Entrevista

Hélder Adão: “Os empresários vão deixar de fazer uso de geradores”

Sampaio Júnior | Benguela

Jornalista

O presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE), Hélder Adão, trabalhou, recentemente, no Centro de Distribuição de Benguela, tendo anunciado, em entrevista ao Jornal de Angola e Jornal de Economia & Finanças, que a linha de transporte de corrente eléctrica, que parte da subestação da Baía Farta já chegou à Cidade do Sal. Isso vai contribuir para o aumento da produção, uma vez que os empresários vão deixar de fazer uso de geradores.

26/08/2022  Última atualização 11H40
© Fotografia por: DR

O presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE), Hélder Adão, trabalhou, recentemente, no Centro de Distribuição de Benguela, tendo anunciado, em entrevista ao Jornal  de Angola e Jornal de Economia & Finanças, que a linha de transporte de corrente eléctrica, que parte da subestação da Baía Farta já chegou à Cidade do Sal. Isso vai contribuir para o aumento da produção, uma vez que os empresários vão deixar de fazer uso de geradores.

Na Cidade do Sal, os empresários que estão a investir naquele grande projecto de exploração salineira, parece-nos que já têm o problema de energia resolvido?

Sim. Praticamente, sim. Concluímos, agora, a construção da linha, orientados pelo Chefe do Executivo, no sentido de levar-se a energia nesses pontos, onde estão as potenciais indústrias salineiras. Da mesma forma que acabámos de construir essa linha, ela vai permitir depois que todas as indústrias localizadas na Cidade do Sal estejam ligadas à rede eléctrica. Temos estado a fazer o mesmo noutros pontos do país. Estamos a expandir agora as linhas na Quibala e em Calulu, nos perímetros das fazendas agrícolas para permitir que elas possam estar ligadas à rede. Em suma, a Cidade do Sal não é um caso pontual. É simplesmente a estratégia do sector para permitir que as indústrias desenvolvam e produzam com menor custo.

Para além da Cidade do Sal, na Baía Farta, as fazendas agrícolas de médio e grande porte em Benguela poderão ser contempladas?

Certamente. Aliás, deixa dizer que é uma pena que o Cavaco, hoje, já não tem aquele pólo agrícola que teve há 20 anos. Acho que houve uma expansão habitacional muito grande no local, mas ainda assim, também, já levamos a linha para o Cavaco, que vai permitir àquelas fazendas que ainda estão nos pólos agrícolas existentes, que possam ser ligadas à rede. Certamente, este é o objectivo e o cumprimento de uma orientação que temos.

Em Benguela, os municípios do Litoral são os que têm, actualmente, a energia da rede nacional de electricidade. Há projectos de electrificação  para os restantes municípios do interior?

Digamos, a curto e médio prazo pode acontecer. A electrificação é um  processo que ainda vai levar anos. Não teremos o país electrificado a 100 por cento nos próximos cinco anos. É um processo contínuo que leva o seu tempo, porque a electrificação absorve muitos recursos financeiros. E há experiência de todos os países do mundo. A electrificação levou longos anos. Por exemplo, a Noruega levou 100 anos para ter o país  100 por cento electrificado. Depois, nós temos que olhar que os investimentos têm de ser feitos de forma escalonada, porque tem que haver primeiro uma cobertura da oferta para depois permitir a expansão da rede. Pouco ou nada adianta electrificar e depois não ter geração de energia suficiente para atender essas zonas electrificadas. Daí que o Estado priorizou a geração e hoje já temos um investimento grande. Até já temos "superavit” na geração. Temos muitas centrais hidroeléctricas no país e, hoje, a capacidade de oferta dá para cobrir a procura. Esse investimento está feito ao nível da geração. Ora, a outra parte que está sendo desenvolvida é a expansão das redes de transporte. Levar a energia destes pontos de geração até essas localidades aqui referidas e para todo país. Ou seja, agora é desenvolver redes de transporte e depois a terceira e última etapa que é a electrificação das localidades. Há municípios que têm menos concentração populacional. Segundo os estudos feitos, concluímos que é mais vantajoso ir pelas centrais fotovoltaícas. Gasta-se menos recursos. E, nas zonas onde há maior concentração populacional, aí sim, serão prioritárias para expandirmos a rede de transporte do sistema principal.

 Projectos até 2025?

Temos nos nossos projectos e planos o levantamento de todas essas áreas para serem electrificadas. O programa de Desenvolvimento Nacional prevê que até 2025 tenhamos todas as sedes municipais electrificadas. Esse é um dos objectivos. É evidente que  por conta da  pandemia houve muita limitação no desenvolvimento dos projectos não só por conta dos recursos, mas também por todos os problemas que criou. Muitas indústrias que podiam fornecer os materiais também estavam limitadas e, naquilo que é o programa, há um atraso. Todavia, pensamos que nos próximos três anos vamos recuperar. Há muitas perspectivas. Estão em curso  muitos projectos e financiamentos já aprovados pelo Executivo. Só nestes últimos 5 meses foram aprovados vários financiamentos e estamos a trabalhar nos projectos em muitas dessas localidades.

O que está a ser feito neste momento?

Neste momento não posso dizer todas, mas há várias localidades nas zonas do Centro  e Sul do país, quer por  fotovoltaica, quer mesmo por expansão da rede a partir  do sistema eléctrico principal. Temos várias localidades e poderia aqui mencionar algumas como Conde, Ebo, Londuimbali, Chiloanga, Cachiungo, Chinguar. Essas que mencionei agora são aquelas que vamos assegurar já com estes financiamentos que estão praticamente viabilizados e estamos em crer que ainda haverá mais financiamentos, mais recursos  a partir do OGE e vamos complementando aquelas áreas que ainda não estão electrificadas. Nós estamos a focar primeiro naquelas zonas onde sabemos que há alguma actividade económica para facilitar com que  as indústrias cresçam, quer as mineiras, quer as agrícolas e outras. Em suma, a prioridade vai para as localidades onde hajam alguma actividade económica e grande aglomerado populacional. Estas são as prioridades.

E naquelas localidades de menor concentração populacional?

Entretanto, nas zonas de menor concentração populacional, estamos  de forma estratégica a deixá-las neste financiamento das centrais fotovoltaicas, sobretudo esse financiamento que foi  aprovado pelos EUA. Aí é que vamos priorizar grande parte daqueles municípios  que têm pouca população e, actualmente, têm sobretudo centrais térmicas, onde também há dificuldade logística por  parte da Sonangol para fazer chegar lá o combustível a tempo e hora. Muitas vezes as centrais térmicas ficam dias sem trabalhar  por falta de combustível, então vamos priorizá-las neste projecto. Tudo isso são acções em que estamos a trabalhar com grande celeridade, para ver se alguns  ainda esse ano possam ter o seu  início, que possam ter as obras iniciadas ao final do ano e estamos em crer que antes do final do ano vamos ter aqui um retomar do processo de expansão do sistema eléctrico e da electrificação a nível do país.

 Qual é a dívida, de uma maneira global, dos clientes da ENDE?

Nesse momento, a dívida global dos clientes da ENDE, ronda os 175 mil milhões de kwanzas.

 E como pensam recuperar?

Uma boa pergunta. Por um lado, temos as dívidas das instituições do Estado e  estamos a trabalhar com o Ministério das Finanças e o Instituto de Gestão e Administração Pública do  Estado (IGAPE), para ajudarem-nos a resgatar  e recuperar essas dívidas das instituições do estado. Porque, a princípio elas alegam não cumprir com as suas obrigações por conta da dotação orçamental. Remetemos em duas ocasiões para a ministra das Finanças, o extracto das dívidas das instituições públicas a fim de vermos se é possível fazer uma retenção na foto, ou seja, quando o Ministério das Finanças tiver que alocar estas verbas das instituições fazer já a retenção desta dotação, por um lado. Por outro lado, se não houver essa possibilidade que se encontre um outro mecanismo para a recuperação da dívida. Ora, nós temos também uma outra dívida que acaba sendo a mais crónica, essa sim, me parece que vai sempre carecer de uma decisão doutro nível, que é a dívida da iluminação pública, porque os governos provinciais habituaram-se ao longo deste tempo a não pagar a dívida, até porque dizem que não têm na sua dotação orçamental uma rubrica para a iluminação pública.

Qual a situação dos clientes domésticos?

Quanto aos clientes domésticos,  temos vindo a interagir com estes e permitindo-os amortizar as dívidas em prestações. Ao longo destes dois últimos anos, por conta da pandemia, entendemos que as situações foram adversas, muitos dos clientes perderam o poder de compra, ficaram desempregados e sabemos que a pandemia trouxe muitos problemas à economia. Há empresas que fecharam e então ponderamos,  sobretudo as unidades hoteleiras que baixaram também de produtividade, a taxa de ocupação dos hotéis baixou consideravelmente e tivemos que encontrar aqui uma posição de equilíbrio, porque se tivéssemos que ser rígidos a cortar por dívida, de certeza que muitas unidades hoteleiras já não estariam a funcionar. Então, com estas entidades temos dialogado e tem havido boa reciprocidade, compreensão no sentido de pagarem. Alguns pedem mais tempo porque dizem que têm de recuperar porque os prejuízos foram maiores. Logo, essa é a forma encontrada para recuperar a dívida nesse segmento.

E sobre as indústrias, ouve-se pouco…

Este é de facto um outro segmento de clientes, que comportam indústrias, especificamente para Luanda. Grande parte das indústrias da Zona Económica Especial, que era um projecto que estava sobre a alçada da Sonangol. Por não pagarem o consumo de um certo tempo, acumularam dívidas. Nisso também entram algumas das empresas que haviam sido arrestadas pela Procuradoria. O que acontece é que essas instituições privadas por algum motivo acumularam dívidas. As da Zona Económica, que estava sob a alçada da Sonangol, quando se lhes fosse cobrar, diziam que a Sonangol assumiria. O certo é que a Sonangol nunca assumiu essa dívida. E, veio o IGAPE para desenvolver o processo de alienação dessas empresas. O IGAPE pediu-nos ponderação na interrupção do fornecimento de energia a essas instalações para não inviabilizar o processo de alienação. Também se comprometeu a ajudar a ENDE a ir atrás desses devedores para  recuperar a mesma. É essa fase em que nos encontramos e acreditamos que o IGAPE vai ajudar a fazermos tal como acordado.

O quadro operacional não é muito positivo…

No geral, os nossos clientes domésticos representam 80 por cento do global da dívida, e esta pode estar relacionada à perda do poder de compra por parte de muitos deles e outros  por alguma relutância. Há um outro problema que ainda não se resolveu e não ficou clarificado, que tem a ver com os antigos combatentes. Geralmente, são muito relutantes para pagar porque dizem que têm este direito por lei, o direito à isenção. O certo é que não temos essa orientação nem alguma regulamentação para proceder assim com estes clientes que caem nesse pacote. No fundo, é para dizer que cada caso tem a sua particularidade, porque cada um apresenta os seus argumentos  de razão que nos remetem a essas soluções já elencadas.

O processo de cobrança de dívidas vai demorar, mas vai até ao fim de certeza?

Claro. A empresa está a cobrar por um serviço que prestou. É claro que vai até ao fim até que se encontre uma decisão. Ainda não é habitual e não é uma cultura no nosso país levarmos estes problemas ao tribunal. Noutros países, provavelmente isso já estaria no tribunal e já teria um desfecho. Agora, é preciso também realçar aqui que esse acúmulo de dívidas tem a ver com a postura dos gestores. Por exemplo, há hospitais que acumulam dívidas porque sabem que são sensíveis aos cortes. É claro que não queremos chegar a esse ponto de ter que cortar o fornecimento a uma unidade hospitalar. E os gestores escudam-se nisso; vêem isso como um elemento que lhes permite não pagar. Ao passo que noutros países estes casos são resolvidos no tribunal e o gestor é responsabilizado. É um processo que temos que ir até ao fim, naturalmente, porque isso está a afectar-nos e, aliás a empresa está praticamente na falência técnica por conta das dívidas, não só por isso, mas também pelo facto do próprio negócio não ser tão rentável para a empresa, pois que a empresa quase que não tem margem de lucro.

As tarifas cobradas fazem face às necessidades da empresa?

Não. Não fazem. Todavia, o nosso problema mais crítico ainda não é propriamente a tarifa. O problema maior que nos torna inviáveis tem mais a ver com o preço  de aquisição da energia e o preço de comercialização. Ou seja, não temos uma margem de lucro entre o preço de aquisição e comercialização, porque adquirimos a energia ao nosso fornecedor que é a RNT (Rede Nacional de Transporte de Electricidade) e comercializamos a preços regulados pelo Estado. Não podemos nunca praticar outro preço a não ser aqueles que estão regulamentados. O quê que acontece? Nós temos uma aquisição que é de 11.6 kwanzas por quilowatt/hora (kwh) e na comercialização temos vários subtarifários. Temos um segmento de clientes onde a gente tem que vender a Kz 2.44 por kwh; outro onde temos que vender a Kz 4.44 por kwh; a iluminação pública é Kz 7,0 por kwh; temos os clientes da alta tensão aos quais vendemos a Kz 10.4 por kwh; temos os clientes monofásicos domésticos que representam 80 por cento e a este segmento  praticamos um preço de Kz 10.6 por kwh. Portanto, se virem todo este tarifário é abaixo do preço de aquisição. Isso já diz tudo.

A ENDE tem planos de acrescer a tarifa?

Não. Por isso é que tem uma entidade com responsabilidade de definir as tarifas. Não somos nós. Nós levamos a ele a preocupação, ou seja, quando nós apresentamos uma proposta a essa entidade que vai submeter depois ao órgão competente para aprovação, é com base nos custos operacionais, porque primeiro, a tarifa que temos de praticar tem que ser aquela que cobre os custos operacionais da empresa e dá uma margem de lucro, porque todo negócio tem que ter uma margem de lucro. Digo mesmo que o problema não é só aumentar a tarifa, porque se aumenta na mesma proporção desde a geração, o preço que é praticado entre a PRODEL e a RNT, RNT e a ENDE não se resolve o problema.

Por exemplo, actualmente, há uma  diferença  entre o preço  da PRODEL para a RNT. A RNT adquire a energia à PRODEL num valor de Kz 4.25 por kwh e vende a ENDE a Kz 11.6 por kwh. Já dá para ver que aí há uma margem de lucro.

Quais são as estratégias da ENDE para combater as ligações ilegais, vulgarmente chamadas de puxadas?

As ligações ilegais surgem, essencialmente, quando não se cobre com energia eléctrica uma determinada zona habitacional ao que chamamos de "ilhas”. É aí que começam os problemas. Essa é a necessidade da procura fazer com que as pessoas realizem as ligações sem estarem autorizadas. Logo, só se pode eliminar isto com a expansão da rede e acaba-se com as puxadas ilegais. Há bairros em todas as províncias do país em que temos "ilhas”. Num determinado bairro uma parte está electrificada e outra não. Infelizmente, essa é a realidade.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista