Cultura

Grupo Nguami Maka leva música tradicional à Polónia

Manuel Albano

Jornalista

A diversidade e contagiante rítmica angolana esteve mais uma vez em evidência nos palcos internacionais, com a participação do grupo tradicional Nguami Maka, no Festival Jazztopad, que decorreu de 18 a 27, deste mês, em Wroclaw, na Polónia.

29/11/2022  Última atualização 13H09
Quinteto é composto pelos multi-instrumentistas especialistas em música angolana de raiz e deixa boas referências na Polónia © Fotografia por: DR

Jorge Mulumba e colegas mostraram o que de melhor existe sobre os diferentes estilos musicais ancestrais angolanos, para um povo, o qual classificou  de "educado e disciplinado”, culturalmente por saber respeitar o trabalho dos artistas.

Conhecido nas lides culturais como o "Embaixador da Dikanza”, o qual tem estado a fazer um trabalho de difusão do mesmo instrumento por via do projecto "Tuxike O dikanza”, Jorge Mulumba encontra-se actualmente na Polónia, onde fez parte do elenco artístico do Festival Jazztopad.

O grupo chegou à cidade Wroclaw, na Polónia, no dia 22 e actuou apenas no dia 24, às 18h30, no principal palco do festival onde realizou dois concertos temáticos por dia, com a duração de um hora cada. "Antes tivemos um encontro com um jornalista local que públicou sobre as dinâmicas culturais, vida e obra dos integrantes do grupos, sobre os estilos musicais do grupo e os demais géneros musicais e artísticos produzidos no país”.

Da pesquisa feita pelo jornalista polaco sobre o grupo, disse, pouco ou nada encontrou, senão, uma experiência do Nguami Maka, numa fusão de um tema tradicional com o estilo rap denominado, "Não Era Pra Ser Assim” com a participação de MCK, Ikonoklasta e Gaia Beat. Da sua pesquisa, durante o encontro realizado uma hora antes do grupo ter actuado, o público procurou entender como foi possível juntar o tradicional com o contemporâneo na parceria com o Cleyton M, Noa Zulu, compositora israelita  Avner Hodorov e o próprio Nguami Maka. "Isso criou alguma curiosidade em quer saber mais sobre a realidade artística nacional”, explicando, igualmente, que o convite foi da organização do festival.

 

Propostas inovadora

Como desafio, ressaltou, a organização pediu que o grupo apresentasse uma proposta inovadora, que pudesse trazer novos factos culturais e artísticos no festival, sonoridades diferentes do habitual. Razão pela qual, o grupo apresentou o "Fragmento”, algo inacabado, com performances intercaladas com quarteto, trio e a solo. Por exemplo, Jorge Mulumba, abriu o concerto a tocar kissanje, criando vários momentos de fragmentação em palco como conceito do festival.

De acordo com o instrumentista, a sala onde actuaram foi a mais usada durante os nove dias de festival. "Temíamos que no nosso dia a sala estaria vazia por sermos desconhecidos do público e apresentar um conceito diferente como proposta num festival de jazz”, revelou.

Numa sala para 400 pessoas, o concerto do grupo angolano teve a sala preenchida, segundo o interlocutor. "Foi um espectáculo com bastante energia. O público é disciplinado e sabe respeitar o trabalho dos artistas sem fazer ruídos e filmagens durante a actuação”, disse.

Um dos aspectos que mais o chamou a atenção, é a reacção dos espectadores, antes, durante e depois do espectáculo. "O público polaco é bastante detalhistas, observador, porque os aplausos surgiam naturalmente como se fosse algo coordenado, o que nos deu uma energia de mostrar aquela ginga africana, no geral, e angolana, em particular.”

Jorge Mulumba afirma que foi dos melhores concertos do grupo pela dinâmica apresentada. A crítica americana e inglesa no local considerou positiva a participação do grupo por apresentar coisas novas. "Há muitos convites para que o grupo possa participar de outros festivais”.

Depois da actuação, no dia seguinte o grupo participou num roteiro denominado "Jazz em Casa”, que decorreu no sábado e domingo último, com a participação de vários músicos e instrumentistas locais e estrangeiros. O conceito do "Jazz em Casa” é os artistas deslocarem-se nas residências dos moradores, na perspectiva da realização de performances mais introspectivas.

 

Fusões de ritmos

Por exemplo, destacou, as participações de Ramir Drake, percussionista norte-americano que já tocou com o Bonga, bem como da flautista francesa Naissamy que, durante a sua actuação interpretou canções como "Mona Ki Ngi Xiça” de Bonga, "Sodade”, de Cesária Évora, para depois, juntamente com o Nguami Maka cantarem o "Engraxador”, poema de Jofre Rocha, musicalizado pelo falecido músico Tonito, do seu disco "Mafumeira”, lançado em 2015.

Nesta fusão de ritmos africanos, europeu e americanos, lembrou, as pessoas cantavam o refrão numa simbiose perfeita entre músicos e público. Fruto da repercussão que teve o projecto "Fragmento”, o mesmo será apresentado, em Luanda, no Palácio de Ferro e no Centro Cultural do Rangel "Njinga A Mbande”.

Para o percussionista, tratou-se de "um verdadeiro espectáculo à moda angolana”, na qual serviu para mostrar ao mundo, as potencialidades dos ritmos de Angola. Nas imagens difundidas pelas diferentes plataformas digitais, dá para ver que, no palco do festival, Jorge Mulumba e companheiros, tocaram ritmos como kazukuta, xinguilamento, massemba, ndjimba, kuduro, semba e kizomba.

A actuação de Jorge Mulumba e equipa, tornou-se contagiante que o público, pediu "bis”, várias vezes. Por causa disso, referiu, muitos polacos pretendem conhecer Angola. "Além de ser uma música de improviso, o Jazz começa a ir ao encontro das suas raízes, da identidade africana por ter o seu ‘DNA’, no nosso continente”.

O quinteto é composto pelos multi-instrumentistas especialistas em música tradicional angolana Eliseu (dikanza), Mulumba (puíta, lata, hungo, dikanza), Nando (ngoma solo), Pascoal (mukindu) e Roma (ngoma).

As peças cantadas privilegiam línguas nacionais como o Quimbundu. Os Nguami Maka já representaram Angola em vários países como Alemanha, China, Macau, Hong Kong e Coreia do Sul.

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