Especial

Grupo do “Processo dos 50” cada vez mais reduzido

Edna Dala

Jornalista

Nesta fase, os presos nem sequer podiam cantar ou assobiar, para espantar os males ou esquecer, por segundos, as suas dores. Durante o dia, sob um vento poeirento, os presos eram obrigados a carregar pedras de um lado para o outro do quintal. Quando o monte estivesse alto, mudava-se para outro lugar. Até esfolarem as pontas dos dedos.

16/11/2021  Última atualização 08H15
© Fotografia por: DR
O grupo dos primeiros presos políticos angolanos detidos em 1959 pela PIDE, que ficou conhecido como "Processo dos 50", revolucionou a história nacional e despertou, na época, o espírito de revolta e consciencialização dos angolanos para a luta de libertação nacional contra o regime colonial fascista vigente na época. Do grupo, apenas restam quatro integrantes: Amadeu Amorim, Diogo Ventura, Manuel dos Santos Júnior "Kapicua" e José Manuel Lisboa. No mês passado, partiu mais um, o mais novo de todos, o nacionalista Noé da Silva Saúde.


Amadeu Amorim, um dos sobreviventes deste Processo, conta que, devido aos factos da época, o primeiro presidente do MPLA, Mário Pinto de Andrade, escreveu um livro em Paris, com o título "Le process des 50”, que foi distribuído por toda a Europa, com o objectivo de denunciar os actos bárbaros, que o regime colonial pretendia esconder.


O livro impulsionou outros angolanos a começar o trabalho fora de Angola. Alguns estudantes, que estavam em Lisboa, também fugiram para engrossar as fileiras da guerrilha. Uns foram para Paris e outros para a Alemanha, como foi o caso de Viriato da Cruz e Lúcio Lara. Outros rumaram para Conacry, como Holden Roberto e tantos outros. O grupo da FNLA foi para Suíça, assim como tantos outros jovens que se encontravam em Portugal, com o apoio da Igreja Protestante.



Nem podíamos cantar

Apesar da tortura, privação dos seus direitos, o grupo que viria a ser conhecido como "Processo dos 50” lutou com coragem e bravura e venceu as agruras das tropas fascistas coloniais, sempre convictos no sonho de um país livre.
Durante pouco mais de 10 anos, Amadeu Amorim viveu de cadeia a cadeia, até ser transferido para a prisão de Tarrafal, na Ilha de S. Tiago, em Cabo Verde, onde passou uma temporada. Com nostalgia, lembra que os presos políticos sofreram as agruras de uma prisão do tipo "celular maior", sem direito a recreio, visitas, revistas, livros ou jornais.


Nesta fase, os presos nem sequer podiam cantar ou assobiar, para espantar os males ou esquecer, por segundos, as suas dores. Durante o dia, sob um vento poeirento, os presos eram obrigados a carregar pedras de um lado para o outro do quintal. Quando o monte estivesse alto, mudava-se para outro lugar. Até esfolarem as pontas dos dedos.


Quem fosse apanhado a assobiar ou a entoar cantos, era atirado para o quarto solitário de tortura,  com mais ou menos  um metro de comprimento e igual de largura, ao Sol altamente escaldante. Curiosamente, chamava-se "La fria". Os que passavam pelo quarto, praticamente não tinham direito a água. Apenas um pouquinho. Era mesmo uma prisão de morte lenta e o preso não tinha valor nenhum.



Essa prisão era especial para torturar os presos e acabar com as suas vidas, sem sequer dar um tiro. O quarto solitário era tão minúsculo que não dava para andar. Comia -se quando podia, quando dessem. Quem pudesse aguentar, aguentava; quem não podia,  morria ali mesmo.


"La fria" ficava virado para o Sol. Por isso, era quente demais. Normalmente, os mais novos aguentavam. Mas, os mais velhos acabavam por morrer. Era o caso, por exemplo, de muitos presos saídos da Guiné-Bissau. Eram situações difíceis.


Tarrafal é um terreno vulcânico. Para aliviarem as necessidades, os presos tinham de usar barris que eram colocados nas celas comuns. Os mais velhos não conseguiam sequer trepar o barril. A retrete da prisão só era utilizada à hora do almoço. O mau cheiro justificava a quantidade de doenças na prisão. Até o banho era humilhantemente colectivo. Todos nus, desde os mais velhos aos jovens,  banhavam sem respeito pelas idades.


Depois resolveu-se que ninguém podia utilizar o barril. Por causa do cheiro insuportável que transbordava pelas celas às noites, as pessoas não conseguiam dormir. Com isso, os presos tinham de esperar até à hora do almoço para correr ao quarto de banho para fazer as necessidades.


A retrete não era mais do que um buraco no chão, onde as pessoas se sentavam para fazer as necessidades maiores. Não havia meios para higienização, como papel, por exemplo. Cada um limpava-se como podia. Quem tivesse algum papel usava, quem não o tivesse usava as mãos ou mesmo a roupa.


Como as pessoas ficavam muito tempo sem se aliviarem, quando chegava o momento de usar a retrete, as fezes não saíam; ficavam duras. Como consequência, muitos presos, na época, foram operados a hemorróides.
Durante três anos, a comida foi feijão macunde, com carne de porco e salmoura já envelhecida. O médico aparecia apenas uma vez por mês e este, para nos dizer, peremptoriamente, que estava ali só para assinar atestados de óbito. O único remédio na época era tintura de bejoim.


No adeus a um nacionalista

No dia 11 de Outubro, o país se despedia de Noé da Silva Saúde. Aos 83 anos, era o mais novo do grupo de nacionalistas que ficou conhecido como "Processo dos 50”. Era também um dos cinco ainda em vida. O partido que serviu até à morte, o MPLA, o considerou ""militante de primeira” que "construiu em volta de si e dos seus correligionários uma trajectória político-partidária de lutas e de vitórias, que deve perdurar como valor inspirador para a consolidação dos ideais que nortearam a luta armada de libertação nacional”.


Segundo o MPLA, Noé Saúde pertence à geração de angolanos determinados, destemidos e dedicados aos mais altos anseios da Nação, tendo abraçado, exemplarmente, o projecto de construção de uma Angola cada vez mais desenvolvida, democrática e inclusiva. "Os feitos e o nome de Noé Saúde serão lembrados e narrados pelos angolanos que o têm como um dos seus melhores filhos, cuja morte representa a perda de parte da memória colectiva da história do Povo angolano”, refere o partido no poder.


Na cerimónia em homenagem ao nacionalista, o político Lopo do Nascimento lembrou a amizade de mais de 50 anos com Noé Saúde, de quem foi vizinho. "Vivemos no mesmo bairro, no Indígena, quando tínhamos apenas 12 anos de idade", revela, ao mesmo tempo em que destaca a amizade e cooperação entre ambos.


"Com o Noé Saúde, aprendi a matabichar massa, quando o costume era comer o pão com chá”, disse, para acrescentar: "apesar de sermos de igrejas diferentes, eu católico e ele protestante, conseguimos manter uma convivência quase de irmãos”.
O também nacionalista Amadeu Amorim recordou o contemporâneo como uma figura histórica do nacionalismo angolano, que se bateu incansavelmente pela Independência Nacional.


Medalhas para os heróis


O nacionalista Amadeu Amorim defende a instituição da Medalha de Herói Nacional, para honrar os sacrifícios consentidos à Nação por essas figuras. A medalha, indicou, seria criada pela Nação e não pelo Governo, porque estes são mutáveis. Seria criada pelo Presidente da República e instituída pela República de Angola.


"O país tem de saber reconhecer quem são estes homens e mulheres que tiveram a coragem e deram tudo das suas vidas para tornar Angola independente. Seria bom colocar uma medalha no peito destes homens e não reconhecer apenas os seus feitos depois de mortos”, sublinha, para acrescentar: "é em vida que temos de sentir que somos heróis”.


Amadeu Amorim lamenta a partida de mais um nacionalista sem o devido reconhecimento, como aconteceu com tantos outros heróis. "É pena que Noé da Silva Saúde tenha partido sem uma medalha de Herói Nacional ao peito”, lamenta e recorda que o colega foi julgado e condenado como terrorista pelo Tribunal Militar territorial colonial.


"Cumpriu pena de prisão no Tarrafal e foi-lhe aplicada pena maior, com medidas de segurança prorrogáveis e perda de direitos políticos por longos anos, naquele Tarrafal, também conhecido como Prisão da morte lenta. "Noé Saúde soube bem quanto custou ganhar a nossa bandeira".
Amadeu Amorim recordou a advogada da causa, na altura, Maria do Carmo Medina, que disse: " esse julgamento foi um tiro no pé. Catapultou a luta e encorajou o nosso povo fazendo-os crer, que afinal não estávamos no fim".


Um nacionalista convicto

Noé Saúde fez parte da plêiade de jovens angolanos que, pela sua perspicácia e coragem, se agigantaram e contribuíram para o derrube do sistema colonial português, seguindo firme o legado dos nossos reis e sobas na sua resistência à ocupação colonial.
Desde a primeira hora, ele lutou pela Independência do país e participou, entre outras acções, como tradutor do Exército de Libertação de Angola (ELA), dirigido por António Pedro Benge, Joaquim Figueiredo, Sebastião Gaspar Domingos e Fernando Pascoal da Costa.


Natural de Calomboloca, Noé Saúde foi preso em Luanda, em 1959, pela PIDE, naquilo que veio a se chamar mais tarde "Processo dos 50”. O seu percurso de vida foi mais um exemplo de dedicação à nobre missão de fazer de Angola uma pátria livre e digna para todos os angolanos.

Devido aos interesses das grandes potências, em plena guerra fria, nem tudo correu bem. Problemas internos e guerras clandestinas provocadas, em grande parte, por estratégias estrangeiras empurraram os angolanos para a guerra. "Foi assim com a revolta activa, no Leste, e outros desentendimentos vividos na guerrilha”, revela Amadeu Amorim, para acrescentar: "Não há país nenhum no mundo que nos 40 anos da sua existência não tenha cometido falhas na sua governação, nem exemplos de que com um novo Governo os problemas financeiros de um país se resolvam facilmente de forma a trazer comida em abundância para o seu povo”.


Angola foi o país da África tropical
que mais resistiu ao domínio europeu


Citando o historiador  francês René Pelissier, Amadeu Amorim lembrou que Angola foi o país da África tropical que mais vigorosamente resistiu ao domínio europeu até 1941.” Muitos vivem convencidos que a luta começou apenas em 1975 e nos tornamos logo independentes. Não é verdade. A luta de libertação começou muito antes”.


"Lutamos até 1941 e, 18 anos mais tarde, em 1959, surgiu o "Processo dos 50", que deu  continuidade à luta e, na época, resultou em outros movimentos, como o massacre de Icolo e Bengo, em 1960, o levantamento da Baixa de Cassanje, em Janeiro de 1961, seguido do famoso 4 de Fevereiro, em 1961, o 15 de Março, do mesmo ano, e, finalmente, a fuga dos 100 estudantes  da Casa dos Estudantes do Império, de Portugal, capitaneados por João Vieira Lopes e Pedro Filipe”, lembrou. O primeiro pelo MPLA e o segundo pela FNLA.


"Até 1975, o grande marco do fim da libertação nacional, nós, os do "Processo dos 50” e tantos outros, atravessámos montes, rios e chanas, lutámos sem nos deixar intimidar”, afirma, lembrando Ilídio Machado, Holden Roberto, Agostinho Neto, entre outras grandes figuras que já não fazem parte do mundo dos vivos, mas que deixaram o seu legado numa Angola livre, que hoje todos usufruímos, com a mensagem sempre de um país unido e próspero.


 Botafogo  foi um
centro de conscientização


O nacionalista e político Lopo do Nascimento lembra que, na época, havia um centro, que os portugueses chamavam de subversão, mas que, na verdade, era um "centro de consciencialização angolana". Chamava-se Botafogo.


No local, explicou, eram elaborados panfletos, que eram distribuídos, à noite. Quando não podiam participar da elaboração dos mesmos, tinham a função de distribuí-los pelo bairro. Depois criou-se, ao lado, o Clube Botafogo. Os portugueses achavam tratar-se de uma casa para jogos e farras, quando, na verdade, o objectivo final era a formação dos jovens e dar-lhes consciência.


O Botafogo foi um destacado centro de conscientização dos jovens e não um mero clube para jogos e farras, como se fazia crer aos colonialistas, na altura. "Tínhamos aulas ao fim da tarde e de noite. Dizíamos que era para as pessoas aprenderem a ler e a escrever, mas não era apenas para isso. Era, também, para meter na cabeça dos jovens os objectivos da participação na luta de Libertação Nacional".


No centro, também tínhamos bibliotecas e jornais que eram feitos a mão. Ainda assim, as pessoas liam. Lopo do Nascimento, que foi o primeiro Primeiro-Ministro de Angola independente, lamentou a perda do amigo e de "um grande filho da pátria”. " É lamentável, mas é normal, porque ninguém ficará aqui", afirma, com a voz meio embargada pela emoção. E lembra: "há uma coisa que era muito normal entre nós, na época. Irmos ver os barcos estrangeiros sempre que atracavam, principalmente os americanos.


O que tinha de especial estes barcos? Nessa fase, havia um grupo de tripulantes negros que levavam os documentos para fora. Estes documentos eram produzidos por grupos políticos, com destaque para o ELA, e os mesmos traziam dossiês de outros pontos, principalmente do Ghana. Nestes documentos vinham informações de como estavam a evoluir as coisas lá fora em relação à luta de libertação. Noé Saúde era o elemento de ligação com os tripulantes americanos, fundamentalmente os negros cubanos.

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