Cultura

“Há esboços do nacionalismo nos intelectuais do Século XIX”

Gaspar Micolo

Convidada a abordar o “Proto-nacionalismo nos jornais dos séculos XIX e XX” na primeira Conferência Internacional de História de Angola, promovida pelo jornal Cultura, título da Edições Novembro, EP., a historiadora e professora angolana Rosa Cruz e Silva garante em entrevista que intelectuais do Século XIX já concebiam ideias nacionalistas.

24/11/2022  Última atualização 09H25
© Fotografia por: Rafael Tati | Edições Novembro

"À medida que vamos consultando e comparando os textos, notamos que  são os pioneiros na abordagem da problemática da Independência”, assegura. Antiga directora do Arquivo Nacional de Angola e ministra da Cultura de 2008 a 2016, a docente da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto vai mais longe e diz mesmo que se dá, no Século XIX, uma comunicação entre as autoridades africanas e os intelectuais.


A senhora é professora de História Contemporânea de Angola, período que abarca o nacionalismo. Que elementos fornece aos estudantes para perceber os factores que estiveram na base da formação da unidade nacional?

Em relação aos meus alunos, eu os tenho encaminhado para um estudo mais aprofundado das fontes escritas que existem. A historiografia defendeu, durante muito tempo, a tese segundo a qual  a formação das ideias para a nação - que levaram inclusivamente para a formação das organizações políticas, que reclamavam o direito à liberdade, à independência - , ocorreu apenas no Século XX. Ou seja, o século XX é, digamos, o período da história na qual emergem as ideias ditas proto-nacionalistas. Bom, à medida que o tempo avança, e as pesquisas também, me dei conta que há ideias sobre a nação, de país, antes do Século XX...

Que fontes atestam estes dados?

Fiz esse exercício de pesquisa na imprensa escrita do Século XIX. Portanto, quando estava a fazer os meus trabalhos de licenciatura fui "inspirada” a consultar esse material. Na altura havia o investigador, sociólogo e político Mário Pinto de Andrade, com quem tive o privilégio de privar em 1988 e 1989, e de quem soube que a Biblioteca Nacional de Lisboa, agora Biblioteca Nacional de Portugal, tinha exemplares de periódicos da imprensa escrita de Angola. E comecei a consultar. Havia um trabalho que nos tinha sido solicitado para falar do património edificado da cidade de Lisboa. Pedi logo ao professor que incluísse a cidade de Luanda. E por essa via fui ao encontro desta documentação. Depois terminei a licenciatura, e ingressei no quadro de  efectivos dos trabalhadores do Arquivo Nacional de Angola, na altura Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica.

Isso em que ano?

Em 1990. Regressei da licenciatura e fui logo como técnica a trabalhar no Arquivo, e sempre muito preocupada em saber da existência ou não de fontes sobre esta matéria. Em Abril de 1992 fui nomeada directora do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, actual Arquivo Nacional de Angola. Um ano depois soube que essa imprensa escrita que eu pesquisava em Lisboa tinha exemplares aqui em Luanda e em números mais significativos. Daí que fizemos uma exposição conjunta, entre a Biblioteca e o Arquivo, com o objectivo de mostrar a colecção. Assim, com o levantamento de quantos periódicos é que a Biblioteca provincial de Luanda e o Arquivo possuíam, fizemos um exposição e um catálogo intitulado "Os Periódicos como Fonte de Pesquisa Histórica, A Imprensa Escrita de Angola do Século XIX”; justamente para mostrar que já naquela altura os periódicos revelavam debilidade de conservação. O nosso objectivo era apelar às instituições que nos apoiassem na recuperação do acervo.

Como estão estes jornais hoje?

Bom, os jornais continuam lá. Mas obviamente que ao longo desses anos houve algumas iniciativas de investigadores brasileiros que fizeram a digitalização de alguns periódicos; mas não todos. Há alguma digitalização de periódicos como "Pharol do Povo”, "A Verdade”, e não mais. Bom, a exposição a que me referia levou a que os técnicos do Arquivo que fizeram o levantamento produzissem pequenos textos apelativos, digamos assim, para dar o sentido da importância daquelas fontes pelas ricas informações. Estávamos em 1993 e só em 1997, numa das reuniões de História de Angola que o Arquivo organizou, é que me propus desenvolver um trabalho que tinha justamente a ver com essa informação: os esboços, propostas e ideias nacionalistas que, considerava eu, existiam nos textos de alguns intelectuais que actuavam na imprensa escrita do Século XIX.

E fiz um texto muito citado sobre isso...

Sim, um texto que alguma crítica considerou muito ousado, se calhar não muito fundamentado. Ousado no sentido de que era uma espécie de pedra que se atira para o charco. Nunca se tinha pensado tanto na importância daquela informação e considerar que essa já previa estas ideias nacionalistas.

É trazendo estes novos olhares que torna interessante o ofício de historiador.

Exacto. Os textos mais conhecidos do Século XIX, sobre os quais se tinham feito as primeiras abordagens, não são sequer enquadrados no proto-nacionalismo; consideravam mesmo ideias tímidas. Mas à medida que vou consultando e comparando os textos, levam a pensar que eles são os pioneiros na abordagem da problemática de independência.

Ou seja, é uma geração de intelectuais que no Século XIX já defendia a autodeterminação...

Não, independência mesmo. Há textos não só de Fontes Pereira, como de Mamede Santana e  Palma, este último escrevia no jornal "O Desastre”. Fontes Pereira actuou em quase todos os jornais, não só em Angola, como também no exterior. Há textos de Cordeiro da Mata, que também foi uma pessoa muito destacada no domínio das letras, e deste pensamento pioneiro, que do meu ponto de vista não terá sido muito bem interpretado. Todos têm ideias em que essa vontade de liberdade, de afirmação da identidade africana está presente. Já recolhi todos os textos de Cordeiro da Mata publicados no "Almanaque de Lembranças”.

É essa a abordagem que vai defender na conferência?

A nossa abordagem na Conferência Internacional da História de Angola vai ser retomar o texto de 1997, com novas informações que, do meu ponto de vista, confirmam as minhas ideias. Portanto, o Século XIX é um período em que nós conseguimos perceber a ligação entre estes intelectuais e as chefias políticas africanas, sejam as dos Dembos, do espaço que foi o antigo Reino do Ndongo, etc. Estes intelectuais falam mesmo de contextos políticos muito para além dos Dembos e do Ndongo, falam mesmo do Bié, do soma Ekwikwi, que na época não estavam sob domínio português.

Claro. Só no início do século seguinte (XX) é que estes reinos são invadidos...

Exactamente. É que olhando e interpretando com mais atenção estas fontes percebemos que estas figuras do Século XIX tinham uma perspectiva de Angola que não se limitava às fronteiras da colónia, e olhavam pela história a ligação que existia entre os povos. No meu texto "O nacionalismo angolano, um projecto em construção no Século XIX?” eu chego à conclusão que são estes intelectuais do Século XIX que são os mentores das ideias da formação da nação. Portanto, eles reivindicam espaços, territórios, não só os que estavam sob domínio colonial, mas pela história eles fazem apelo a figuras de territórios que não estavam ainda sob domínio colonial.

Um trabalho exaustivo de recolha e interpretação...

Preciso continuar esse trabalho, não posso dizer que já tenha feito tudo nesta recolha. Mas já fiz o levantamento exaustivo dos textos dos vários protagonistas, intervenientes na imprensa, que davam estas ideias.

Quando é que poderemos ter um dia uma biografia de um Fontes Pereira, por exemplo?

Estamos a trabalhar para isso. Posso dizer que este desafio não me apanha em contramão. A investigação está em curso. Eu derivei para uma outra problemática, que é o trabalho da minha tese de doutoramento, sobre a apropriação da escrita, a fim de perceber como é que esse fenómeno se espalha em diversos territórios. As chefias africanas decidem por si próprias adoptar o sistema da escrita e põem os filhos e não só a aprender a ler e a escrever. Isso ocorre no espaço político africano. Assim que os missionários chegam, mostram-se disponíveis para apropriar-se da escrita. Aliás, criam as suas próprias escolas, com os seus filhos, usando até outros instrumentos no lugar do papel, como a folha de bananeira. Produziam tinta natural para escrever. Então, isso é que depois explica a formação destas elites. As elites surgem não apenas como sinónimo de desenvolvimento da própria colónia, que tem que contar com a população inserida no seu território para a função pública, já que a população europeia era muito pouca. Aliás, depois vai dar-se uma substituição gradual, quando começam a chegar mais europeus. Tanto é que a professora Jill Dias considera que estas reclamações são produto deste afastamento que as autoridades da colónia fazem a estes funcionários.

 E não era?

Eu penso que não. Além do afastamento, há a assunção da identidade africana, reclamação de território e de poder político, que é anterior ao afastamento. Veja: há um panfleto que foi lançado em Luanda, que não é muito divulgado e vou ver se consigo mostrar uma cópia digitalizada, datado de 1874, e o título é "Apelo à revolta armada”. É um panfleto anónimo que mostra que já existiam alguns esboços de procedimentos de luta velada. O panfleto era clandestino, foi logo apanhado pelas autoridades. E está na documentação do governador da época, que se viu aflito: pensava-se que estava tudo bem, que o clima era pacífico e aparece um panfleto daquele tipo.

Em relação à apropriação da escrita discute-se muito sobre a existência de fontes dos séculos XVIII e XIX escritas em línguas nacionais. Conseguiu ter acesso  a algumas?

O material que eu consultei tem predominantemente textos em língua portuguesa. Mas também há alguns textos em línguas nacionais, mas este trabalho de levantamento ainda não foi concluído. Portanto, este material faz parte da colecção de um antropólogo português, que estave aqui na década de 1930 na região dos Dembos, que, a troco de agua ardente, levou malas de documentos que estão em Portugal. Há um trabalho que está a ser feito pelo Arquivo Histórico Ultramarino de catalogação deste material, acho que até já estão a pôr no site. Mas ainda não está concluído.

Quando prevê apresentar a sua tese de doutoramento sobre a apropriação da escrita?

Está quase, está para breve.

E o seu livro?

Também está quase. O livro tem a ver com essa temática que estamos a abordar, é que para além do artigo que foi publicado, fui encontrando informações mais contundentes que confirmam as minhas propostas. Então o livro é sobre esses   esboços do nacionalismo que encontramos ainda no Século XIX.

E como anda a iniciativa que surgiu há alguns anos de fazer uma História Geral de Angola? Podemos falar disso?

Podemos. Não gosto muito porque, neste momento, não posso dizer que está parado. O grupo é que ficou mais restrito, antes tínhamos um grupo de quatro pessoas, só mulheres, eu, Conceição Neto, Paula Tavares e Alexandra Aparício. A Paula Tavares e a Alexandra Aparício apresentaram os textos, o da Paula era muito reduzido, somente 18 páginas. Alexandra Aparício fez um texto maior. Mas não era aquilo que queríamos. Era necessário ter uma perspectiva endógena. E fazer uma síntese do conhecimento que nós tínhamos, do material que estava à nossa disposição de vários autores. E nós não conseguimos devido a tricas de pessoas que abandonaram o projecto.

 

E agora?

Agora juntei-me a outras pessoas e mudamos a perspectiva. E já não será uma síntese. Porque há muita informação disponível que ainda não foi abordada por autores que consultamos. Gosto de dar o exemplo do reino do Congo, sobre o qual muitos já escreveram, aqui por exemplo Batsikama, mas precisamos explorar mais as fontes africanas, como as cartas do rei do Congo publicadas na Monumenta Missionária Africana, que nos revelam que já havia um pensamento interno. Por exemplo, em relação às escolas, o rei do Congo ergueu escolas em que havia professores congueses. Há até a informação de que os portugueses ficaram estupefactos a ver mulheres a leccionar nestas escolas, porque naquela altura as mulheres em Portugal não iam à escola, e para o Congo isso não era problema. Para o Ndongo também não foi, a rainha Njinga sabia escrever, as irmãs também. E estas informações o John Thorton já possuía, o Joseph Miller também. Mas não deram ênfase, não deram a devida importância. No caso da rainha Njinga, que sabia escrever; por exemplo, podia ter secretários que escreviam para ela, mas ainda assim percebemos o seu pensamento, o fio condutor do discurso. Daí toda aquela exuberância na abordagem que ela teve com o governador. E muitos questionam como é que ela aprendeu a escrever se estavam em guerra?

E como responde?

Temos que recuar a 1560, 1520. E ver os primeiros missionários que entraram no Ndongo. Primeiro o rei não quis recebê-los, aliás ficaram presos. Mas os missionários andaram aí, devem ter feito catequese, ensinando as pessoas a ler e a escrever. Ficamos a saber que a irmã de Njinga Mbande, por exemplo, que ficou em Luanda presa, mandava cartas para Njinga neste período. Por isso é que os portugueses não conseguiam apanhá-la, pois recebia da irmã as informações das posições militares, das acções militares, e conseguia fugir a tempo. E onde que estão estas cartas? Não aparecem, mas foram referidas. Cadornega, por exemplo, faz essa referência, que diz que assaltaram a casa da Njinga e encontraram o arquivo. Encontraram as cartas que a irmã escrevia e do rei do Congo dirigida a Njinga, a felicitá-la pelo sucesso que tinha a "fintar” os portugueses. Isso quer dizer que já se comunicavam, não só por cartas, mesmo antes dos portugueses estes reinos já se comunicavam. E essa abordagem não está na História de Angola. Nem Miller nem Thorton deram ênfase a isso, podem se ter referido a esses factos nas entrelinhas. Esse é apenas um exemplo, mas existem vários.

E é essa abordagem que pretendem trazer no livro sobre a História de Angola?

Nós decidimos que ao invés de fazermos uma síntese, vamos tentar fazer uma história mais abrangente. Penso que não será publicado este ano, mas vamos trabalhar para que seja no próximo ano. Os meus colegas, nomeadamente o professor Cornélio Caley, praticamente já concluiu a sua parte, eu é que fiquei com o peso dos séculos XVI, XVII e XIX. Estamos a preparar uma História de Angola numa perspectiva global para mostrar a anterioridade do pensamento político, económico, etc. Ver como os reinos africanos se articulavam no comércio, a comunicação, antes da chegada dos portugueses, e depois ver o que mudou com a chegada dos portugueses. E isso vai levar-nos  ao Século XIX com a comunicação entre as autoridades africanas e os intelectuais. É que muitos defendem que a resistência não tem nada a ver com o Século XX, dizendo que foi apenas no Século XIX. É o século XIX a dialogar com a entidades com um histórico que encontramos atrás. Há um jornal, e foi neste que me baseei, que teve uma tiragem única, cujo título é "O Tomate”. Tem lá um texto intitulado "A Independência de Angola”.

De que ano?

7 de Fevereiro de 1891. No texto recriam um cenário onde aparece o nome de figuras importantes da imprensa como Fontes Pereira, Mamede Santana e Palma, entre outros, que formam um governo dito provisório. Quem trouxe a público esse jornal fui eu. Castello Branco, que escreveu uma História de Angola, no seu levantamento, ele chama o jornal "O Tomate” "uma folha carnavalesca”, por ter saído no Carnaval. Não deram a devida importância. Mas aquilo foi intencional, usar o carnaval para mencionar já as ideias que circulavam.

 "Há textos de Fontes Pereira que repudiam a Conferência de Berlim”

Mas havia também intelectuais ligados à administração colonial, em Luanda, que, identificando-se com um todo nacional, estavam interessados numa "crioulidade”...

Não, não uso esse conceito. E não uso porque nos textos que eles produzem são claros. Obviamente que há outras figuras que consideram que estão bem enquadrados no sistema português, alegando que foram libertados da escuridão, do analfabetismo, etc. Mas temos que fazer a distinção, ora, há um sector, se quiser pode chamar de crioulo, que aceita esse domínio português, mas há um outro sector, por mais pequeno que seja, que contrapõe. Então, é importante ver o que é que estes autores publicam sobre o contexto. O contexto político na altura era caracterizado pelas guerras. Qual é o posicionamento destes intelectuais sobre as guerras? Ora, estes intelectuais percebiam que se dava uma luta da Europa para a dominação de África. Há uma sequência de textos de Fontes Pereira a repudiar a Conferência de Berlim, inclusive pelo facto de o rei do Congo não participar nela, defendendo que a Europa não podia estar a discutir os destinos da bacia do rio Zaire sem a presença do rei do Congo. Por aí já estamos a ver que há de facto uma destrinça na projecção destas ideias. A minha preocupação foi justamente tentar ver qual o pensamento que eles expunham sobre estes contextos. Estes intelectuais vão mesmo opor-se às guerras. Achavam que os potentados, que era a expressão para considerar o poder político na época, deveriam defender-se e impedir o domínio português. Diziam até tratar-se de um direito natural gerir os seus próprios territórios.


"O português pode coabitar com outras línguas nacionais como oficiais”

Hoje, quais são os elementos que caracterizam a identidade nacional?

Essa nação que construímos tem uma matriz africana, a qual se juntaram valores e conhecimentos no contacto que tivemos com os portugueses. O angolano é essa pessoa que recebe toda essa diversidade e que se assume numa perspectiva única. O angolano é o somatório de todos estes aportes. O que se passou é que houve uma carga cultural durante o contacto com os portugueses, fazendo crer que a vertente africana não tinha valor. A independência também foi um grito não só para afirmar a política, mas também para afirmar essa identidade. Esse processo é que está sempre a ser perturbado pela força daquilo que se considera ser de mais valia.

Conseguiríamos hoje ter várias línguas oficiais ao lado do português com uso na administração pública, escolas, tribunais, etc?

Conseguiríamos. É só vontade política. Lembro-me que muitos diziam que isso era muito oneroso. Diziam que até a publicidade teria que vir em várias línguas. A África do Sul faz isso. Uma vez reclamei com o camarada Bornito de Sousa, e ele pensava que os sul-africanos desistiriam. Mas não desistiram. É o peso que tem a carga da formação que nós tivemos, que valoriza mais a língua portuguesa em detrimento das nossas línguas nacionais. Eu penso que é possível dar este estatuto, essa valorização, sem qualquer prejuízo da língua portuguesa.

 

É possível coabitar...

Exactamente. Coabitar. Por exemplo, nos espaços em que a presença portuguesa foi mais tardia, e a língua materna africana tem forte expressão, não se deve obrigar a estudar só em língua portuguesa. Há um trabalho a ser feito. E inclusive sobre o tratamento das línguas, porque também já está provado, aliás foi Miller que apontou isso, que não é possível estudar a história do Congo isoladamente, porque os reinos africanos estão ligados. Se nós fossemos mais ciosos desta identidade, e tivéssemos investido no trabalho de conhecimento das línguas, teríamos notado que elas comunicam entre si. Não é só a língua portuguesa que é o elo de unidade, as nossas línguas são a nossa história e ligam-nos. O kikongo não se fez sozinho. O processo migratório dos Bantu foi diverso, mas aspectos como a alimentação e a religião foram moldados pela comunicação regular entre os reinos. Por exemplo, os Imbangalas estiveram em todo lado, por isso é que somos como somos, vaidosos, às vezes arrogantes; é uma herança. Independentemente de ser de Cabinda ou do Cunene, a postura é a mesma. René Pelissier fez um levantamento exaustivo de tudo quanto foi campanha e revolta militar em Angola e chegou à seguinte conclusão: nunca na África negra um povo se levantou tão massivamente para dizer não ao domínio português como os angolanos fizeram.


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