Reportagem

História da indústria que transformava a cana em açucar mascavado

Sampaio Júnior | Benguela

Jornalista

O mês de Maio convoca a memória colectiva dos benguelenses para Sociedade Agrícola do Cassequel, a primeira grande unidade agro-industrial de produção de cana e fabrico de açúcar do país.

14/05/2022  Última atualização 08H30
Cana de açucar © Fotografia por: Arquivo

Implantada entre 1904 e 1913, em Benguela, a Sociedade Agrícola da Cassequel é nacionalizada em Maio de 1976, um ano depois da Independência Nacional, passando a chamar-se, Açucareira 1º de Maio, em alusão ao Dia Internacional do Trabalhador.

Pouco tempo depois, a Açucareira 1º de Maio dava lugar  à OSUKA, Empresa Regional Sul de Açucareiras, que aglutinava unidades agro-industriais, como a Catumbela e Dombe Grande.

Carlos Vargas, um catumbelense (natural da Catumbela), que conheceu a Sociedade Agrícola do Cassequel, conta que a derrocada do empreendimento começou com a fuga dos técnicos para o exterior do país, nos anos que se seguiram à Independência.

Conta que o país, na tentativa de salvar o empreendimento, contratou técnicos cubanos para dar suporte técnico ao projecto, numa altura em que, afinal, os equipamentos já estavam em avançado estado de desgaste.

O cenário viria a agravar-se na década de 80, com  o sector da refinação do açúcar a trabalhar a meio gás. Entretanto, o futuro reservava  mais dissabores para os benguelenses e para o país em geral, com o reacender do conflito armado a inviabilizar todos os esforços de recuperação do projecto, empurrando as autoridades para a importação de açúcar.

A modernização era medida determinante para manter a indústria competitiva e reduzir os riscos de prejuízos por paralisações  inesperadas de produção que demandariam um tempo incalculável  para o restabelecimento.

A fábrica era muito antiga e a modernização dos processos produtivos impunha-se, o que não aconteceu. Com o passar do tempo, os campos agrícolas para o cultivo da cana de açúcar foram extintos.

Alguns talhões viriam a ser reaproveitados mais tarde, para dar lugar a outros empreendimentos, como os aeroportos Militar e o Internacional da Catumbela.

José António, outro catumbelense, recorda os momentos áureos da Açucareira do Cassequel, onde seu pai e maior parte dos pais dos seus amigos trabalharam. " Em período de refinação do açúcar toda a vila cheirava a melaço" lembra com nostalgia. "Se fosse como nos últimos anos em que facilmente se adquire diabetes, os nossos níveis de açúcar no sangue estariam elevados”, ironizou.

Lembra que, antes, a cana recolhida era queimada no campo e depois transportada de comboio, das Bimbas para os campos do Lobito e Catumbela, de onde  eram transportadas em camiões.

Éramos miúdos, que nos juntávamos a outros vindos do Lobito e faziamos romarias para recolher cana queimada, que chamávamos de (bangança) devido ao sabor que trazia de queimado que quase sabia a bagaço, bebida espirituosa.

 A rapaziada não estava nem aí para os riscos que corriam ao pendurar-se nos camiões ou nas carruagens do comboio que faziam os transporte da cana, lembra.

A Catumbela foi no passado uma reserva de plantações de cana-de-açúcar, numa extensão que ia do burgo ao bairro da Graça, em Benguela, ao longo do troço da Estrada Nacional nº 100, que liga o Lobito à capital da província.

A açucareira possuía  cerca de cinco mil hectares de terra. Nos tempos áureos, produzia, em média, 45 mil toneladas de açúcar por ano.

Actualmente, parte dos espaços pertencentes à antiga Sociedade Agrícola do Cassequel estão sob tutela do Polo de Desenvolvimento da Catumbela.

A paralisação da Açucareira da Catumbela trouxe, como consequência, o "abandono” de todos os canais das águas de rega do vale, incluindo as comportas anti-maré da Praia do Bebé e da Cabaia, que fazem a ligação sistémica (estilo vasos comunicantes) com os canais de drenagem do Lobito,com os mangais da Caponte e com a Baía.

A Sociedade Agrícola do Cassequel tinha entre a mão-de-obra um número significante de cidadãos cabo-verdianos, que vieram a  Angola em busca de melhor qualidade de vida.

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