Opinião

Histórias ao adormecer

Faltava pouco para a meia-noite. Eu ia tranquilamente para casa, a pé, ansioso por adormecer, dois dias depois do acto eleitoral.

18/09/2022  Última atualização 09H08

O quadro de resultados provisórios era conhecido. Vitória de uns por 51% e derrota para outros, por escassos 44%. Mas, tal como já tinha acontecido há 30 anos,  mantinha-se uma polémica à volta da fiabilidade dos resultados. A pessoa que me acompanhava dizia que é assim em quase todos os países africanos: "Quem está no poder ganha e quem está na oposição acusa o vencedor de cometer fraude, além de outros epítetos que o eleitorado adora ouvir...”.

E, fiz-lhe uma pergunta que não era ingénua:

- Porquê que se exige tanta qualificação e concursos para cargos na função pública, mas nada se exige para se ser político  quando estes são Servidores Públicos número um?

A resposta fez-me calar:

- Para seres político, basta saber mentir ou simular!

Atrás de nós, um jovem na casa dos 30 anos também fazia o show da noite, perante outros transeuntes e espectadores que terão gostado de ouvi-lo: "Quando o meu partido ganhar as eleições, todos os que hoje são mandados, vão ser chefes!”, gritava ele em voz alta.

O foco da noite não era a declaração deste ou daquele, mas a contagem fiel dos 14 milhões de votos esperados e o seu apuramento final. "Ganhe quem obtiver mais votos e respeite-se a vontade dos eleitores!”. Tudo parecia simples à partida, mas a prudência e o jogo de interesses aconselhou um olhar para a História.

Passava já da meia noite quando entrei em casa. O hábito de ouvir noticiários e debates ao fim de semana era religioso. Quanto mais não fosse para apreciar os golos dos campeonatos mais competitivos do mundo do futebol e também as grandes surpresas, como um CR7 sentado no banco de suplentes!

Mas, as eleições dominavam tudo e todos e era sobre resultados eleitorais que mais se falava. Um célebre jornalista falava, desde Washington, com a imagem imponente do Capitólio, ao lado. "Estas eleições de 2022, em Angola, decorreram sem irregularidades”, disse ele. E recordou o passado: "em 1992, alguém tinha rejeitado os resultados que deram a vitória ao rival porque não o respeitava suficientemente para o declarar vitorioso…” Limitei-me a abanar a cabeça.

As eleições angolanas de 1992 tinham tido a supervisão internacional que alguns queriam pedir novamente e, mesmo assim, deram no que deram. "Melhor mesmo, é ir dormir”, pensei antes de tomar banho.

Mas enquanto me encaminhava para o duche refrescante da noite, as imagens da TV também correram. Um rosto já conhecido dava a cara para contestar os resultados. Não era a primeira vez. A memória dizia-me que já o tinha feito, naquele ano de 1992. Era 30 anos mais novo e mais charmoso do que hoje. E era tão charmoso, recordo-me, que a maioria das meninas da cidade alimentavam fofocas sobre ele. Diz-se que acontece o mesmo em países democráticos, como França, Itália ou Suécia. Eleitores indecisos, fora da rígida disciplina e do controlo das máquinas partidárias, votam nas melhores aparências.

Com a toalha enrolada ao pescoço, continuei de pé apreciando aquele filme. A luta pelo poder estava a ser emotiva, e só pedia que ninguém optasse pela violência. Os eleitores pareciam empolgados com as intenções dos seus candidatos e partidos num quadro que era difícil: 30,2% de desemprego, 113% de inflação, 44% de pessoas em situação de extrema pobreza e 55% de abstenções! Ninguém queria continuar assim. Quem votou, sabia o que queria: uns mudança, outros alternância. Uns diziam-se duramente castigados pela abstenção, outros pelo passado que ainda deixava cicatrizes, apesar das feridas curadas e da paz e reconciliação falarem mais alto. Alguns têm pressa, mas a mudança de mentalidade não é repentina. Talvez em 2027 venha a ser diferente. Talvez! A construção de uma nação, já haviam dito os antigos romanos, em relação a Roma e Pavia, é um processo complexo e não se faz num dia!

Mas nem todos pensavam assim. Num país distante, ao qual gosto de chamar de "Por tu, Ghali”,  a brincar, numa alusão à rude influência árabe na História da sua civilização, fazia-se eco de vozes pouco interessadas na estabilidade de Angola! O desdém com que olhavam para aqui era notório:

"Angola é uma ditadura!”, diziam figuras "proeminentes” na política e no jornalismo independente. Era o caso de um jovem cujo nome pouco interessa, mas cujas ideias daninhas circulam, para não dizer muito mais...

E falam-se de outros conflitos que o "Por tu, Ghali” de hoje segue com mais atenção e interesse! Fala-se da Ucrânia. "Por tu, Ghali” merece elogios por ter enviado o seu ministro dos Negócios Estrangeiros até Kiev para dar apoio a Zelensky no dia da sua independência nacional, mas fez mal em marcar presença em Luanda para as cerimónias fúnebres de José Eduardo dos Santos, dizia o comentador macabro! Aquele indivíduo  falava de Angola em termos de uma "Ucranização” para uns e de uma "putinização” para outros? Incrédulo, levo as mãos à cabeça.  Felizmente, em Angola há gente com cérebro e com memória fresca que pergunta: Quando o apartheid invadia os países africanos da Linha da Frente quantas declarações de apoio vieram desse tipo?

Tomei banho, desliguei a TV e fui dormir com lição estudada: a democracia é uma aprendizagem universal e contínua, mas a política de muitos mais parece um jogo sectário para tomar o poder.


Tazuary Nkeita

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião