Sociedade

Hambúrguer é inimigo do ambiente

Para muitos, reduzir ou mesmo cortar o consumo de carne está fora de questão. O acto é visto como uma demonstração de posse, um luxo. Contudo, é por demais sabido que a pecuária é dos principais consumidores e desperdiçadores de água do mundo e também responsável por uma parte imensa da emissão de gases de efeito estufa do planeta e pelo desmatamento.

02/08/2019  Última atualização 16H05
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Osvaldo Gonçalves

Para muitos, reduzir ou mesmo cortar o consumo de carne está fora de questão. O acto é visto como uma demonstração de posse, um luxo. Contudo, é por demais sabido que a pecuária é dos principais consumidores e desperdiçadores de água do Mundo e também responsável por uma parte imensa da emissão de gases de efeito estufa do planeta e pelo desmatamento.
Estudos mostram que o consumo de carne no Mundo aumentou rapidamente nos últimos 50 anos e a sua produção é hoje quase cinco vezes maior do que no início dos anos 1960 - de 70 milhões de toneladas, passou para mais de 330 milhões, em 2017.
No ano passado, a produção de carne no Mundo foi de 71,4 milhões de toneladas, numa área de pastagens total de 3,6 mil milhões de hectares. Uma produtividade mundial média de 1,3 arrobas por hectare/ano.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) projecta um aumento de 76 por cento no consumo global de carne até 2050. Mais do que em qualquer outro período da nossa história. Embora muitos, nomeadamente norte-americanos e britânicos, afirmem ter reduzido ou mesmo suprimido o consumo de carne, uma mudança de hábitos tão grande é difícil de encarar.

Gado de laboratório
Para se pôr fim ao alto consumo de carne e seus efeitos sobre o ambiente, assim como aumentar a vigilância relativamente a preocupações de contaminação nos animais de corte, como a possível ingestão de antibióticos ou a aplicação de hormonas de crescimento, um dos caminhos propostos é a criação de animais de laboratório.
Um projecto levado a cabo por cientistas da Universidade de Maastrich, na Bélgica, apresentado ao público em Agosto de 2013, após cinco anos de trabalho e um financiamento na ordem dos 330 mil dólares, desenvolveu um hambúrguer com célula-tronco do ombro de vaca, com cerca de 20 mil filamentos.
O novo hambúrguer é fruto da pressão, a longo prazo, de movimentos pelos direitos dos animais e a favor de dietas vegetarianas, que, além de evitarem o sofrimento dos bichos e fazerem bem à saúde, têm menor impacto ambiental.

A iguaria sem carne

Nos dias de hoje, uma das formas mais populares de comer carne é o consumo de hambúrgueres. Historiadores apontam que foram criados no século XIII, na Mongólia, onde os cavaleiros amaciavam a carne, colocando-a sob as celas dos cavalos.
O hambúrguer actual tem a sua proveniência na cidade de Hamburgo (Alemanha), no século XVII. Foram os emigrantes alemães quem levaram a iguaria para os Estados Unidos, onde se popularizou, sendo esse o país onde mais é consumida no Mundo.
A necessidade das pessoas se alimentarem, de fazê-lo depressa e com alguma comodidade, impulsionou o consumo do hambúrguer. Com uma fatia de queijo a derreter por cima, basta enfiar o pedaço de carne picada, bem temperada e algumas vezes previamente cozida, no meio de um pão para se ter a fome saciada.
A enorme popularidade do hambúrguer levou ao surgimento e crescimento de cadeias internacionais de fastfood, onde por uma simples sanduiche, uma dose de batatas fritas e molhos – elas estão associadas a grandes marcas de ketchup e maionaise – paga-se o preço de uma refeição ou até mais. Porém, para produzir 110 gramas de hambúrguer, são precisos, em média,1695 litros de água.
Mais do que uma simples sanduiche, o hambúrguer está hoje presente nas refeições das pessoas e, com o desenvolvimento da gastronomia, a carne de bovino passou a ser misturada com as de porco e de frango, até estas se tornarem independentes.
Existe até um mercado de “hambúrgueres gourmet”, em que a tradicional fastfood é feita com carne de boa qualidade, queijos especiais e molhos diferentes. Tudo para atender o paladar cada vez mais exigente dos clientes.

Hambúrguer vegetariano

O hambúrguer tornou-se tão popular, que até tem o seu próprio Dia Mundial, 28 de Maio. Daí que, quando se fala na necessidade de reduzir o consumo de carne em prol do ambiente, a maioria torça o nariz, ainda que se mencione a defesa da sua saúde e o prazer em conviver com os animais.
Daí que algumas iniciativas chamem mais a atenção por serem inusitadas, como evitá-la num determinado dia da semana, as “Segundas Sem Carne”, por exemplo, ou optar pelo chamado “Veganuary”, ficar sem comer carne durante um mês inteiro.
Documentários e defensores do vegetarianismo e veganismo destacam os benefícios de comer menos carne, cuja produção necessita de cerca de 160 vezes mais recursos que a de batata e arroz.
Renomadas companhias da indústria alimentar, como a Nestlé e a McDonalds, vêm, nos últimos tempos, fazendo campanhas de produtos orgânicos e vegetarianos, que indicam, por exemplo, a necessidade de menos 75 a 99 por cento de água e menos 93 a 95 por cento de terra, além de gerarem 87 a 90 por cento menos gases de efeito estufa e de consumirem metade da energia na sua produção.

Pecuária requer mais terra e água

O espaço ocupado pela criação de animais, equivalente a 80 por cento das terras agrícolas, contrasta com a sua contribuição para o consumo de calorias, que é de apenas 18 por cento.
A tendência mundial para a industrialização da produção de carne implica que o gado seja alimentado com milho e farelo de soja, cujo cultivo exige maior quantidade de terra.
Os bovinos necessitam de 28 vezes mais terra e 11 vezes mais água e comida que os suínos e galináceos. A América Latina é das regiões com mais responsabilidade nessa questão, com impacto directo sobre a Amazónia.
A ter em conta que a população mundial, de mais de nove mil milhões, deve crescer em 2,3 mil milhões de pessoas até 2050, somando a isso o aumento dos salários, que devem triplicar de valor nesse período, será preciso cortar todas as florestas do planeta para atender à procura de carne.
A ONU estima que até 2050, período da nossa história em que o homem comerá mais carne, o seu consumo aumentará em 76 por cento.
A produção de gado bovino resulta cinco vezes mais em emissões de gases de efeito estufa que a de porcos e frangos. Em conjunto, a pecuária é hoje responsável por uma fracção entre 18 e 51 por cento da emissão dos gases estufa, segundo a fonte consultada, e os gastos com água, transporte, energia, entre outros factores.

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