Cultura

“Herói” do filme “Hotel Rwanda” condenado a 25 anos de prisão

Paul Rusesabagina, o homem que foi retratado num filme como um herói que salva vidas durante o genocídio no Rwanda foi ontem condenado a 25 anos por terrorismo num tribunal do seu país, considera-do culpado de apoiar um grupo rebelde que matou civis em ataques em 2018, revela a BBC.

21/09/2021  Última atualização 09H20
Paul Rusesabagina com o actor norte-americano Don Chadle que o representou no filme “Hotel Rwanda” © Fotografia por: DR
Rusesabagina, agora com 67 anos, passou de figura célebre no seu país, para inimigo do Estado, à medida que aumentavam as suas posições críticas ao Governo. No filme "Hotel Rwanda”, candidato a um Óscar, a figura de Rusesabagina foi interpretada por Don Cheadle, num papel como gerente de hotel que conseguiu proteger mais de mil pessoas que ali procuravam abrigo, no auge do genocídio que custou a vida a mais de 800 mil pessoas.


Após o lançamento do filme, em 2005, as críticas ao governo pós-genocídio e ao Presidente Paul Kagame levaram-no para a cena política. Vivendo no exílio, passou a liderar uma coligação da oposição, que tinha uma ala armada - a Frente de Libertação Nacional (FLN).


A FLN foi acusada de reali-zar ataques em 2018, nos quais as autoridades disseram que nove pessoas foram mortas. A família de Rusesabagina disse que ele foi sequestrado e levado à força para o Rwanda no ano passado.


No tribunal, uma testemu-nha falou sobre como conseguiu enganar Rusesabagina num avião no Dubai, dizendo-lhe que estava a embarcar para o Burundi. Agora que foi considerado culpa-do, continuará preso a aguardar pela leitura da sentença e saber quantos anos de cadeia ficará condenado.

Opositor de Kagame acusado de estupro


Num outro processo, o professor da Universidade do Rwanda e conhecida figura da oposição, Christopher Kay-umba, foi ontem detido e acusado de estupro, disse a polícia. Kayumba enfrenta acusações de várias pessoas, incluindo um ex-aluno, de acordo com o Rwanda Investigation Bureau (RIB), citado pela Efe.


Especialista em jornalismo, Kayumba, 48 anos, dirige um jornal online chamado "The Chronicles" e criou em Março um partido político de oposição ao Presidente Paul Kagame.


Kayumba foi condenado a um ano de prisão por "perturbação pública" depois que a segurança do aeroporto se recusou a permitir que viajasse para Nairobi, em Dezembro de 2019. Na altura, as autoridades disseram que ele apareceu no aeroporto tarde e bê-bado e que ameaçou fechar as instalações. Em Junho, outro professor universitário, Aimable Karasira, que criticou Kagame no YouTube, foi acusado de "revisionismo" e ainda está detido.


Há uma semana, o músico rwandês Jay Polly, detido desde Abril depois de ter sido preso durante uma festa proibida onde foram encontradas drogas, morreu em circunstâncias indeterminadas no hospital para onde tinha sido transferido.


Polly, um "rapper" cujo verdadeiro nome é Joshua Tuyishimiye, chegou ao hospital por volta das 03:00 desta quinta-feira, disse à AFP Pascal Nkubito, director do Hospital Muhima, na capital do Rwanda, Kigali. "Ele estava em estado crítico e inconsciente. Os médicos tentaram reanimá-lo, mas infelizmente morreu pouco depois. Foi declarado morto por volta das 03:30 da manhã", explicou a mesma fonte. "Não quero especular sobre a causa de morte. Saberemos após a autópsia", acrescentou ainda.


Joshua Tuyishimiye, 33 anos, foi preso em Abril último em sua casa com várias outras pessoas, durante uma festa.   
que o músico organizava. As festas são estritamente proibidas no Rwanda devido a restrições impostas no quadro da covid-19. As pessoas detidas nessas circunstâncias são obrigadas a passar uma noite em estádios, onde são transmitidas instruções relativas à covid-19 através de altifalantes, ou são simplesmente detidas.


A polícia rwandesa fez saber que Joshua Tuyishimiye e convidados seus foram encontrados "a beber e a abusar de drogas". "Entre os infractores encontravam-se também três cidadãos estrangeiros, que foram encontrados com falsos certificados de teste covid-19 negativos", indicou o porta-voz da polícia, John Bosco Kabera.


Os rwandeses estão a prestar homenagem ao cantor, nomeadamente nas redes sociais, onde é aclamado como um "ícone cultural" do país. Outro músico, Kizito Mihigo, morreu na prisão em Fevereiro de 2020. Cantor gospel, Mihigo era conhecido por ser um crítico feroz do governo rwandês, que tinha proibido a sua música. Foi encontrado enforcado na sua cela. A polícia indicou que havia cometido suicídio.


A ONG Human Rights Watch (HRW) apelou à abertura de uma investigação independente, um apelo que foi rejeitado pelas autoridades rwandesas. Mihigo, que foi condenado a dez anos de prisão em 2015 por conspirar contra o Governo, para depois ser libertado, tinha sido preso por tentar atravessar a fronteira sul do Rwanda para o Burundi.

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