Entrevista

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Hermínio Escórcio: O MPLA tinha um Plano B, mas preferiu pôr de lado

Hermínio Escórcio considera que divergências de natureza ideológica, visão tribal e racial defendida por uns em oposição ao MPLA, assim como os efeitos da Guerra Fria, estiveram na base dos desentendimentos entre os três movimentos de libertação. Sublinha que o MPLA tentou, diversas vezes, dialogar com os adversários para obtenção de consensos, mas sem sucesso. Director do Protocolo e Património da Presidência da República entre 1975 e 1979, Escórcio revela que o o seu partido tinha um Plano B, que consistia na proclamação da Independência antes do dia 11 de Novembro, mas preferiu não avançar com a ideia porque “corríamos o risco de não sermos reconhecidos”.

11/11/2020  Última atualização 14H00
© Fotografia por: Vigas da Purificação | Edições Novembro
O senhor faz parte da geração da Independência. Como descreve os momentos que antecederam àquele acontecimento? 
 Quando eclodiu o 25 de Abril, encontrava-me preso na Foz do Cunene. Duas semanas depois, liberto, cheguei a Luanda no dia em que, coincidentemente, teve lugar no Campo de Hóquei do Clube Nuno Álvares, um comício organizado pelo Movimento Democrático de Angola – MDA. A PIDE ainda estava activa e, por esta razão, por precaução, fiquei em casa a conversar com o falecido Higino Aires, mas aquele comício haveria de ficar marcado pela exibição da bandeira do MPLA pelo camarada Faria, que é economista e professor universitário. Esse comício, que teve a cobertura de inúmeras agências noticiosas, coincidiu com a retomada do apoio à guerrilha do MPLA que havia sido retirada depois do surgimento das Revoltas Activa e do Leste.  E como foi o dia 10 de Novembro, véspera da data da Independência?  

No dia 10 de Novembro estávamos  no Futungo de Belas  quando o Presidente Neto decide interromper uma reunião do Comité Central do MPLA para ordenar a minha ida ao Palácio. Porquê? Porque era preciso fazer face a saída precipitada dos portugueses que haviam abandonado o Palácio em direcção à Marinha onde os esperava um Cruzador de Guerra. Esse Cruzador fez-se ao largo tendo abandonado as nossas águas territoriais exactamente as 00h00 do dia 11 de Novembro quando o Presidente Neto proclamou a Independência...  Uma situação inesperada... 

De certa forma, mas perante isso, não perdi tempo e dirige-me à nossa delegação na Vila Alice para mobilizar um pelotão das FAPLA para assegurar a guarnição do Palácio onde se encontrava o Gaspar, o mordomo que me entregou as chaves do Palácio e fez-me uma visita guiada ao seu interior. Aproveitei a presença dele para o orientar a acender todas as luzes do Palácio, incluindo as do Salão Nobre, antevendo que o Presidente, depois da euforia que se viviria com o acto da proclamação da Independência, pudesse lá ir para brindar com alguns convidados.  E como se fez o hino?  

Foi no bairro do Saneamento, em casa do Rui Monteiro, que fez a letra e o Rui Mingas que a musicou. Depois, o Mingas foi para a Rádio Nacional chamou o Lamartine e outros e fizeram o ensaio geral. Foi assim que tudo aconteceu.  E quanto à bandeira?  

Foi o Onambwe que concebeu a bandeira e os símbolos. Quem fez a bandeira foi a Joaquina - funcionária do Departamento de Quadros do MPLA chefiado pela Ruth Lara - e a irmã Cici, a viúva do Couto Cabral, meu companheiro de militância clandestina e de prisão.  Houve outros preparativos...  

Depois de arrumado o Palácio, fui até ao largo 1º de Maio para verificar como é que estava engalanada a Tribuna de Honra e se o mastro da bandeira estava no lugar certo. Na posse do discurso base da proclamação da Independência, que me foi entregue pelo Paulo Jorge, fui levá-lo ao Presidente Neto que fez os acréscimos que achou necessário e as 23h00 partimos para a Praça da Independência.  Que figuras estavam na tribuna quando se proclamou a Independência? 

Lembro-me como se fosse hoje, eu estava ao lado do Presidente Neto. Ao nosso lado estavam também os camaradas Iko, Luís de Almeida, Lopo, Lúcio Lara, Nito Alves, Paulo Jorge, Marcelino dos Santos, Pinto da Costa, Óscar Monteiro, Onambwe e outros membros do Comité Central e convidados. 

A proclamação da Independência ocorre num momento particularmente difícil. As forças do ELNA estavam a menos de 60 quilómetros de Luanda. Qual era o Plano B se o ELNA tomasse a capital? 

O Plano B era proclamar a Independência antes do dia 11 de Novembro,mas ao avançar com esse plano, corríamos o risco de não sermos reconhecidos pela comunidade internacional. Preferimos mantermo-nos fiéis ao estabelecido nos Acordos de Alvor e, minutos depois de termos proclamado a Independência, começavam a aterrar em Luanda aviões que estavam em Brazaville e Ponta Negra, que traziam o apoio militar soviético. Foi uma noite verdadeiramente memorável!  Angola é dos poucos países do mundo que proclamou a Independência à noite. Porquê?  

Porque o 11 de Novembro começava as 00h00 e ao colonialismo não queríamos dar nem mais um minuto!  Como viveu aquele momento?  

Rejubilava de emoção e de felicidade por termos chegado àquele momento, depois de tantos sacrifícios, com o coração ferido e cansado de tanto sofrimento, mas perfeitamente convictos de que a luta tinha valido a pena!  O MPLA chega a Independência com muitas zonas cinzentas dentro do movimento. Uma delas tem a ver com a história da fundação e do seu líder...  

O MPLA nasceu com a aglutinação de alguns movimentos que se propunham a formar uma ampla frente para a luta de libertação. Tudo ocorreu num encontro em casa do Ilídio Machado,  na presença do seu sobrinho Higino Aires, Viriato da Cruz, Mário António de Oliveira, Maninho Gomes, André Franco de Sousa e António Jacinto, que eram do Partido Comunista Angolano. Quem redigiu o manifesto foi o Viriato da Cruz e ali acordaram em entregar a presidência a Ilídio Machado. Mário Pinto de Andrade já se encontrava no exterior e sempre se correspondeu com este núcleo revolucionário do interior, divulgando lá fora a sua actividade revolucionária. Ilídio Machado defendeu sempre que a direcção revolucionária do movimento devia ficar no exterior para evitar ser aniquilada pela PIDE. Por isso, o Mário Pinto de Andrade acabou por ser indicado para o encabeçar, acompanhado de Lúcio Lara, Agostinho Neto, Costa Campos e os membros do Clube Marítimo e outros agregados à Casa dos Estudantes do Império. Mário Pinto de Andrade liderou o movimento como Presidente, ficando Ilídio Machado como Presidente Honorário até a fuga de Agostinho Neto. Com a deserção de Neto com a sua família, Mário Pinto de Andrade avista-se com Neto em Marrocos. Este passa pela Argélia e baseia-se em Leopoldeville onde assume a liderança do directório do movimento numa decisão que foi amplamente divulgada pela imprensa internacional.    Com uma Independência tão atribulada, afinal, o que esteve na base dos desentendimentos entre os três movimentos de libertação, que culminaram com uma guerra civil no país? 
 Foram algumas divergências de natureza ideológica, a visão tribal e racial defendida por uns em oposição ao MPLA e os efeitos da guerra fria. Mesmo assim, o MPLA tentou, diversas vezes, dialogar com os adversários para obtenção de consensos, para mais facilmente sentarmo-nos unidos à mesa das negociações com a entidade colonial.   A história regista acusações mútuas...  

Houve várias tentativas para chegarmos a acordo, mas infelizmente...  Dois anos depois da Independência, explode o 27 de Maio... 
 O 27 de Maio foi movido por um grupo de dirigentes que discordavam das orientações da direcção do movimento. As coisas tomaram outro rumo depois de terem executado colegas da direcção. A cúpula desse grupo foi presa, o golpe foi abortado e infligiram-se castigos a alguns dirigentes,mas, infelizmente, alguns núcleos que não eram da direcção do movimento, cometeram excessos que tornaram nebuloso o 27 de Maio. Agora é altura da direcção do partido apaziguar os ânimos para promovermos a reconciliação e enterrarmos de vez as mágoas de um acontecimento negro que ceifou a vida de muitos quadros que hoje fazem falta ao país.   Que recordações conserva do tempo em que como Chefe do Protocolo entre 1975 e 1979, partilhou confidências com Agostinho Neto?  

São tantas as confidências acumuladas que descrevê-las preencheriam um livro.  E que significado atribui ao facto de Neto ter-lhe confiado essa função?  

Total confiança do Presidente em mim e na construção de um novo país.  O senhor revelou um dia que o Estado soviético não comunicou imediatamente ao Governo angolano a morte de Neto tendo tido conhecimento pelas agências noticiosas. Como se explica isso? 

 É uma situação inexplicável e relativamente à qual não conseguimos decifrar as razões.  Em Abril de 2018 o senhor fez uma doação formal de fotografias ao Museu Che Guevara na cidade de Alta Graça,  Argentina, que retratam a sua passagem por Angola. Conheceu-o?  

Não, não o conheci. Quando ele veio para Angola, encontrou-se com o MPLA no exterior. Nós não éramos ainda independentes e eu encontrava-me no interior do país.      Quarenta e cinco anos depois, a verdade é que há um fosso muito grande entre a liberdade idealizada e o país real.O que o orgulha e o que o decepciona?  

O meu orgulho justifica-se por termos proclamado a Independência, que era o desejo de todos os angolanos, sem excepção. O que me decepciona é a fricção ainda existente entre os angolanos para a consolidação dos nobres ideais defendidos no manifesto do MPLA. Não posso deixar de ter o coração dilacerado ao ver um povo que tanto lutou para ser livre e puder ter um pedaço de pão à mesa, passar por tanta miséria farejando nos contentores à cata de migalhas para se sustentar.  Não acha que os ricos deveriam ser mais sensíveis?  

 O importante agora é que cada um faça o melhor para ajudar a minorar a pobreza da maioria. E se cada um der o seu melhor em prol do colectivo, estou em crer que paulatinamente conseguiremos reverter a situação.    Se tivesse pudesse, o que pediria ao Executivo para ser corrigido?  

Que fosse mais acutilante no campo económico e social. Que houvesse mais diálogo na tomada de decisões e que essas decisões fossem de abrangência nacional. Gostaria, enfim, que fossem dadas maiores oportunidades para que os angolanos possam agora ter mais facilmente acesso às riquezas do país.   Que apreciação faz do combate à corrupção levada a cabo pelo Presidente da República? 

 O Presidente da República foi claro durante a campanha e toda a gente deve agora colaborar com ele para minimizar os estragos que a corrupção provocou e ajudar a extirpar esse cancro da nossa sociedade.  As vezes diz-se que estamos em presença de um combate selectivo...  Acho que o Presidente sabe muito bem o que está a fazer.  Que vai fazer do legado do seu percurso histórico? 
  Está tudo registado e a ser preparado para publicar em livro.  Mas, à margem do livro, o seu testemunho pode ser replicado noutros espaços...  Sempre que for solicitado, estarei disponível para transmitir o meu testemunho às novas gerações. 
Perfil
Nome Hermínio Joaquim Escórcio  
Data de nascimento: 1 de Junho de 1936  
Local de nascimentoLobito - província de Benguela  
Estado civilViúvo 
Filhos Dois   Habilitações literárias Curso Geral de Comercio, Marketing e Relações Públicas.  Formação Académica Diploma em Estudos Econômicos, Administração e Relações Publicas. 
Actividades Aderência ao MPLA na clandestinidade interna Participante da Processo de Libertação Nacional desde 1958, no Movimento Popular de Libertação deAngola (MPLA).Preso político, julgado e condenado por um tribunal especial militar por imposição da Polícia Política Portuguesa (PIDE) de 1963 a 1974.Fez parte da delegação do MPLA que negociou as tréguas com os portugueses nas chanas de Liamege (Moxico). Coordenou a comissão de recepção da primeira delegação MPLA dirigida por Lucio Lara. 
Cargos Secretário pessoal do  Presidente  António Agostinho Neto -1974/75. Director do Protocolo e Património da Presidência da República. Director Geral da Sonangol.  Embaixador  de Angola em vários países, tendo cumpridos a última missão na Argentina. Presidente da Assembleia Geral do Banco Económico

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