Entrevista

Hélder Bahu: “Queremos fazer uma festa contínua de trabalho e produção de conhecimento”

Arão Martins | Lubango

Jornalista

Doutorado em Antropologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa, Portugal, com apenas 44 anos de idade, o Professor Doutor Hélder Pedro Alicerces Bahu é o primeiro presidente eleito na história do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED)-Huíla.

04/09/2022  Última atualização 06H50
© Fotografia por: DR

Natural do município do Lubango, província da Huíla, em entrevista ao Jornal de Angola o até então Professor Associado com Agregação Pedagógica na Secção de História do Departamento de Ciências Sociais daquela instituição e praticante de Karaté (estilo Shotokan) confessou que a sua candidatura esteve ancorada "no dever de dar sequência aos projectos sabiamente iniciados” pelos antecessores, que, com parcos recursos, conseguiram posicionar o ISCED-Huíla "num patamar bastante elevado e passível de uma continuidade sustentável”


Depois de muita turbulência, preparar as linhas de força e convencer o eleitorado para ser eleito primeiro Presidente do ISCED-Huíla, qual é o seu sentimento?

Antes de responder à questão que me coloca, permita-me que eu diga o seguinte: O nosso contacto com o ISCED-Huíla remonta ao ano de 1995, altura em que ingressamos no curso de Ciências da Educação, opção História. Deste interessante percurso, foi possível tomar contacto com a memória histórica da instituição e todas as valências associadas à mesma. Ao sermos eleitos e tomarmos posse como primeiro Presidente do ISCED-Huíla, venceu a academia, a instituição, o país, a maturidade, a qualidade e a educação do grupo maravilhoso que ao longo de vários anos tem trilhado um caminho de sacrifícios e muita dignidade no processo de formação do homem novo. Tal como já o disse, tomar posse como presidente deste distinto Instituto Superior, o ISCED-Huíla, constituiu um momento ímpar de regozijo. Mais uma vez, quero referir que não se trata de um acto solitário, de uma gestão única, mas de uma gestão fundamentada no diálogo permanente e parcimónia na utilização dos recursos financeiros.

 

Falou e muito bem da sua trajectória no ISCED-Huíla, que remonta a 1995. Qual foi a trajectoria cumprida nesta instituição?

A nossa inclusão nesta instituição ajusta-se a um período de transição da economia planificada para a economia de mercado, numa acentuada transformação das teorias da História que começaram a debater a ideia de História liberal. Para além de termos sido coordenador pedagógico do departamento de Ciências Sociais, chefe de repartição de História, coordenador do curso de História, coordenador do mestrado em Ensino da História de África, foi no centro de investigação e desenvolvimento da educação do ISCED-Huíla que permanecemos mais tempo. Neste centro, na qualidade de coordenador, participamos de vários projectos, tais como: Crianças fora da escola ou em risco de abandono escolar na província da Huíla. Enquanto professor do ISCED-Huíla já leccionei as cadeiras de Antropologia Cultural, História Contemporânea, Métodos de Recolha e Pesquisa Histórica, Teorias da História, História de África I, História de África II, História de África III, Prática Pedagógica, Introdução ao Estudo da História, Introdução à Antropologia Cultural, entre outras.

 

Podemos considerá-lo como peixe dentro da água?

Sentimo-nos suficientemente preparados para a gestão, monitoria e desenvolvimento de projectos e, neste particular, o know-how acumulado e as parcerias iniciadas devem ser continuadas para que o ISCED-Huíla continue a ser a placa giratória para a produção de conhecimento no Sul de Angola. Portanto, ganhámos uma grande paixão pelo ISCED-Huíla e vivemos com emoção os seus bons e maus momentos. Foi nesta base que preparámos e apresentámos a nossa candidatura. Com a conquista de sermos gestores, vamos dar o nosso melhor na concretização de um ISCED mais dinâmico, desenvolvido, humano e virado para o futuro.

 

Qual é o ISCED que encontrou?

Confesso que não é fácil descrever tudo o que se conquistou em 42 anos de existência do ISCED-Huíla. É sabido que a sua dedicação exclusiva é a formação de quadros de diferentes níveis, desde a graduação à pós-graduação e os sucessos podem ser constatados por todos. Basta olhar para o contributo que os quadros angolanos formados pela instituição dão nas mais diversas áreas, quer política, económica e social, quer cultural, desportiva e outras. Acreditamos que a instituição tem aproveitado a dinâmica existente para continuar a desenvolver o ensino, a investigação, a extensão, a transferência de tecnologias e o intercâmbio internacional, empenhando-se em concretizar as instruções dadas pelo Executivo, que espera que as instituições de ensino superior formem mais e melhores quadros e que produzam mais resultados científicos para que os nossos talentos possam envolver-se no desenvolvimento de Angola e influenciar internacionalmente.

 

Afinal de contas, qual é a visão do ISCED?

Para quem fala da visão, obrigatoriamente, tem de debruçar-se também sobre a sua missão. O ISCED-Huíla tem como visão a sua consolidação como uma instituição de Ensino Superior na área das Ciências da Educação, pelo alcance de níveis de excelência na produção e difusão do conhecimento científico, tornando-se referência na sua área de actuação, e contribuir para o desenvolvimento humano e a sociedade em transformação, enquanto que tem como missão o desenvolvimento de actividades de formação académica e profissional de alto nível, da investigação científica e da extensão universitária na área das Ciências de Educação.

 

Estão cientes do peso da história institucional do ISCED-Huíla?

Os desafios da Universidade actual são variadíssimos e concorrem para processos de modernização e inovação tecnológica imprescindíveis para tornar mais harmoniosa a integração escolar e externa de diversos actores que interagem no quadro de uma complexa dinâmica de ensino e produção do conhecimento. Pelos 42 anos de existência, o ISCED-Huíla é uma instituição que representa alguma

maturidade e constitui o berço das ciências da educação no país. Neste âmbito, convergem ideias de alguma hibridização e procura de uma identidade, pois a complexidade das sociedades actuais impõe uma readaptação e reconfiguração dos paradigmas. Sem dúvidas. Estamos cientes do peso da história institucional muito profunda e com várias gerações de docentes, discentes, funcionários administrativos e não só, que marcaram, à sua maneira, cada canto e cenário desta casa.

 

A quem agradeceu por ter conquistado tal feito?

Ao tomar posse, agradeci ao Professor Doutor José Luís Mateus Alexandre, director-geral cessante e à sua direcção, que nos últimos sete anos deram o seu melhor para a consolidação de um ISCED-Huíla memorável. É do nosso conhecimento que fazem parte da História desta instituição.

 

É possível explicar melhor?

O ISCED-Huíla tem uma história profunda que num emaranhado de continuidades e descontinuidades conheceu homens e mulheres de uma estirpe fina de sapiência cuja memória deve ser preservada para o bem das novas gerações que precisam de fortalecer o orgulho de pertença, para uma projecção futura digna de realce.

 

Porquê esta afirmação?

Os novos tempos produzem mudanças aceleradas com desafios sociais, tecnológicos e outros que se configuram como ameaças e oportunidades para o desenvolvimento. Assim, temos de adequar a nossa acção para os desafios actuais que se fixam nos pilares por nós desenhados para este mandato, que se ajustam à perspectiva de um ISCED-Huíla mais dinâmico, humano, cada vez mais ecológico e virado para o futuro.

 

É fácil defender essa bandeira?

Reconhecemos que defender essa bandeira não é uma tarefa fácil. Temos, todavia, a plena convicção de que é possível realizá-la, se contarmos com o contributo de todos os que amam esta casa e dos que se revêem na sua continuidade, em termos de produção de conhecimento, formação do homem novo e solução de problemas ao seu alcance.

 

Num ISCED-Huíla cada vez mais dinâmico, o reviver o passado no presente tem algum significado?

Num ISCED-Huíla cada vez mais dinâmico, reviver o passado no presente pressupõe o resgate e a elevação da cultura e do desporto universitário, garantes de uma identidade universitária e interacção com a comunidade envolvente. Esses processos difundem-se melhor por intermédio da Associação de Estudantes, que passa a ser o pivô entre a Instituição, estudantes e a comunidade envolvente.

 

Qual é a instituição que almeja que o ISCED-Huíla seja?

Queremos uma instituição inovadora, sustentável, acolhedora, inclusive internacionalizada. Com a intervenção do Governo Provincial da Huíla foram construídas sete salas novas de aulas e outra infra-estrutura que serviu para montar o Laboratório de Ensino e Investigação em Química. Agradecemos por isso, ainda assim, a procura é grande. Gostaria de dizer que para o ano acadêmico 2022/2023, prestes a iniciar, o ISCED-Huíla tem disponíveis 1.170 vagas nos cursos de Educação de Infância, Educação Física, Ensino da Biologia, Física, Geografia, História, Informática Educativa, Língua Francesa, Inglesa e Português, Matemática e Química. Com mais espaço, teríamos a capacidade de atender minimamente a demanda, que já é superior ao ano passado.

 

Como proceder para atingir os objectivos preconizados?

Para atingir os objectivos preconizados é providencial contar com o apoio de todos, tanto actores internos quanto externos. Estas sinergias passam por um diálogo regular e concertação com os membros do Conselho Geral e os demais órgãos executivos da instituição, com particular realce para as unidades orgânicas, aqui designadas por Departamentos de Ensino e Investigação, bem como os Centros de Investigação e Desenvolvimento.

 

Qual é o papel dos docentes e pessoal administrativo nesse quesito?

Os nossos docentes e pessoal administrativo são, também, uma linha importante de interacção e galvanização para um bem comum, uma academia exemplar, de concórdia e virada para o desenvolvimento. As acções gizadas pelo Governo, no Plano Nacional de Desenvolvimento (PNDE) são também um importante instrumento de orientação para o redirecionamento das nossas acções, visando tão-somente o alcance das metas preconizadas nos documentos reitores.

 

O crescimento do ISCED, em termos de oferta formativa, é significativo?

Sem dúvidas. O crescimento do ISCED-Huíla, em termos de oferta formativa, é significativo. Para o ano académico 2022/2023, estamos a contar com a inclusão de cursos de licenciatura em Educação de Infância e do Ensino Primário e um leque bastante diversificado de formação de pós-graduação, com destaque para o doutoramento em Educação, recentemente aprovado. Com o ganho, precisamos equacionar melhor as nossas estratégias de gestão de recursos humanos diferenciados e altamente qualificados para a garantia da qualidade e competitividade necessárias para o tão almejado progresso da nossa nação.

 

Na sua óptica, a oferta formativa está ajustada ao crescimento infraestrutural?

É necessário que o aumento da oferta formativa esteja ajustado ao crescimento infraestrutural, tecnológico, bibliográfico e outras valências imprescindíveis para o universal da Universidade.

 

Como vai encarar os processos de reforma e harmonização curricular em curso no país?

Os processos de reforma e harmonização curricular em curso no país são também um assunto a ter em conta, pois é chegada a hora de o ISCED-Huíla avançar para processos de intervenção importantes e, daí, garantir uma adequação eficiente entre a disponibilidade curricular e as transformações do meio envolvente. Enfatizamos este desenho, pois estamos localizados numa região caracterizada por idiossincrasias culturais e económicas variadas e precisamos adequar o processo de ensino e aprendizagem a tais particularidades.

 

Como a situação da seca na Região Sul afecta a escola?

A situação da seca na Região Sul e toda a complexidade daí resultante constituem também um desafio para a escola, e cabe à Universidade construir dinâmicas que ajudem a garantir equações integradoras para evitar a marginalização de vários actores. É nesta linha de pensamento que, mais uma vez, precisamos de equacionar dinâmicas de investigação robustas que respondam às diversidades locais e transformem a escola num espaço atractivo e de realização pessoal numa dimensão de diminuição da pobreza na base do estímulo ao empreendedorismo e a outras valências.

 

Perseguindo a máxima de um ISCED-Huíla mais humano, o que é necessário para que a instituição seja uma escola inclusiva em todas as dimensões para a resposta aos vários segmentos que a procuram?

Não deixa de ser importante realçar a ambiguidade identitária da nossa instituição, que deve continuar a trabalhar para a gestão de equilíbrios entre as ciências puras e as didáctico-pedagógicas.

 

Qual é a mensagem a reter com o que diz?

Não basta saber ensinar. Precisamos conhecer bem o que vamos ensinar. Só assim é possível consolidar uma aprendizagem significativa e um construtivismo exemplar. Galvanizar e credibilizar é um processo que consideramos muito complexo porque é de todo necessário que os mecanismos de monitorização e avaliação sejam constantes, as boas práticas reiteradas, os constrangimentos melhorados. Isto só será possível se, de forma envolvente, conseguirmos analisar cada detalhe, cada sector ou cada área em si.

 

Existem outros desafios a superar?

Os nossos desafios vão também no sentido de garantir uma infraestrutura condigna, pois o ISCED está com dificuldades em albergar um número maior de estudantes. A oferta formativa é enorme e a necessidade de especialização cada vez mais evidente, pois já não somos só uma instituição de graduação (temos mestrados em curso e um doutoramento já aprovado que entra em funcionamento a partir deste ano académico).

 

Relativamente aos quadros que encontrou, algo a assinalar?

Sinalizamos uma instituição com muitos quadros diferenciados em idade de reforma. Precisamos de equacionar estratégias para o ingresso de mais docentes, porque a significante oferta formativa deve ser proporcional a um quadro de pessoal suficiente. Todos esses desafios impõem o crescimento da instituição com disponibilização de mais gabinetes, incentivos à investigação científica, mobilidade docente, internacionalização e nacionalização mais evidentes.

 

Isso requer tempo!

Estamos conscientes de que esses processos não se realizam num ou dois mandatos. Pretendemos, entretanto, construir bases sólidas para uma continuidade sustentável e promotora da transformação que se pretende.

 

Ao discursar na cerimónia de tomada de posse, prometeu muito trabalho e tornar contínua aquela festa. Porquê?

Como não podia deixar de ser, foi um momento ímpar de enorme alegria para nós, os empossados, para a instituição e, seguramente, para muitos dos nossos convidados. Foi, também, um momento de grande emoção para todos nós. Quisemos fazer daquele momento uma festa contínua. Prometemos que será uma festa de trabalho, de responsabilidade, de empatia, de humanização, de inclusão e de integração, de produção de conhecimento, de respeito pelos ditames didáctico-pedagógicos, uma festa para uma educação mais eficiente, do progresso e uma festa para a consolidação do ISCED, enquanto instituição de formação de formadores. Foi uma festa para honrar todos aqueles que se bateram pela instituição. Será uma festa e uma grande alegria para o país se o ISCED alcançar os lugares cimeiros da academia angolana. Logrando esse grande postulado, estaremos a dizer que a Huíla, a região e o país estarão a marcar passos significativos rumo ao progresso.

 

Confia na equipa que criou?

Estamos seguros que temos uma equipa interdisciplinar e coesa, que, pela ambição do bem-fazer, está disposta a dialogar permanentemente e a encontrar a melhor equação para servir com zelo, parcimónia e espírito de responsabilidade a missão actual.


Perfil 

Nome
Hélder Pedro Alicerces Bahu

Naturalidade
São José, Lubango, Huíla

Nacionalidade
Angolana

 Datade Nascimento
15 de Janeiro de 1978

 Estado Civil
Casado

Categoria profissional
Professor Associado com Agregação Pedagógica na Secção de História do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Superior de Ciências da Educação, no Lubango

 

 

 

 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista