filósofo alemão circulavam clandestinamente na rede dos "Samizdat”, publicações informais clandestinas e proibidas. Contudo, já não se compreende o alcance das críticas de Duguin a essas traduções que contribuíram para a divulgação do pensamento e da obra de Heidegger na Rússia. Duguin considera, por exemplo, que o grupo fundado por Bibikhin não trouxe nada de novo. Além das traduções e da paixão pela obra de Heidegger, era difícil, através dessas traduções, compreender o pensamento do filósofo alemão. Tudo acontecia como se tal actividade apaixonada constituísse um completo absurdo, concluía Duguin. Semelhante iconoclastia parece excessiva. É que a vida e a obra de Bibikh infornecem as provas do contrário.

 
Quem foi Vladimir Bibhikin?

Vladimir Veniaminovich Bibikhin (1938–2004) nasceu em Bezhetsk. Formou-se no Instituto Pedagógico Estadual de Línguas Estrangeiras Maurice Thorez de Moscovo, designada mais tarde por Universidade Linguística Estadual de Moscovo. Prosseguiu os estudos de pós-graduação no Departamento de Filologia da Universidade Estadual de Moscovo, tendo defendido, em 1977, a sua tese de Doutoramento, com o título "As Potências Semânticas do Signo Linguístico”.Nesse período, foi durante algum tempo assistente do professor e filósofo Aleksei Losev (1893–1988), considerado como a última figura clássica do pensamento religioso russo da Idade de Prata. Bibikhin esteve vinculado ao Instituto de Filosofia da URSS/Academia Russa de Ciências, entre 1972 e 2004, sendo responsável pela tradução e publicação dos mais recentes trabalhos de filosofia e filologia de que se tinha notícia fora da URSS/Rússia. Foi, ao longo de vários anos, docente de teoria da tradução e cursos de línguas estrangeiras, em várias universidades de Moscovo.

 
Obra filosófica

Em 1989, Bibikhin ocupou a posição de palestrante no recém-criado Instituto de Teoria e História da Cultura Mundial, adstrito ao Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Moscovo, onde trabalhou durante catorze anos, até 2003, tendo ministrado cerca de vinte cursos. Tornou-se conhecido pelo seu estilo de filosofar e variedade de tópicos que abordava. Combinava uma diversidade de títulos. Tais são, por exemplo: "O Mundo”, "A Forma Interior da Palavra”, "A Linguagem da Filosofia”, "Wittgenstein: Mudança em/de Aspecto”, "A Propriedade e sua Filosofia”, "A Gramática da Poesia”, "Energia”, "Filosofia do Direito”, "Os Diários de Leo Tolstoy”.Uma boa parte desses textos deram lugar a livros. Embora existam no Ocidente autores que se dedicam ao estudo da obra de Vladimir Bibikhin, o certo é que as traduções são escassas. Por maioria de razão tal escassez ocorre também em língua portuguesa.

É vasta a sua obra filosófica publicada em russo. Durante as décadas de 70 e 80 do século XX, paralelamente, revelou-se uma voz incontornável, no domínio da tradução da filosofia, da teologia e da literatura ocidentais, entre os quais se destaca a obrado filósofo alemão Martin Heidegger com que começou a ocupar-se em 1974, traduzindo uma das suas obras mais importantes, "Ser e Tempo”, em russo. Os especialistas do legado de Heidegger em língua russa são unânimes em reconhecera singularidade do diálogo, apesar de a narrativa a respeito comportar relatos sobre a censura dominante no território da União Soviética, inicialmente. Como já referimos Heidegger era lido na clandestinidade, longe dos olhares censórios das instituições de controlo, selecção e distribuição de discursos.

 
O acontecimento

Alguns anos depois de1989, quando foi publicado o livro "Beiträge zur Philosophie (Ereignis)”, (Contribuições para a Filosofia do Evento), Vladimir Bibikhin elegeu dois tópicos, "contribuições” e "o evento”, de que passou a ocupar-se. E na obra colectiva já mencionada, "Heidegger in Russia and Eastern Europe”, 2017 (Heidegger na Rússia e na Europa do Leste) cujo editor é Jeff Love, há um capítulo da autoria de Bibikhin, "From Being and Time to the Beiträge”, (Do Ser e Tempo aos Contributos).  Trata-se da versão resumida do texto com base no qual, em 2004, ele orientou um seminário realizado um mês antes da sua morte. Tematiza o outro começo em  "Beiträge”, tal como lhe parece ter sido desenvolvido na obra de Heidegger.

Esse título, Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis), (Contribuições para a Filosofia do Evento) constitui a segunda obra principal de Martin Heidegger, como a classificou Vladimir Bibikhin. Recorda as palavras enunciadas por Heidegger em carta dirigida a Jean Beaufret, onde se lê: "A partir de 1936, "Ereignis” é a palavra que orienta o meu pensamento”.Em versão traduzida, a palavra "Ereignis” significa evento. Pois o pensamento de Heidegger não é um acontecimento, porque ele não pode precipitadamente afirmar que é o Evento único. Por isso, o livro não explora as contribuições pessoais de Heidegger para a filosofia. Perscruta as potencialidades da filosofia do evento. De resto, é a interpretação da filosofia, enquanto acontecimento que Vladimir Bibikhin empreende. Esta é a razão por que considero excessiva a iconoclastia de Alexander Duguin, um filósofo da segunda metade do século XX, quando se propõe avaliar a qualidade do diálogo com o Ocidente desenvolvido pela geração de Vladimir Bibikhin. À posição de Duguin está subjacente o fundamento da sua reflexão no livro com o título: "Heidegger. The Philosophy of Another Beginning”, (Heidegger. A Filosofia do Novo Começo).

 
Idolatria

Alexander Duguin manifesta uma profunda idolatria por Martin Heidegger. Começa por transformá-lo em "autor fundamental”. Por essa razão, considera-o como indispensável "para qualquer um que viva no mundo de hoje”. Merecendo o tratamento de "maior pensador contemporâneo, juntando-se à constelação dos melhores pensadores da Europa, desde os pré-socráticos até o nosso tempo”. Esses louvores que Duguin presta a Heidegger atinge o mais alto nível quando a Heidegger ele confere a medalha do"grande filósofo da história mundial”. Assim, no entender de Duguin, ele ocupa um lugar "especial e exclusivo na história da filosofia”.

 
Outro Começo

Inequivocamente, Alexander Duguin pretende afirmar-se como o melhor intérprete da obra de Heidegger cujo centro é exactamente o que Heidegger designou como "outro começo” ou  "segundo começo”. É sabido que o livro "Contribuições para a Filosofia do Evento” representa o início da teorização de Heidegger sobre o "Evento”. No entanto, há um conjunto de textos sobre o tópico. "O Evento” tradução de "Das Ereignis”, escrito em 1941-42 é outro livro de Martin Heidegger desta série, publicada postumamente. Estamos a referir-nos ao sexto livro do total de sete reflexões inauguradas pelas "Contribuições para a Filosofia do Evento”.

Para Alexander Duguin o "novo começo” legitima o tempo da sua geração como o marco a partir do qual a Rússia se inicia no diálogo com o Ocidente. Para o efeito aponta três critérios: 1) Esgotamento do processo histórico-filosófico do homem europeu; 2) Reconhecimento da vontade de poder, valores, visões de mundo, com os quais se opera o conceito do Ser, não equivalendo o Ser, por força de uma cisão, aos seres incorporados no homem-filósofo; 3) Vontade de pensar filosoficamente e os riscos associados a que conduza dignidade humana do homem como portador de maior liberdade.

 
Intérprete competente

Aos olhos do filósofo canadiano Michael Millerman, a publicação de "Martin Heidegger: A Filosofia de Outro Começo”, qualifica Dugin como um competente intérprete do pensamento de Heidegger. Michael Millerman sustenta que os livros publicados na primeira década do século XXI, em que se destaca a obra mencionada de Martin Heidegger: "A Possibilidade da Filosofia Russa”,assinalam a existência de uma"análise civilizacional filosófica”, suportada por uma tese da pluralidade existencial de múltiplos povos que são diferentes "não apenas na superfície, mas em sua relação básica com o ser”. Michael Millerman vai mas longe. Eleva Dugin atribuindo-lhe méritos, em virtude de ter assumido a tarefa de "entender culturas individuais como expressões de uma fundação existencial mais profunda e como raízes da verdade”.Neste sentido, defende o ponto de vista segundo o qual "o heideggerismo de Duguin indica uma alternativa filosófica genuína, relativamente às propostas de Leo Strauss (1899-1973).

 
Necessidade e possibilidade

Estes são dois conceitos que concorrem para a adesão de Duguin às teses de Martin Heidegger. No dizer do filósofo alemão, a "necessidade está enraizada em uma situação difícil. A filosofia revela a sua necessidade em situações extremas que impulsionam os humanos e os trazem pela primeira vez a si mesmos.

O problema da possibilidade da filosofia russa merece a atenção de Duguin à luz de uma perspectiva de Heidegger ao abrigo da qual estabelece uma conexão entre a filosofia  e o  povo. Por outro lado, admitir a existência da filosofia é operar com pressupostos segundo os quais "pode haver filósofos mesmo na ausência de filosofia na cultura de um povo”. Para Duguin os representantes individuais de um determinado povo podem ser inscritos na tradição cultural e filosófica de outro povo que tenha tal tradição. Isto significa dizer que é possível falar da existência de filósofos sem tradição filosófica. Em Heidegger, a fonte de inspiração de Duguin, a filosofia de um povo não pode ser prevista ou prescrita com base em algum tipo de aptidão ou capacidade natural desse povo. Em contrapartida, é a pensar sobre filosofia e sua relação com um determinado povo que se vai instaurar a ordem filosófica, definindo-se a filosofia como dispositivo ao serviço da verdade e do povo. Essas são as ressonâncias heideggerianas na obra de Alexander Duguin.

 
Conclusão

A dialéctica que se manifesta na oposição entre a russofobia e a ocidentofilia permite concluir que não se traduz em qualquer tipo de relação simétrica entre a Rússia e o Ocidente. A este respeito, o interesse não é recíproco. A russofobia é filha do medo do Ocidente perante o outro russo. Isto quer dizer que, apesar do potencial de conflitualidade, a Rússia resiste à tentação de proceder à acumulação do conhecimento do Ocidente, sem dele retirar proveito. Esta é a razão por que considero excessiva a iconoclastia de Alexander Duguin.  Por conseguinte, o diálogo empreendido na clandestinidade pela geração de Vladimir Bibikhin impulsiona a fuga aos tipos de narcisismos que devastam o Ocidente, em nome da democracia liberal. Ora, tenho particular interesse pelos diálogos interfilosóficos reais e potenciais, no contexto global. A propósito das relações que se estabelecem, a este nível, entre a Rússia e o Ocidente, há intersecções com o campo filosófico de África.  Na próxima conversa, vamos também esboçar a exploração dos cruzamentos que se registam entre as filosofias africanas e a filosofia russa.

 

Ph.D. em Estudos  de Literatura; M.Phil, em Filosofia Geral

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