Sociedade

Grupos organizados de jovens patrulham as ruas durante o dia e à noite “caçam” os delinquentes

Alberto Manuel, 22 anos, furtou um telemóvel e dois mil kwanzas de Antonica João, 40 anos, zungueira de produtos do campo na zona do Cadipovo, há duas semanas.

25/06/2020  Última atualização 13H05
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A mulher, indefesa, implorou ao bandido para lhe devolver o telefone, e em resposta levou bofetadas na cara. Inconsolável, Antonica João meteu-se a chorar pelas ruas do Sambizanga, situação que despertou a atenção dos munícipes, que accionaram a Brigada de Vigilância Comunitária. Em poucos minutos, o marginal foi apanhado e encaminhado até à Polícia.

O patrulhamento das ruas do Sambizanga, protagonizado por mais de mil jovens voluntários, numa iniciativa do administrador do município, Tómas Bica, atinge várias zonas, desde a Lixeira, Santo Rosa, Madeira até Mota, tanto de dia como de noite.
Maria Gaspar, moradora da zona, sente-se mais tranquila desde que foi criada a Brigada de Vigilância Comunitária e alega que já consegue circular à vontade.

Os trabalhos de patrulhamento são feitos de manhã, tarde e noite, com grupos diferentes. Na zona da Lixeira, o trabalho é coordenado pelos senhores Van-Dúnem João e Cláudio Fortunato.

Cada brigada é composta por mais de 200 elementos, divididos em várias zonas como na área do Arraz, Pombinha, zona dos quartos de banho, Linha Férrea, e rua da Escola do Cadipovo. De noite a concentração é feita às 22 horas e o trabalho vai até às sete horas da manhã. Os marginais apanhados a roubar são encaminhados até à esquadra da Polícia do Sambizanga.
O grupo, de forma educada, interpela alguns cidadãos suspeitos e os encontrados a circular com arma de fogo, objectos contundentes como facas, catanas, fragmentos de garrafa, entre outros, são encaminhados até à esquadra.

Desde que começou o trabalho de patrulhamento que o nível de criminalidade reduziu consideravelmente no Sambizanga, segundo os moradores. Antes, a população circulava com medo de ser assaltada, fundamentalmente na calada da noite. “Agora, os próprios marginais é que têm medo de assaltar, porque sabem que serão apanhados pela população revoltada e levados até à esquadra de Polícia”, afirma Tozé João, integrante do Grupo de Vigilância, acrescentando que a actuação tem sido em bloco, o que afugenta os delinquentes.

Apito

Na zona da Lixeira, o apito antes usado como chamariz dos integrantes do grupo foi retirado, porque os marginais também compraram apitos e criavam transtornos. Agora, usam senhas e contra-senhas no sentido de manter a sintonia e não haver choques. Os gatunos são maioritariamente moradores do bairro e alguns vindos de outros bairros.
O trabalho de patrulhamento nocturno é feito de forma voluntária, sendo que alguns vizinhos solidarizaram-se e decidiram comparticipar com 100 kwanzas cada e alimentação no sentido de comprarem café e outros bens para apoiar os jovens que, durante a noite, circulam pelo bairro à procura dos meliantes. Cláudio Fortunato explicou que existe uma boa relação entre o grupo de Vigilância Comunitária e a Polícia Nacional.

Rua da Tareia

Cláudio Fortunato explicou que há dias foi realizada uma reunião com os encarregados de educação e com os delinquentes integrantes dos grupos de marginais identificados por Truma F, os MD, os Mal Falado, os Dalegua, os Bebe Chato, Povo Cuanhama e os Abutres. Nesta reunião, foi solicitado aos pais, que conversassem com os filhos no sentido de deixarem de roubar. Alguns encarregados alegaram que expulsaram os filhos de casa por insistirem em fazer parte de grupos de bandidos.

Andar à vontade

Andar à vontade pelo Sambizanga é um facto confirmado por dezenas de moradores contactados pelo Jornal de Angola. Além de homens, existem também mulheres a liderarem grupos de jovens que ajudam a devolver o sossego aos moradores.
“Antes, os populares queixavam-se de constantes assaltos a residências e transeuntes, em várias zonas do distrito, mas desde que começamos a vigiar o bairro, os casos diminuíram consideravelmente. Os marginais roubavam botijas e telas e não respeitavam os mais velhos no bairro”, afirmou Tozé João, coordenador do trabalho dos jovens da Brigada de Vigilância Comunitaria, denominado “Liga do Bem”.

Moradoras satisfeitas
Maria Adão, Cristina Jacinto e Antonica Manuel são moradoras do Sambizanga há mais de 25 anos. Explicaram de forma unânime que a situação do crime no Sambizanga mudou consideravelmente desde que a Brigada entrou em acção. Maria Adão agradeceu o trabalho realizado pelos jovens, que tem ajudado a aumentar o sentimento de segurança dos cidadãos.

Boavista

O coordenador do sector B da zona da Boavista da Brigada de Vigilância Comunitária, Mateus Miguel, disse que a onda de assaltos levou-os a organizar grupos de Brigada de Vigilância Comunitária.
Distribuíram apitos aos membros para alertarem em caso de assaltos. “As pessoas saem em bloco e começam a actuar para ajudar a pessoa que está a ser assaltada”, disse. O coordenador explicou que o trabalho na Boavista está a ajudar a Polícia no combate à criminalidade.

Os jovens actuam de acordo com a sua área ou quarteirão. Existe um alívio no seio das populações desde que os grupos foram criados, uma vez que tem permitido reduzir o número de assaltos.
Os gatunos apanhados a roubar são encaminhados até à esquadra de Polícia da Boavista para serem responsabilizados criminalmente.

Administrador o Sambizanga

Tomás Bica, o jovem administrador do Sambizanga, disse ao Jornal de Angola que a criminalidade foi um dos principais eixos da acção enquanto entidade máxima no distrito. Explicou que a população estava agastada com a situação, uma vez que as pessoas não circulavam em condições, tanto de noite como de dia.

Para inverter a situação, realizou Assembleias Comunitárias com as Comissões de Moradores, para sublinhar a grande responsabilidade que os pais têm de cuidar dos filhos. Infelizmente, muitas famílias sobreviviam a custa fruto da bandidagem feita pelos filhos. Da reunião ficou claro que os pais deviam cuidar dos filhos, porque não é tarefa da Polícia educar os filhos. O combate à criminalidade seria feito com a participação dos munícipes, uma vez que não existe um Polícia para cada cidadão.

“O rácio é de um Polícia para 250 cidadãos. Significa que quem deve, em primeiro lugar, garantir a segurança nas nossas localidades, são as próprias populações, que conhecem os marginais que são filhos do bairro, muitos deles. Demos vários exemplos de morte de bandidos em confronto directo com a Polícia. Nove meses depois, a população tomou consciência que a garantia da segurança dos munícipes devia contar com a participação da população”, disse.

Como a Lei prevê o Conselho Comunitário de Vigilância ao nível do Distrito e presidido pelo administrador, criou-se uma área operacional denominada Brigada de Vigilância Comunitária. “São jovens residentes no bairro, alguns deles ex-marginais que conhecem bem o modus operandi dos delinquentes. Iniciamos um programa de vigilância da nossa comunidade com resultados satisfatórios”. O grupo entra às 22 horas e às 6h da manhã termina a operação. Com estas medidas conseguimos desactivar grupos de marginais como Os Marijuana e Dalegua, cuja idade dos seus membros vai dos 15 aos 21 anos. Para Tomás Bica, já se pode andar à vontade dentro do Sambizanga, sem risco de ser assaltado.

Não há queixas na Polícia

No Sambizanga está acontecer uma cena caricata. Os cidadãos quase que já não apresentam queixa à Polícia, mas sim à Brigada de Segurança Comunitária, garante o administrador do distrito.
Tomás Bica realizou em tempos uma reunião com os responsáveis das Brigadas de Vigilância Comunitária,tendo sido convidado o comandante municipal da Polícia, superintendente-chefe Gabriel Tito. Concluímos que em cada Brigada constituída deve fazer parte um elemento da Polícia Nacional, situação que veio reforçar a nossa actividade.
O êxito da segurança no Sambizanga tem a ver com a tomada de consciência dos munícipes de que a segurança dos bairros deve ser feita também pelos munícipes.

Venda de liamba

Tomás Bica disse que algumas residências que vendiam liamba em grande escala estão a ser desactivadas porque atraem bandidos.
Por outro lado, realçou o trabalho que visa melhorar a iluminação pública na rua Lueji Anconda com a participação de jovens do Sambizanga e sem custos para a administração.

“Os jovens fizeram um trabalho espectacular porque conseguimos acender os postos da nona esquadra até aos bombeiros. O resto do material solicitamos à ENDE que prometeu fornecer nos próximos dias”, disse.

Mulheres na delinquência

Não são todos os dias que ouvimos falar da participação de mulheres no mundo da criminalidade. Na zona da Lixeira, foi detida, há dias, uma jovem que tentou assaltar uma cantina. Cláudio Fortunato, coordenador de um dos grupos da Brigada de Vigilância Comunitária, explicou que o crime ocorreu às 9h da manhã, quando a acusada, de 20 anos, com duas facas, solicitou compras numa cantina, e com os objectos em sua posse, retirou as facas e ameaçou a dona da cantina. Os moradores accionaram o grupo de Vigilância que encaminharam a acusada até à esquadra. As cinco meninas que faziam parte de grupos de criminosos decidiram, de forma voluntária, abandonar o mundo do crime, afirmou Cláudio dos Santos.

Liga do Bem actua
no Bairro do Mota
Há três meses, no bairro Mota, mais de mil jovens aderiram, de forma voluntária, à Brigada de Vigilância Comunitária. Realizam patrulhas pelas ruas de dia e de noite, para travar os assaltantes. Os jovens do bairro formaram um grupo de acção rápida denominado Liga do Bem.
Tozé João, coordenador do grupo, frisou que jovens mal comportados no bairro, cujos pais os denunciam à Brigada de Vigilância Comunitária, são chamados à razão.
“Senhor jornalista, pode vir aqui no bairro por volta das 5 horas da manhã e vais andar à vontade, com telefone na mão e ninguém vai te receber”, assegurou.
Antes desmontavam pessoas de manhã que iam trabalhar, agora deixaram de roubar porque sabem do trabalho que temos feito - disse o jovem mobilizador.
O bairro Mota tem cinco quarteirões onde os vigilantes estão divididos em grupos e com horas específicas de patrulhamento. Trabalhamos com uma senha que é distribuída à Polícia Nacional para saber que estamos a andar no sentido de ajudar a manter a calma no bairro. “Agimos em grupo de mais de 500 jovens. Só na zona da Madeira, temos um grupo de mais de 700 jovens, no Braz, 500 homens, na Giló e Pau do Corno, temos aproximadamente 400 jovens”, disse.
O coordenador do grupo de Jovens da Liga do Bem frisou que o trabalho tem complicado um pouco na zona da Frescura, uma vez que a maioria dos jovens criminosos são filhos de polícias que protegem os filhos criminosos.

Encarregados apresentam
filhos envolvidos no crime
Aflitos ao saber que os marginais estão a ser capturados pela população e entregues à Polícia Nacional para posterior encaminhamento aos órgãos de justiça, pouco mais de uma centena de encarregados de educação optaram em levar os filhos envolvidos em roubos na via pública, no distrito do Sambizanga, até à Brigada de Vigilância Comunitária.
O acto ocorreu na conhecida rua “Kudissanga kua Macamba” e juntou membros da Polícia Nacional, Brigada de Vigilância Comunitária, encarregados de educação e os supostos marginais, no sentido de os chamar à razão. Durante o encontro, as mães apresentaram os filhos e outros familiares directos envolvidos em más práticas.
Moradora na zona do Giló, Clara da Conceição admitiu que o filho esteve envolvido em alguns crimes, porém, decidiu abandonar tal prática, há três meses. Devido às rondas realizadas pela Brigada de Vigilância no bairro, Clara da Conceição explicou que o mesmo teve de fugir de casa com medo de ser preso. Em contrapartida, os membros da brigada aconselharam-no a trazer o jovem, para o devido acompanhamento que o levará a mudar de conduta.
Francisca Maria João, por sua vez, levou o filho que integrava um grupo de jovens que circulavam com objectos contundentes e fomentavam rixas nas ruas, causando o pânico no Sambizanga. Em contrapartida, os membros da brigada insistiram no acatamento à mudança de comportamento em prol de um distrito onde os cidadãos possam circulam sem receios, tal como se verifica nos últimos dias.
Ainda durante o encontro, os jovens manifestaram-se arrependidos pelo passado de má conduta e juntamente com os progenitores assinaram um termo de compromisso. Os jovens, de não mais roubar e os pais, de melhorar o acompanhamento dos filhos. “O que devia fazer pelo meu filho foi feito. Caso ele voltar a roubar e for apanhado que seja responsabilizado criminalmente”, disse José Baptista, pai de um adolescente, até então integrante de um grupo de assaltantes.

Maior controlo sobre os filhos

Presente no acto, a directora do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Comando Geral da Polícia Nacional, superintendente-chefe Engrácia Costa, afirmou ser importante os encarregados de educação exercer maior controlo sobre os filhos para se evitar comportamentos desviantes.

Em declarações ao Jornal de Angola, Engrácia Costa referiu que muitas vítimas da delinquência juvenil são pessoas que residem no bairro e lamentou o comportamento dos encarregados de educação que protegem os filhos envolvidos na delinquência, situação que contribui para o aumento da insegurança.

A oficial superior da Polícia Nacional apelou ao incremento do diálogo no seio das famílias e adopção de um comportamento digno e saudável entre os moradores do Sambizanga.

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