Entrevista

Entrevista

“Há um grande interesse naquilo que o Presidente João Lourenço definiu para levar adiante a luta contra a corrupção”

A enviada Comercial para Angola do Primeiro-Ministro britânico, Boris Johnson, a baronesa Lindsay Northover, revelou que as autoridades governamentais do Reino Unido estão a analisar outros casos de transferência ilícita de capitais e de domicílio de activos que devem ser devolvidos ao Estado angolano. Lindsay Northover indicou que os 500 milhões de dólares do Banco Nacional de Angola, transferidos para um banco de Londres e, depois, devolvidos ao país, é o único caso “completo”, admitindo que “há mais”.

24/02/2020  Última atualização 10H47
Contreiras Pipas| Edições Novembro © Fotografia por: Enviada comercial para angola do primeiro-ministro britânico

Londres tem um novo Governo, do Primeiro-Ministro Boris Johnson. Qual é a atenção que dedica à cooperação com países africanos, sobretudo com Angola?

A cooperação é uma palavra muito importante. Organizamos a Cimeira sobre Investimentos Reino Unido-África, em Londres, em Janeiro. Isso reflecte o nosso compromisso com África e há uma imensidão de áreas em que o Reino Unido está interessado no continente. África está a avançar em termos de Tecnologia, Educação e Saúde e é uma enorme promessa. O Reino Unido tem peritos e experiência que pretende colaborar com África nessas áreas. E a cidade de Londres, um dos maiores centros financeiros do mundo, tem investidores de todo o mundo à procura de possibilidades de investimento. Portanto, há muitas formas em que o Reino Unido, com recursos e experiência que tem, pode olhar para o conintinente africano.

O Reino Unido saiu da União Europeia no último dia de Janeiro. Esta decisão pode ser vantagem para Angola ou oportunidade para negociar directamente com o Reino Unido as trocas comerciais?
O Reino Unido já deixou a União Europeia. Isso aconteceu no fim de Janeiro último. O que vai acontecer, até final de Dezembro, são negociações sobre o futuro das trocas comerciais com a União Europeia, e o plano é ficar concluído no fim deste ano. Tal como Angola, para outros países é muito importante ao Reino Unido engajar-se no plano das relações bilaterais em termos comerciais e isso vai continuar e aumentar. Acredito que vamos continuar a trabalhar com os nossos colegas da União Europeia em vários fóruns sobre questões políticas em que temos acordos com eles. Acho que é muito importantes que os países pelo mundo trabalhem juntos para os muitos problemas comuns que temos de enfrentar juntos, cientes de que as regras sejam cumpridas. Cientes de que todos lutamos contra as alterações climáticas porque muitos assuntos são globais e o Reino Unido vai jogar o seu papel. Sei que Angola também o fará e é essencial que ambos trabalhem juntos endereçando às Nações Unidas a necessidade de promover o desenvolvimento sustentável. É um objectivo comum sobre o qual devemos trabalhar juntos. Portanto, há muitos áreas em que é necessário trabalharmos juntos.

O Presidente da República, João Lourenço, esteve perto de visitar Londres onde devia participar na Cimeira sobre Investimentos Reino Unido-África. Como encarou o cancelamento da viagem do Chefe de Estado angolano?

Compreendi que há uma enorme pressão sobre a sua agenda desde que tomou posse. Mas recebemos uma enorme delegação angolana na Cimeira sobre Investimentos Reino Unido-África e que estavam atentos à conferência. Tivemos um encontro muito proveitoso durante a Cimeira em que Angola esteve presente. O espaço em que se realizou este encontro estava completamente cheio e havia muita gente que gostaria de estar neste encontro. Foi impressionante. Havia alguns países que foram convidados particularmente para este encontro, incluindo Angola. E fiquei impressionada pelo facto de Angola se fazer representar por uma equipa de qualidade. Havia delegações de vários países, mas nem todos foram convidados para este encontro. A delegação angolana ficou muito impressionada e, no dia seguinte, houve um evento especial sobre Angola.
É a décima primeira visita a Angola em quatro anos de exercício das funções. Estranha-lhe o facto de nunca ter conseguido convencer um Presidente angolano a visitar o Reino Unido?
Não é uma questão de convencer ou não. Acho que tivemos um enorme privilégio de nos encontrarmos com o Presidente João Lourenço desta vez, em Luanda, e ele enfatizou que teria todo o prazer de visitar Londres e vejo que, no futuro, esta visita pode acontecer.

Londres é uma importante praça financeira no mundo. Até que ponto Angola pode aproveitar este factor, sobretudo numa altura em que o Governo pensa privatizar empresas por via de mercados bolsistas?

Tem havido uma aproximação em termos de cooperação entre a Bolsa de Londres (London Stock Exchange) e as instituições angolanas desde o tempo em que sou enviada Comercial, e tenho tido o prazer de ver isso. Por isso, as autoridades angolanas têm colocado eurobonds (títulos) à venda na Bolsa de Londres e subscritas por muita gente. Acrescento que a Bolsa de Londres tem um acordo com a Bodiva (Bolsa de Valores e Derivados de Angola) para trabalharem em conjunto. A ministra angolana das Finanças, Vera Daves, esteve comigo na Bolsa de Londres quatro dias antes da Cimeira sobre In-vestimentos Reino Unido-África, para reafirmar a necessidade de trabalhar em conjunto. Ela foi escolhida para fechar a sessão do dia da Bolsa londrina, numa sexta-feira. Claramente que o processo de privatização de empresas do Estado em Angola é muito interessante e complexo, tal como é em qualquer país. Há da nossa parte um interesse considerável em como esse processo decorre. Está na fase inicial ainda. Espero que continuemos engajados enquanto estiver o processo a decorrer.

Como é que encara o combate à corrupção em Angola?

Há um grande interesse naquilo que o Presidente João Lourenço definiu para levar adiante a luta contra a corrupção. É extremamente importante para Angola, é uma das coisas que fazem com que investidores estrangeiros voltem a olhar para o mercado angolano com interesse. É extremamente importante para o futuro de Angola.

Que informações chegam a Londres sobre o desafio de combate à corrupção definido pelo Governo de João Lourenço?
As informações chegam de tempo em tempo. Quando ouço vocês também ouvem, e o Governo de Londres tem estado activo em tentar aceder a estas informações.

Estas acções de combate à corrupção podem animar os britânicos na cooperação com Angola?
Sim. É muito impressionante, de facto, porque vocês assumem este desafio com muitos países e as mudanças em Angola são desafiantes e animadoras e estas são uma das razões pelas quais os encontros em que estive presente, em Londres, relacionados com Angola estivessem sempre cheios de pessoas que queriam ouvir informações sobre Angola. Não era essa a realidade quando assumi o cargo em 2016.

Sabemos que na praça financeira londrina circulam empresas proprietárias de pessoas ligadas a casos de corrupção em Angola. Está o Governo de Londres disposto a apoiar o processo de repatriamento de capitais e activos ilegalmente aí domiciliados?
Já o fizemos. No “Caso dos 500 milhões de dólares do BNA” cujo dinheiro foi transferido para um banco com sede em Londres e, depois, devolvido a Angola. Sei que o caso está em tribunal em Angola.

É o único caso?
É o único caso completo. Mas existem outros que as autoridades britânicas estão a analisar. Temos leis muito específicas no Reino Unido, nos Estados Unidos e por toda Europa, e quando não é clara a proveniência de dinheiros, investigações são abertas e estas coisas seguem um processo próprio. Mas os sistemas instalados estão aí para detectar este tipo de ocorrências e foi isso que aconteceu no caso dos 500 milhões de dólares do BNA.

O que é que motivou a enviada Comercial para Angola do Primeiro-Ministro britânico, Boris Johnson, a baronesa Lindsay Northover, a visitar este país?
Fui nomeada em 2016 en-viada Comercial. Esta é, de facto, a minha décima primeira visita a Angola. Visito Angola várias vezes ao ano porque temos empresas britânicas que pretendem investir em Angola ou já investem com quem reúno. Tenho uma linha telefónica directa com o encarregado do Departamento Comercial da Embaixada em Angola, Simon Kelly, que está sempre ao corrente de manifestações de vontade de empresas interessadas em investir em Angola. Sou enviada Comercial e o que vejo é um aumento de empresas britânicas em Angola. Muita coisa mudou em Angola e tem sido fantástico para o Reino Unido fazer parte destas mudanças.

Que impacto tem a visita de uma baronesa nas relações bilaterais. O que podem as partes ganhar em concreto?
Acho que o engajamento entre as partes é extremamente importante. Há muitas áreas em que empresas e interesses britânicos podem olhar em Angola e ver as possibilidades de investir. Isso é importante. Acho que há possibilidades mútuas de cooperação no domínio das economias angolana e britânica.
Depois da visita a Angola o que espera ver mudado nas relações de cooperação?
Tive o prazer de analisar apoios na área da Agricultura. Recebi manifestação de interesse de muitos ministros que sugeriram áreas onde gostariam de ter a presença britânica e quando regressar ao Reino Unido, vou fazer contactos com homens de negócios e com os Serviços Geológicos britânicos para ver que tipo de assistência ou apoio podemos dar.

Angola manifestou a intenção de integrar a Commonwealth e o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, hoje Primeiro-ministro, elogiou a decisão. Como encara esta intenção e até que ponto pode ser vantajosa para Angola?
O Reino Unido deu as boas-vindas ao Governo angolano por ter feito esta manifestação de interesse em juntar-se à Commonwealth e realcei isso num debate sobre África na Câmara dos Lordes de que sou membro. O Primeiro-Ministro respondeu numa carta que me enviou, dizendo que gostaria que Angola se juntasse à comunidade. A Commonwealth é um grupo de países que cooperam na base da igualdade e, por isso, não deve ser uma decisão unilateral do Reino Unido se um país deve ou não se juntar à comunidade. Portanto, é importante para Angola dialogar também com outros países membros da Commonwealth para que, em colectivo, decidam se gostariam que Angola se juntasse à comunidade.

Empresa quer explorar em Angola mineiros raros para carros eléctricos

Qual tem sido o foco na cooperação ambiental com Angola?
As alterações climáticas e as energias renováveis. É muito importante passarmos para as energias renováveis. Estou satisfeita pelo facto de uma empresa sediada em Londres, a Pensana Metals, que explora minerais raros usados em carros eléctrico-magnéticos e turbinas eólicas, pretender investir em Angola. Esse país tem reservas importantes de minerais raros e esta empresa quer assumir a exploração em Angola e exportar baterias feitas com estes minerais.

O Reino Unido acolhe, em Novembro próximo, a Conferência Global sobre Alterações Climáticas (COP26), uma realização conjunta com a Itália. Teve uma reunião com a ministra angolana do Ambiente, Paula Francisco Coelho, para analisar isso?
Fiquei feliz quando obtive a confirmação da presença da ministra angolana do Ambiente, Paula Francisco Coelho, neste encontro. Isso é fantástico. Temos estado a trabalhar em conjunto. Discutimos uma contribuição britânica no valor de 20 milhões de libras para a região do Delta do Okavango, que envolve vários países, e é um reforço para o desenvolvimento ambiental.

O Governo britânico tem disponível 200 milhões de libras para projectos no nosso país

Anunciou a disponibilidade do Governo britânico de apoiar, com 200 milhões de libras, empresários do seu país que queiram investir em Angola. Como e quando esse dinheiro deve ser colocado à disposição dos empresários?
Esse financiamento é da United Kingdom Export Finance (UKEF). Eles apoiam empresas detidas, pelo menos em 20 por cento, por cidadãos britânicos. O limite original para Angola foi 750 milhões de libras. Já 650 milhões de libras foram disponibilizadas e a UKEF conservou um remanescente de 100 milhões de libras que não foi disponibilizado. Além deste valor, há mais 100 milhões, por conceder, perfazendo um total de 200 milhões de libras. E a questão importante aqui é que estes valores devem servir para financiar projectos prioritários do Governo angolano. Portanto, o dinheiro está aí e só precisa de uma decisão do Governo angolano para definir quais são os projectos prioritários. Ainda este ano, esta agência volta a avaliar Angola para ver o que é preciso fazer e o que poderá ser feito. Os projectos que já tiveram cobertura financeira do Reino Unido são nos domínios da Energia, Saúde e Agricultura em Angola.
O Reino Unido, agora que saiu da União Europeia, sente que precisa ocupar um espaço no continente africano para não perder para a China, Rússia e Estados Unidos a sua influência e presença em África?
Não é o que vi em Angola. Tem sido muito interessante estar envolvido nos últimos quatro anos nesta relação com Angola. O que vi aqui é um gran-de volume de intercâmbio, e a decisão de trocas comerciais na região austral de África necessita de especialistas e de investimento. Tudo isso pode vir do Reino Unido. Portanto, vi em Angola um crescente interesse na cooperação com o Reino Unido nos últimos quatro anos, e não um decréscimo.

A União Europeia passará a ser também uma concorrente do Reino Unido na luta pela influência no continente africano?
Estou preocupada com isso? Não. Acho que vamos continuar a cooperar estreitamente com os parceiros europeus porque partilhamos muitos valores comuns. Claramente que as áreas que mencionei, em particular, são os pontos fortes do Reino Unido, a Língua Inglesa, por exemplo. Outra coisa é o facto de Londres ser um centro financeiro internacional, o nosso sistemas jurídico e de educação são pontos fortes, mas é importante trabalhar juntos, e estou segura que isso vai acontecer.

 

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