Entrevista

“Há necessidade de políticas públicas que incentivem uma maior cooperação”

Vânia Inácio

Jornalista

Empresário e gestor brasileiro, a trabalhar em Angola há 20 anos, fala dos reduzidos apoios aos empreendedores que ele entende serem responsáveis pelo marasmo da economia. Especialista em formação, vê nela uma das grandes debilidades. Por isso, dá como receita a aposta na criação de empregos, mas com profissionais formados.

03/09/2022  Última atualização 11H17
CLAÚDIO DE HOLANDA, professor e empresário brasileiro em Angola © Fotografia por: Luis Damião/ Edições Novembro

No próximo dia 7, o Brasil comemora o bicentenário da independência. Este é o País que espera depois de dois séculos?

Um estudo revela que os nossos jovens, entre os 18 e os 24 anos, 89 por cento continua a ter orgulho do país e 76 por cento deles acredita que o Brasil está a mudar para melhor,  87 por cento considera-no importante no cenário mundial. É este o Brasil que eu esperava, onde os jovens ainda podem sonhar e verem perspectivas para o futuro.

 

O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola. Qual é a importância que os angolanos têm  hoje para os brasileiros?U

Uma importância de irmão, pois  os braços do povo angolano ajudaram a construir o Brasil, razão pela qual  hoje somos irmãos nas artes, literatura, agro-negócio, geologia e educação. Se, actualmente, o nosso carnaval é reconhecido como sendo a maior expressão cultural do mundo, também se deve a Angola. Ou já não se lembram que o samba é de origem do semba?

 

Como os dois países podem aprofundar ainda mais as relações económicas?

Mobilizando, integrando e comunicando as oportunidades. Sinto que tanto o povo angolano como o brasileiro não percebem a infinidade de empresas brasileiras, pequenas e médias que não obtêm estímulos técnicos e financeiros. Todas as politicas económicas são para grandes projectos.

 

E não o choca o envolvimento de algumas empresas brasileiras  na teia de corrupção de Angola?

Não só choca como me indigna imenso. Considero um acto de covardia para com o povo, esse capitalismo selvagem.

Concorda com o que se tem ventilado que as relações Angola-Brasil tornaram relativamente frias, após a nomeação de Jaír Bolsonaro para a presidência?

Não concordo. Apenas os oportunistas de plantão, na hora da crise angolana e mundial, esfumaram-se. Os que permaneceram, como eu que cá vivo há 22 anos, são os que acreditam numa relação salutar entre os dois paises. Os maus brasileiros que se retirem.

Qual é o perfil da comunidade brasileira em Angola, essencialmente a empresária?

Na sua maioria foi contratada pelas multinacionais brasileiras e, ao se adaptarem ao país (demitidos ou não), criaram as suas empresas em vários sectores, nomeadamente na agricultura, pecuária, comunicação, construção civil, arquitectura, educação, saúde, tecnologia, estética, moda e comércio em geral.

 

E qual é a visão que se tem sobre o mercado angolano?

Um mercado muito fechado, com uma população com pouco poder económico e, ainda por cima, com difícil acesso às linhas de crédito, principalmente para os responsáveis das micro, pequenas e médias empresas, além das taxas de juro absurdas, levando à frustração de muitos jovens empresários, alguns até com projectos totalmente viáveis, mas desconsiderados pela banca. Diante disso, o passo seguinte é o desemprego.

 

A propósito, no seu último discurso o Presidente da República  manifesta a preocupação em criar empregos para os jovens...

As acções para o efeito são inúmeras, uma delas, para mim,  a mais prática passa pela criação de um horário integral para as crianças, extensivo  tanto  às escolas  privadas como às  públicas, sendo que de manhã aprendia-se a teoria e de  tarde a prática. E posteriormente  separá-las  de acordo com suas habilidades académicas. Eis uma das melhores formas de    estender a oportunidade no futuro às crianças e aos jovens para que possam servir com qualidade o país.

 

Em suma...

...entrei aos 12 anos de idade em oficina de ourives aos 17  já era mestre na profissão. Está provado que dos 5 aos 17  anos temos mais facilidade em aprender um oficial.

Diversificação económica

Angola continua à procura do caminho para a diversificação económica, com destaque para a produção de alimentos. Em que medida o exemplo do Brasil pode servir  Angola?

Angola necessita urgentemente de criar uma empresa voltada para inovação que se possa focar na geração de conhecimentos e tecnologia para a agropecuária, caso contrário, os jovens continuarão a  gerar  o êxodo rural e as suas terras  ficarão  na mão dos estrangeiros.
A empresa Embrampa brasileira é o melhor exemplo. Ela tem como missão viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para a sustentabilidade da agricultura, em benefício da sociedade brasileira.

Há anos, a então embaixadora do Brasil em Angola, Ana Lucy Peterson, lamentou a pouca aproximação entre os dois países na área agrícola. Concorda?

Concordo parcialmente. Percebo que falta maior aproximação na formação. Por exemplo, tenho um Centro de formação, a CEFET, que tem uma parceria com ISPETEC e poucos são os alunos que se interessam por essa área. Há uma necessidade de politicas públicas que incentivem uma maior cooperação Brasil e Angola.

 

E quanto à educação?

Fui, por dez anos, coordenador dos PALOP na Fundação Getúlio Vargas, Universidade Estácio de Sá, quando tivemos a honra de fazer a modernização do Ministério das Finanças, de criar a Escola Nacional de Administração, entre outras instituições. Mas hoje o Brasil não tem sido opção.

 

O Brasil tem três linhas de crédito com Angola para financiar a exportação de bens e serviços. Qual é o montante disponível?

Por razões políticas dos dois países, ainda não estão totalmente definidas as linhas de créditos. Tenho a certeza de que após o fim das eleições que os dois chefes de Estado voltarão sentar-se à mesa e concluir este acordo em carteira.

 

Foi co-fundador do projecto da Escola Administração em Angola. Tantos anos depois, valeu a pena?

Muito me orgulha.

 

Tanto quanto o facto de ter liderado a formação profissional de mais de 30 mil ex-militares em Angola?

Muito me honrou ser o brasileiro escolhido para o meritório trabalho de reinserção social do pós-guerra. Como professor há 40 anos, armando e desarmando tendas, em que ministrávamos aulas de Cabinda ao Cunene para os militares da UNITA.

Aprendi mais do que ensinei. Havia homens mutilados, mas com os corações e mentes a desejar crescer e em paz. O que mais me surpreendeu foi o meu parceiro Pitra Neto.

(...)

Na altura ministro do Trabalho, ele não ficava no gabinete e, por várias ocasiões, foi para o campo auditar e cobrar mais qualidade aos trabalhos desenvolvidos.

PERFIL

Claúdio de Holanda dos Santos, 75 anos, pertence à galeria dos intelectuais brasileiros que se apaixonaram por Angola. Há 20 anos, desembarcou em Luanda e deixou-se ficar. Foi coordenador dos projectos "Estamos Contigo”, do MAPESS -  voltados para a reinserção social dos ex-militares através da formação profissional) e  responsável pela criação da Escola de Administração  da República de Angola e da Modernização do Ministério das Finanças.
A coordenação regional dos PALOP da Fundação Getúlio Vargas (Brasil), da qual  se tornou representante oficial durante dez anos, tem no currículo, além     da criação do Instituto Superior Profissional Politécnico de Angola  (onde desempenhou  a função de director executivo durante dez anos) e da "Malta da Paz e da Alegria” (com o objectivo de contribuir para a valorização da cultura). Natural de Recife, é licenciado em Administração de Empresas pela Universidade Estácio de Sá, da qual foi aluno, professor e director. Neste estabelecimento, também chefiou o curso de graduação e os ciclos científicos em Marketing

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