Opinião

Há uma luz no fundo do túnel

Adebayo Vunge

Jornalista

Com um discurso bem conseguido nos conteúdos e menos na forma – de tão exaustivo influenciou negativamente a comunicação – o Presidente da República, fez, no passado dia 15 de Outubro, o seu último discurso do ‘Estado da Nação’ da actual legislatura, e, através dele, transmitiu sinais claros da sua visão para o país, o que nos merece, obviamente, e por dever de cidadania, algumas notas.

19/10/2021  Última atualização 05H30
Em primeiro lugar, o Presidente João Lourenço começou por lembrar o país que lhe foi entregue em 2017, e daí que haja um conjunto de políticas e medidas tomadas num quadro verdadeiramente emergencial. E é nesse contexto que surge o Programa de Estabilização Macroeconómica que visou, essencialmente, corrigir as distorções que se verificavam no plano fiscal e de política monetária. E para isso o Executivo pode contar com a colaboração, a fortiori, do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Com o FMI veio a ideia, que não é um exclusivo da nossa realidade, que "não há parto sem dor”, mesmo que este parto tenha sido acompanhado por uma epidural, ou seja, foi permitido às autoridades angolanas desenharem o seu modelo de ajuda. Seja como for, e porque todos os cenários se agravaram devido à pandemia da Covid-19, as medidas provocaram diversos estrangulamentos no plano social.

Têm sido anos muito difíceis, para Angola e para o mundo – a China abalou-nos por estes dias com os números do seu magro crescimento económico no terceiro trimestre do ano –, e porque vivemos num contexto de crise global, acentuado por uma pandemia que leva quase dois anos e que teima em acrescentar incerteza ao futuro comum, vivemos um tempo de perdas e do adiamento de algumas das conquistas do período inicial da legislatura.

Em segundo lugar, Presidente João Lourenço deu a sua chancela para o próximo exercício económico, por via do Orçamento Geral do Estado para 2022, que nos permite ver alguma luz no fundo do túnel. As medidas da "nossa austeridade” começam a dar lugar a uma situação de maior expansionismo – ainda que com grande controle – e temos ainda a evidente preocupação social do Presidente com equipamentos que ajudem a melhorar a qualidade de vida das pessoas. O sector da Saúde irá conhecer novos hospitais provinciais com maior capacidade. Na Educação, a conclusão do campus universitário da Universidade Agostinho Neto merece o nosso elogio. Dirão alguns que poderíamos ir mais longe. Mas, entretanto, convém sempre lembrar que os recursos são escassos e finitos.

Em terceiro lugar, e ainda no plano social, não podemos deixar de assinalar o humilde reconhecimento do Presidente quanto aos problemas da criminalidade e da fome em algumas regiões do nosso País. Sendo que em certa medida o primeiro é consequência do segundo.
E, por isso, a urgência em expandirmos o investimento público, ao mesmo tempo que, e se a criminalidade e violência é resultante do desemprego e desocupação dos jovens, não podemos deixar de reivindicar o papel de uma sociedade civil mais acutilante no sentido de participar de forma mais incisiva na resolução de alguns problemas.

Não podemos continuar a espera que o Governo venha fazer-nos tudo. Dito de outro modo, "ask not what your country can do for you…”, todos sabemos quem o disse e como se completa esta ideia.
É importante promovermos o associativismo comunitário, com toque cultural e desportivo, para que as comunidades encontrem soluções autónomas e igualmente sustentáveis. Valorizar o espírito criativo dos nossos jovens com talento para o desenho e pintura, para o futebol, andebol e basquetebol, para karaté, boxe e o judo, para o ensino, para a música, o teatro e o cinema, para as matemáticas, ou com sensibilidade para as questões ambientais. Não podemos estar à espera e na espera sentir que estamos isentos das nossas responsabilidades individuais e como comunidade.

Situação bem diferente, tem a ver com a forma tão demorada da intervenção na Assembleia Nacional – e pouco empolgante, sobretudo quando comparamos com o João Lourenço da campanha eleitoral de 2017 -, sendo certo que os auxiliares do Presidente deveriam estar disponíveis para toda a Comunicação Social, para além de outros eventos e formatos, de forma a atender às preocupações das pessoas num diálogo permanente, abandonando toda a equidistância a pretexto dos falsos protocolos.

Ao Presidente incumbe essencialmente a visão estratégica e programática sobre o que se pretende do País. No fundo, que os ministros, secretários de Estado e outros titulares de cargos políticos tenham uma noção mais evidente de que governar também é comunicar e, por isso, uma boa governação passa também por uma comunicação mais assertiva e eficiente com os cidadãos, no sentido de materializar o seu direito constitucional à informação, tanto nos canais tradicionais como nos new media.

O que nos parece evidente é que há uma busca por soluções que permitam ao Governo cumprir o seu desiderato, atacando a raiz dos problemas: a diversificação económica tem de avançar; o apoio ao empresariado e ao investimento privado não pode parar; a protecção social aos mais desfavorecidos tem de se concretizar; a construção de infra-estruturas e equipamentos vitais para o desenvolvimento são para implantar; e uma politica de controle da população é urgente para que possamos desenhar políticas sustentáveis no médio e longo-prazos. Essa visão esteve no discurso e é urgente fazê-la transpirar junto dos cidadãos.    
O Presidente deu-nos um discurso lúcido e exaustivo, cabe agora aos seus assessores e auxiliares ampliarem a eficácia desse discurso, sector por sector.

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